Ailton Villanova

5 de novembro de 2016

Era uma vez um torcedor azulino

     Desde garoto (quando o Mutange ainda era distrito do bairro do Bebedouro e ele alí residia), Bredevaldo Luiz, o popular Bredé, alardeava para meio mundo, que era o maior de todos os torcedores azulinos. Hoje já não pensa mais assim.  

      Na véspera de um dos últimos jogos envolvendo o então queridão CSA e seu mais tradicional adversário, o CRB, ele fechou sua oficina de lanternagem mais cedo – isso lá pelas 14 horas do sábado -, e entrou numa espécie de concentração objetivando reunir bastante energia para gastá-la, todinha, por ocasião do bate bola, válido pelo campeonato alagoano de futebol.

        No domingo pela manhã, ele acordou por volta das 7 da manhã, tomou dois litros de vitamina de banana e comeu três cuscus. No Lanche das 10 horas, papou duas jacas, uma dura e uma mole. Ao meio-dia, almoçou uma besteirinha: apenas uma buchada de bode, com duas melancias de sobremesa. Em seguida, espichou-se na rede para puxar um ronco ligeiro. Acordou às 3 da tarde, chupou 8 picolés, bebeu três copos d’água, trocou de roupa, e quando se preparava para sair, avisou à mulher, já da porta da rua:

        – Nega véia, estou indo pro Trapichão, pra ver o meu glorioso CSA arrazar com o tal de CRB. Você sabe como é o riscado, num sabe? Só volto pra casa amanhã de manhã, depois que tomar todas, em comemoração a vitória azulina, certo?

        E a mulher:

       – Certo, meu velho. Vá com Deus. Vou ficar aqui rezando pro CSA vencer de 10×0!

 

        Quando Bredé entrou no seu fusquinha para se mandar, ainda escutou a mulher dizer:

         – Se cuide, meu velho! Torça pelo seu time direitinho, comemore bem comportadinho a vitória azulina e não entre em confusão para não ir preso, ouviu?

         – Se preocupe não, nega véia! Cháu!

         – Cháu!

         Bredé se arrancou de pé topado no acelerador e, quando entrou na avenida Siqueira Campos, principal via-de-acesso ao estádio, o trânsito estava pra lá de engarrafado. Aí, começou o irritante buzinaço. Não demorou muito, estourou uma briga entre torcedores, alguns deles munidos de paus e pedras. A avenida transformou-se numa autêntica praça de guerra. Em dado momento, um torcedor acertou uma porrada no parabrisa do fusquinha do azulino, estraçalhando-o.

           Quando reparou no estrago, Bredé endoideceu! Deu garra de uma chave de fenda, desceu do carro e partiu pra cima do depredador. Nesse momento, encostou uma viatura da PM, dela desceu um monte de milicos e um deles gritou:

            – Pare! Você está preso por tentativa de homicídio!

            Mas Bredevaldo estava cego e surdo de revolta, e foi em frente. No segundo passo que deu, levou uma cacetada no pé do ouvido. Depois, outra, mais outra, outra mais …

              Bredevaldo acordou uma semana depois, na UTI do Pronto Socorro, surdo de um ouvido e meio cego de um olho. Então, ficou sabendo que a surra que levara, fora aplicada pelos PMs. Quanto ao carango, este não prestou para ser recuperado: torcedores doidões adversários haviam ateado fogo nele.

 

 

 

Outro torcedor azarado

     Ainda hoje o Agristônio tenta descobrir que diabo de droga deram pra ele beber, domingo pela manhã, depois de um racha na praia do Pontal da Barra.

      Agristônio tinha acabado de fazer um gol de bicicleta e a torcida que se formara a favor do time que defendia, correu pra cima dele, para comemorar. Aí, um dos torcedores ofereceu-lhe um copo de refresco:

      – Vai um golezinho aí, artilheiro?

      – Só se for agora!

      Agristônio bebeu todo o conteúdo do copo, de uma emborcada só. Mal acabou de beber, ficou doidão, pulando que nem canguru e berrando feito Tarzan. No embalo, resolveu dar uma incrementada no barato: tirou a roupa e ficou pelado, igualzinho o Adão. A galera feminina foi à loucura. Não demorou muito, o nudista de circunstância caiu desmaiado no asfalto.

       Agristônio acordou azuretado na segunda-feira, no chão frio do xilindró do 3° DP. Não sabia onde estava.

 

Nem jogo e nem novela!

     O ambulante Tonho Olegário estava doido para ver o seu amado Corinthians jogar contra o Flamengo. Mas, cadê que estava podendo? A mulher dele, dona Estriquinina, monopolizava o único aparelho de televisão que havia em casa. Ela assistia à novela das oito da Globo, que, aliás, começa às nove e meia.

      E o Tonho, aperreado, para cima e pra baixo:

      – Como é, mulher? Essa merda de novela ainda não terminou? Quero ver o meu jogo, pela Globo!

 

 

       – Ah, nem tão cedo! Pode ir tirando o seu cavalinho da chuva. Quando acabar a novela, vou mudar para o SBT. Não posso perder o programa do Silvio Santos!

       – E o meu jogo, mulher? Quero ver o meu Corinthians!

       – Pra casa da peste você e o seu Corinthians. Tô nem aí! Por que você não compra outra televisão pra você?

       O que aconteceu a seguir foi um lance terrível . Impedido de ver o seu Coringão bater bola na Tv, o Tonho endoidou. Pegou o aparelho e arrochou na cabeça da mulher.

        O enterro dela foi ontem!

 

Velhinhos transviados

     Velhos amigos, seu Joventino e seu Juramildes, cada um com seus 90 janeiros na corcunda, resolveram ir a um bordel. A cafetina que os atendeu achou um desperdício escalar duas putas pra eles, considerando que os dois nem enxergavam direito. E o que fez, então? Deu pra cada um deles uma boneca inflável.

       Na saída, eles conversavam:

       – Que tal a tua mulher, Tino?

       – Acho que tava desmaiada, Jura! Não falou uma palavra e nem sequer se mexeu!

       – Pois a minha era doida! Naquilo que dei uma mordida no bico do seu peito, ela soltou um peido e saiu voando pela janela!

 

Quanto mais (…) menos!

 

 

      Dez horas da manhã, mas ou menos, Bertulino Paixão, biriteiro contumaz, entrou no primeiro boteco que encontrou, aproximou-se do balcão e pediu ao atendente:

      – Botaí um copo de cachaça!

      O balconista serviu-lhe, então, um copo cheio, pelas bordas. Bertulino virou a bebida goela a dentro num piscar de olhos. Em seguida, com a língua meio presa no céu da boca solicitou novamente:

       – Agora, me vê somente meio copo!

       O balconista “meiou” o copo de cachaça, deu pro freguês, que bebeu num segundo. Em seguida, ele estalou a língua e falou com os olhos rodando:

       – Agora… só uma dose!

       A maldita veio e Bertulino chamou na grande. E, já cambaleante:

       – Ago.. agora, xó um pouquinho…

       O funcionário do bar deu pra ele beber um copinho miniatura, com um pingo de cachaça no fundo. O pinguço virou o tiquinho e, já caindo no chão, conseguiu falar:

        – Tá vendo só? Quando menos eu bebo, mais biritado eu fico!  Num entendo mais nada!