Ailton Villanova

9 de novembro de 2016

Remedinho santo demais!

     Ultraconservador, tradicionalista ortodoxo, padre Obdúlio Simplício jamais abriu mão da obrigação de visitar os seus paroquianos. Montado numa velha e maltratada bicicleta Philips, pedalava quilômetros e mais quilômetros pelas estradas poeirentas e esburacadas de sua circunscrição até chegar ao último fiel. Aos sábados, reservava uma horinha para o bate-bola com a rapaziada da Congregação Mariana da paróquia. Dizem que era um bom ponta direita.

      Certa feita, numa das suas andanças pela zona rural de Bom Conselho, bateu na porta de dona Estrevaliana, velhinha bastante carola que ainda conseguia se equilibrar nas finas canelas de mais de 90 janeiros. Ela o recebeu, eufórica:

      – Mas que felicidade, padre Obdúlio! Entre, entre!  Espere aí um instantinho que eu vou preparar um café bem fresquinho pro senhor!

      –  Precisa não, dona Teté. Eu  só vim cumprimentá-la, e não lhe dar trabalho…

     – Trabalho coisa nenhuma, padre. É uma satisfação!

     Dito isto, a velhusca mandou-se corredor a dentro, arrastando os pés até chegar à cozinha. Enquanto ela preparava o café, o reverendo dava uma voltinha na sala, reparando nos quadros pendurados nas paredes e nos objetos que a decoravam. De repente, parou diante de um órgão musical, sobre o qual havia uma tigela de vidro cheia de água e uma camisa de vênus flutuando, dentro.

       Chocado com aquela visão, padre Obdúlio afastou-se até o canto da parede e ficou quietinho lá, até que a velhinha retornou à  sala com o café prometido.

 

       – Prontinho, padre! Tá fresquinho, quentinho, gostosinho e bem docinho! – disse ela, toda contente.

       O sacerdote bebeu o primeiro gole, estalou a língua, preparou-se para saborear o segundo e aí deu uma paradinha, para matar a curiosidade:

        – Dona Teté, me responda uma coisa… o que significa essa coisa dentro da tigelinha, em cima do órgão?

        Ela suspirou e respondeu com ar de satisfação:

        – Aaahhh! Bom, padre, no ano passado, quando eu fui renovar o meu cartão de aposentadoria do IAPC, eu achei, na rua, uma caixinha bonitinha. Nela, tinha umas instruções, que diziam: “Mantenha úmido e coloque sobre o órgão, para prevenir doenças”. E, sabe, padre?, funciona que é uma beleza! Desde aquela data num tive, sequer, uma gripezinha! Nem pra remédio!

 

Erro de visão

     Naquela sexta-feira, o plantão noturno do antigo Pronto Socorro de Maceió, estava pra lá de movimentado. Só dava caso de violência, pouquíssimos clínicos. Para complicar ainda mais a situação, eis que baixou lá, de última hora, um rapaz todo desmantelado, tudo indicando haver sido atropelado por um trator, ou coisa do gênero.

     Um dos médicos de plantão, o saudoso Carlos Augusto Carvalho, recebeu o infeliz na sala de emergência e não se conteve quando reparou no seu estado físico:

      – O que foi que o atropelou, meu jovem: uma jamanta ou um trem?

      O infeliz, parou de gemer, e explicou:

      – Foi o pai da minha namorada, doutor!

      – Ele estava dirigindo algum ônibus, por acaso?

      – Não senhor. O caso foi o seguinte: Eu estava dançando lambada com a filha dele, na sala de casa. Aí, ele chegou e foi logo me cobrindo na porrada! Como o senhor está vendo, ele quase me matou!

      – Por acaso esse seu sogro é doido?

      – Não é não, doutor. O velho é surdo e pensou que a gente estava transando!

 

E foi o cavalo, mesmo!     

      Viúvo necessitado, seu Theócrides Azevêdo, resolveu paquerar a sogra do filho Aderbal, viuvaça inteirona, que também andava no sufoco. Em assim sendo, o coroa decidiu passar o fim de semana na fazenda da viúva que, logo de cara, o convidou para um passeio de charrete pela propriedade. Na primeira volta que deram, o cavalo soltou um “pum” aloprado. Envergonhada, a viúva desculpou-se:

       – Oh, mas que vexame, seu Theócrides! Eu realmente sinto muito!

       E ele, cheio de compreensão e gentileza:

       – Ora , ora! Não tem problema, dona Vitória! Está tudo bem! Eu cheguei a pensar que tivesse sido o cavalo!

 

Vovó escolada demais!

      A garotona Tegucigalpa Crisálida programou curtir suas férias universitárias, de meio de ano, no sítio da avó Escoliósia. No primeiro fim de semana, baixou por lá o apaixonado namorado Algafeu, sob a alegação de que estava “morrendo de saudade” da amada. A avó o recebeu meio cabreira, mas… tudo bem. Afinal, era o namorado da neta querida. À noite, a velha recolheu-se mais cedo aos seus aposentos, deixando o casalzinho à vontade. Mas… ficou de ouvido bem aberto.

 

 

      Tegucinha e Algafeu namoravam com todas as precauções possíveis e imagináveis. Todavia, lá pelas tantas, os abraços e os beijos esquentaram a tal ponto que o casal resolveu escancarar. Até porque acreditava que a vovó já estava pra lá do “terceiro sono”. Quando estavam no auge da sacanagem, os pombinhos escutaram o grito da velhota, lá do seu quarto:

       – Tegucinha, que barulho é esse aí na sala?

       Assustada, mas com boa presença de espírito, a garota respondeu:

       – Não é nada não, vó!  É só o cachorro coçando as orelhas!

       Então, dona Escoliósia respondeu:

       – Que cachorro que nada, menina! Você acha que eu, com esta idade, não conheço o bate-bate de culhões?

 

Rico tem cada uma!

      No meio da madrugada, retornando de uma bruta farra, e pra lá de biritado, Eliseu Broderóido caminhava pelo calçadão da praia de Mangabeiras, de retorno ao lar, na Cruz das Almas. Ao se aproximar de uma residência elegante, reparou num latão de lixo com uma bunda branca se destacando. É que, momentos antes, uma bicha em desespero havia arriado as calças, entrado no supradito latão e exposto o traseiro, esperando quem se interessasse.

      Licopeno parou diante da peça e não resistiu à tentação de passar a mão nela. Em seguida, exclamou:

      – Não há como ser rico! Uma bunda novinha dessas e eles jogam no lixo!

 

Sinceridade prejudicial

 

 

       Evangélico desde criança, o Bredevaldo tem um grande defeito: ser sincero demais. Seu último e efêmero emprego foi o de balconista numa lanchonete no centro comercial de Maceió. Demorou o suficiente para vestir a bata e atender ao primeiro freguês, que pedira uma coxinha. A resposta do Bredevaldo veio na hora:

        – Olha, meu amigo se eu fosse o senhor não comeria essa coxinha. É de ontem!

        – Puxa! Obrigado pela sinceridade! – disse o freguês. – Então me dê um pastelzinho de queijo, que eu estou morrendo de fome!

        – Iiihhh… queira não! O pastelzinho também é de ontem!

        – A coisa por aqui tá feia, hein? Me dê uma empadinha, então.

        – Também é de ontem!

        – E como é que eu faço pra comer alguma coisa de hoje, nesta lanchonete?

        – Passe aqui amanhã!