Ailton Villanova

11 de novembro de 2016

O que adiantou falar estrangeiro?

  Amigos desde a infância, na Ponta da Terra,  Jorgivaldo Nonato, o Jorjão, e Paulino Borges, vulgo Chave de Boca, fundaram uma sociedade para administrar uma oficina de lanternagem e pintura de veículos automotores, que não deu certo. Sobraram para os sócios um monte de débitos e uma velha Kombi toda enferrujada e amassada. Seus pneus não podiam nem passar por cima de uma ponta de cigarro, senão, já viu… buuummm! – câmara-de-ar exposta, explosão, com toda certeza.

      – Estamos lascados, Jorjão! E agora, o que é que a gente faz? – preocupou-se o Boca.

      – Deixa eu botar o miolo pra funcionar, rapaz! Me dá um tempo, tá legal?

      Passaram-se os dias  e aí Jorjão procurou o amigo com uma idéia genial na cachola:

       – Que tal a gente botar a nossa Kombi pra transportar turista?

       – Você tá maluco, meu? Essa Kombi não aguenta o tranco!

       – A gente dá um trato nela!

       Mecânicos profissionais, os dois fizeram o possível para deixar o veículo em condições mais ou menos apresentáveis. Feito isso, encostaram o sobredito ao lado de um dos hotéis da orla marítima, e ficaram na expectativa. Não demorou muito , apareceu um casal de turistas estrangeiros pretendendo conhecer a cidade. O homem manifestou-se em inglês:

        – I would like to know your city.

        Sem entenderem nada do que o gringo estava dizendo, sócios ficaram mudos, encarando o casal de gringos. Dessa vez quem falou foi a mulher, mas no idioma alemão:

         – Entschuldigung, koennen Sie sprechen de Deutsch?

          Jorjão e Boca nem aí.

          Poliglotas, os turistas tentaram se comunicar com os donos da Kombi, apelando para outras línguas:

           – Escusez-moi, vous parlez français? Parle italiano? Hablan español?

           Nada. Os sócios continuavam não entendendo bulhufas. Só faziam piscar os olhos e balançar a cabeça negativamente. Puto da vida, o casal girou nos calcanhares e se mandou, reclamando.

           E o  Jorjão:

          – Viu? Viu a merda?

           – Qualé a merda, pô?!

          – Como é que a gente quer transportar  turista gringo se num sabe falar porra nenhum de língua estrangeira? A gente precisa aprender pelo menos uma…!

          – E o que é que adianta isso? Aqueles gringos sabiam um monte de idiomas, não sabiam? Quê que adiantou? Não adiantou nada!

 

Bodas de cornança

      Carinha angelical, Dulcirene nasceu na zona rural de Palestina. Conheceu o mancebo Agripino, numa festa de São João, em Olivença. Casaram-se ao cabo de 12 meses de namoro e noivado. Deram uma festa estrondosa. O pai da noiva, seu Odulfo, tão contente ficou que tomou o maior porre da sua vida. Entrou num coma alcoólico que durou 24 horas.

      Os tempos passaram, Dulcirene e Agripino tiveram um casal de filhos que eram a cara da mãe. Lindinhos, portanto. Quando estavam para comemorar dez anos de casamento, o marido chamou a mulher num canto e revelou:

       – Tô bolando uma ideia jóia, Dulcinha. Advinha!

       – Como é que eu posso, nego? Dê pelo menos uma dica, vá!

       E ele, cheio de mistério:

       – É sobre certo aniversário…

       Dulcirene tentou advinhar, não conseguiu. Então, Agripino expôs o seu plano:

       – É o seguinte… Nós vamos comemorar os dez anos do nosso casamento em Maceió, e fazer tudo o que a gente fez na lua-de-mel, que tal?

       – Maravilhoso! Mas tem que ser igualzinho, viu? – exigiu a mulher.

       – Claro, amor! Tudo igualzinho!

       Na data certa, o casal viajou à capital e hospedou-se no mesmíssimo hotel em que ficaram na noite de núpcias. À noite pediram o mesmo jantar e, em seguida, foram pro quarto. Aí, Dulcirene recordou-se:

        – Nego, tá lembrado que você saiu pra comprar vaselina, porque eu era muito arrochada, e demorou um tempão, porque todas as farmácias das redondezas estavam fechadas?

        – É… tô lembrado!

        – Vai de novo, que eu quero que tudo seja igual, senão num tem graça nenhuma…

        -Tá legal.

        Agripino se mandou pra rua. Só que dessa vez voltou rapidinho. A cidade crescera bastante nos últimos dez anos  e em torno do hotel havia um monte de farmácias. Ao chegar ao quarto, Agripino tomou o maior susto da sua vida: sua adorada esposa estava na cama em trajes de Eva, no maior abufelamento com o gerente do hotel.

 

         – Mas o que é isso Dulcinha???!!!

         E ela, tranquilona:

         – Eu não falei que queria tudo igualzinho? Na noite de núpcias foi assim!

 

Voa, pombinha!

     Quando nasceu, na bucólica Cariré, no Ceará, terra de cabra macho, ele era gordinho, bonitinho e delicadinho. A mãe, então, aplicou-lhe o nome de Rosalino, mas só o chamava de Rosinho. Mas ele só começou a encarar uma marcha-à-ré esperta, quando completou 15 anos. Seu “debut” foi, justo, com o primo Orfeu, numa touceira de cana, que ficava no sítio do avô Pirôncio.

      Desabrochado para a pirobagem, Rosalino optou pelo delicado pseudônimo de Paloma, que, traduzido do espanhol é Pomba. Bundinha arrebitadinha, bastante sapeca , a bichina arribou da terra natal com a trupe do Circo Belga e veio bater em Maceió, onde se desgarrou e passou a viver a sua própria vida. Prostituiu-se, essa é que a verdade.

       Em Maceió Paloma conheceu um monte de boiolas, entre tais Valquíria Flor-de-Lys, que passou a ser a sua companhia de todas as horas. Essa daí era danada pra cantar homens, mas Paloma não ficava atrás.

        Um dia, Paloma desapareceu do pedaço, acompanhando um caminhoneiro intitulado Chicão que, segundo informações fidedignas, calçava sapatos número 62. Durante dias e dias a boneca ficou fora de circulação e quando ressurgiu no pedaço estava um caco, quer dizer, bastante machucada – braço engessado, hematomas e equimoses pelo corpo inteiro, os olhos arroxeados… Dava pena, a coitadinha. Quando ela se apresentou à amiga Flor-de-Lys, esta assusou-se:

          – Mãããeee do céu! O que foi que houve com você, queridinha? Você está um hor-ror!

          E elazinha, mal podendo falar:

          – Lembra do Chicão, aquele caminhoneiro  lindão, que mais parecia o Rambo?

          – Aquele que lhe pegou no bar do Abreu?

          – Esse mesmo, meu amorrr…

          – Ele quase lhe matou, hein? O que ele lhe fez?

          – Bom… primeiro, ele me convidou para a gente dar uma voltinha na orla…

          – Aí, você foi!

          – Fui, claro. Em seguida, fomos à um barzinho muuuito aconchegante. Um a-morrr!

          – E depois?

          – Depois, ele me chamou para irmos à igreja. Fomos. Quando chegamos lá, ele sugeriu que subíssemos até a torre do sino. Então, Chicão me envolveu com aqueles braços fortes, levantou-me no colo, chegou na janela e me disse com todo carinho: “Voa, pombinha!” E me jogou de lá de cima!