Ailton Villanova

10 de novembro de 2016

Usou a “peça” demais!

     Tardezinha de uma segunda-feira, a sala de espera do consultório do médico Mediastino Hipocôndrio ainda se encontrava abarrotada de clientes. Aí, sua curvilínea recepcionista Reolândia (Landinha para os íntimos) entrou em cena, com sua maviosa e sensualíssima voz:

      – O próximo!

      Levantou-se uma mulheraça cheia de curvas, usando um vestido vermelho coladíssimo no corpo, rosto e olhos pintados, longos e bastos cabelos caídos sobre os ombros, que partiu firme para a sala de atendimento do distinto esculápio. Meteu os peitos na porta e entrou.

      Naquilo que botou o olhão na criatura, doutor Mediastino agitou-se todo:

       – Por favor, minha querida, entre nessa salinha aqui ao lado, tire a roupa, fique despida e me aguarde.

       Landinha, a recepcionista, veio logo em seguida e ofereceu-se:

       – Quer que eu ajude a moça a se despir, doutor?

       E ele, todo atrapalhado:  

       – Precisa não, minha querida. Isto aqui é assunto estritamente médico. Volte pro seu lugar e vá cuidar do seu serviço!  

       A paciente entrou na saleta, tirou a roupa, espichou-se na maca de exames e ficou aguardando o doutor, que não demorou muito a entrar também, no cômodo, para iniciar o procedimento clínico. Doutor Mediastino teve de controlar-se quando se viu diante daquela fartura.

         Devagar, com muito carinho, conforme recomendam os padrões éticos da medicina, o doutor preparou-se para iniciar o exame. De repente, ele parou e exclamou de boca aberta:

         – Incrível! Fantástico! Fenomenal!

         O motivo de tanto espanto era o de que a mulher não tinha umbigo.

         – Um momentinho, minha querida! – disse o doutor, saindo do espanto. – Aguarde aqui, que viu chamar um colega que tem um consultório aqui ao lado. Volto já!

          O colega era o doutor Edilson Constantino, que também ficou embasbacado diante da criatura:

           – Valhe-me Deus! Que mulher!

           Finalmente, os dois médicos passaram a examinar o ventre da paciente. Quem primeiro se manifestou, depois do exame de local, foi o doutor Constantino:

           – Meu caro  Mediastino, este é um caso típico de anomalia pré-uterina de ligação não umbilical!

          E Mediastino, mais realista:

          – Pois eu acho que é um caso simples. Trata-se de uma cirurgia plástica mal feita.

          Nesse ponto das ponderações, a paciente resolveu intervir:

          – Pois os dois estão enganados. Não é nem uma coisa e nem outra. É que gastou mesmo!

                                                                        

Ô cabra irresponsável!

 

 

      Ninguém pode negar que o distinto Ribamar Costa é um batalhador incansável. Dono de três lojas de artigos diversos, ele não para de trabalhar. Enquanto isso, sua mulher Maria Altina, muito da gostosa, por sinal, nada faz nada de útil vida, a não ser gastar o dinheiro do coitado, mas ele, gamadão, não está nem aí!

      Mas, Altina sabe se cuidar. Além de caminhadas diárias na orla marítima, ela faz musculação numa das mais badaladas academias da cidade. No aspecto físico, o marido é o contrário dela: baixinho, gordinho, meio vesgo e um bocado ingênuo, quando o assunto pende para o lado doméstico. Outro dia, ele fez uma coisa não fazia há um tempão: foi pra casa almoçar e não teve a preocupação de avisar à mulher. Custava fazer isso? O celular estava não na mão? Não avisou, e quase matou Altina de susto!

     Ribarmar entrou em casa e foi direto pro quarto. Qual não foi a sua surpresa quando a viu peladona, na cama, respirando com certa dificuldade:

       – O que foi que houve com você, Tininha? Por que está passando mal desse jeito?

       E ela, ofegante:

       – Ai, ai… Acho que estou tendo um infarto!

       O marido ficou feito doido. Perder, de graça, aquela gostosura, nem pensar! Mais que depressa pegou o celular e começou a discar para a ambulância do seu plano de saúde. Nesse momento, entrou no quarto o Juninho, filho único do casal, todo apavorado:

       – Painho! Painho!

       – Pera lá, meu filho. O painho tá ocupando!

       E o menino, insistindo:

       – Painho… o gerente da sua loja no shopping…

 

      – Sim, o que tem ele?

      – Ele tá nuzão… lá no quarto da empregada!

      – O Paulão?

      – Sim, ele mesmo!

      – Ah, fiadaputa!

      Ribamar esqueceu a esposa e foi ter com o gerente Paulo Emiliano. Chegou lá, esbravejou:

       – Putaquipariu, Paulão!

       E o cara, nervosão:

       – Bom… é o seguinte…

       – Não tem “seguinte” porra nenhuma! Você é um irresponsável, Paulão! Onde já se viu deixar a loja abandonada em plena hora de almoço!

 

Pra quê outra gripe?!

      Médico popularíssimo, além de competente legista, o saudoso Aílton Rosalvo gostava de clinicar no subúrbio. É que ele se identificava muito com a plebe, que não gosta muito de frescura. Além do mais, o povão acatava bem as suas anedotas. O xará era um piadista incorrigível

      Certo dia ele se achava de plantão no posto médico da Chã de Bebedouro, quando pintou lá um freguês: seu Perácio Botelho, a venta mais vermelha do que tomate maduro, que lhe dirigiu patético apelo:

      – Me ajude, doutor! Tá com quase meia hora que não paro de espirrar. Acho que vou gripar! O que o senhor me aconselha pra não pegar nova gripe?

      E doutor Aílton, muito sério:

      – Eu o aconselho ficar com essa que tem!

 

 

Pé na cova

      Seu Risolênio Azevêdo foi um velho treloso que residiu no distrito da Cambona. Quando era mais moço, a vida dele era paquerar as operárias da finada Fábrica Alexandria. Nas épocas natalinas, no Bom Parto, ele gastava rios de dinheiro com as pastorinhas do cordão azul.

       A Alexandria fechou, o bairro fabril faliu, seu Risolênio sumiu do mapa. Ressurgiu anos depois, mais murcho do que maracujá passado. A última vez que o viram, ele tomava fresca na Praça dos Martírios, juntamente com o amigo velho Bráulio das Chagas Pereira. Entre os dois, rolava o seguinte papo:

       – Sabe, Bráulio, decidi me casar. Não me acostumo mais com essa vida de solteiro!

       – Não diga!

       – Verdade. Quero que você dê sua opinião a respeito dessa minha decisão.

       E seu Bráulio:

       – Você está com que idade mesmo, Risolênio?

       – Aqui pra nós… 97 anos!

       – Acho que você deve deitar na cova e morrer!

 

Tristesa recíproca

    Madame complicada é dona Catervilda, dileta esposa do distinto Orphalêncio Pinto. Tanto ela insistiu que o marido comprou um piano e lhe deu de presente no dia do seu aniversário. Como não tinha outra coisa a fazer na vida, Catervilda se debruçava sobre o piano e danava-se a agredir o teclado. Aí, era castigo de verdade.

 

     Um dia, ao acabar de chegar do trabalho, Orphalêncio foi abordado pela mulher:

      – Está me acontecendo uma coisa estranha, meu amor!

      – Que coisa estranha é essa?

      – É que toda vez que estou tocando piano, me dá uma tristesa tão grande… 

     E ele:

     – Em mim ainda mais, minha velha!