Ailton Villanova

4 de novembro de 2016

Mil vivas para o motorista!

Com Diego Villanova

  

     Na década de 30, viveu no interior de Alagoas um político muito pilantra que atendia pelo nome de Agatineu Malvino, cujas mutretas o levaram à condição de vereador por diversas vezes. Cansado do parlamento, até porque não tinha mais cofre para afanar, decidiu partir para o executivo. Através de mil trambiques, elegeu-se prefeito. A primeira coisa que ele fez, assim que descansou a bunda na cadeira de alcaide, foi comprar um carrão último modelo, equipado de ar-condicionado e outras mordomias. Para adquirir esse veículo, ele teve de viajar ao Recife, de avião.

     De volta à sua cidade, sua vida era andar montado no carrão pra cima e pra baixo, com o negrinho Abelardo Vieira, o “Pajeú”, todo enfatiotado, ao volante.

      Certo dia, Agatineu Malvino achou de ir mais longe que de costume, nos seus passeios citadinos, esparramado no banco de trás do veículo oficial. Ao passar pela Rua da Gamela, localizada na periferia, eis que atravessou na frente do carro o cãozinho de estimação do velho Ezequiel, dono da padaria do lugar, e conhecido pela sua brabeza. Vabei! O bichinho foi voar longe!

       – Matei o cachorrinho, seu prefeito! – disse o motorista.

       E ele, soltando baforadas do charuto fedorento:

       – E eu cum isso? Matô, tá matado. Quem mandô esse peste passá na frente do artomóvi da arturidade? Vamo s’imbora!

       Pajeú avisou:       

       – O cachorrinho é do seu Zequié! Já pensô quando ele subé qui foi o carro do sinhô qui matô-lo?

        O prefeito pensou um pouco e decidiu:

        – Nesse causo me dêxe na prefeitura e dê um pulinho na padaria do Zequié. Diga pra ele qui o municípo vai indenizá o animá!

        Negrinho Pajeú se mandou para cumprir a tarefa e o prefeito ficou enfurnado no seu gabinete, esperando pelo resultado da missão confiada ao motorista. Não demorou muito escutou o espoucar de foguetes e gritos de alegria, algo parecido com a comemoração de um gol do Brasil na Copa do Mundo. “Quê qui diabo tá havendo? Qui festança danada é essa?” – indagou p’ros seus botões.

          A festa continuava rolando solta na rua, quando Pajeú retornou da missão. O prefeito pulou na frente dele, curiosíssimo:

          – Qui furdunço é esse na cidade, PaJeú?

          – Parece qui os pessuá indoidáro de vêis, seu prefeito!

          – Pur causo de quê?

          – Seio não! Só seio qui num me dexáro falá dereito quando cheguei na padaria prá dá o recado qui o sinhô mandô pru seu Zequié. Ninguém ainda sabia qui o cachorrinho tinha morrido atrupelado.

           – E você num deu o recado não?

    – Dei e num dei! Qué dizê, dei pela metade. Quando chequei na porta da padaria, fui logo falando: “Eu sô o chufé do prefeito, conforme todo mundo já sabe. Infilirmente, eu matei o cachorro…” Foi aí qui começou a festa e num me dexáro mais falá! E ainda me carregáro nos braço inté o carro!

 

 

E a casa caiu!

     De vez em quando o Abaeté Venâncio tem um ataque de burrice.  Esse distinto cidadão passou a metade da vida trabalhando como  mestre de obras, mas sempre sonhando em melhorar de vida. Um dia, foi bafejado pela sorte: ganhou uma nota preta na loteria esportiva e investiu na montagem de uma construtora.

      Desde que foi fundada, a empresa do ilustre Abaeté só funciona no vermelho, mas vai indo, aos trancos e barrancos. Semana dessas, ele encontrou-se com o amigo Nicomedes, a quem não via fazia um tempão, e este foi logo indagando:

      – E aí, Abaeté, como é que vai a empresa?

      – Vai devagar… quase parando! Ninguém tem procurado pra nada!

      – Mas por que, rapaz?

      – Não sei. Tem alguma coisa errada…

      – Então procure ver isso, enquanto há tempo!

      – Pois é. Quando fui fundá-la, eu pessoalmente cuidei de tudo direitinho. Inclusive, tive o cuidado de contratar os melhores técnicos para organizá-la. Só teve uma coisa que eles não concordaram comigo…

      – No que foi que não concordaram?

      – No nome das empresa. Você sabe que eu sou ligadão em cinema. Inclusive, sou fã daquele grande diretor, o Steven Spielberg…

      – Ah, então você botou o nome do Spielberg na sua construtora!

      – Não, não!

      – ET, por acaso?

 

      – Também não.

      – Finalmente, qual a relação que o Spielberg tem com a sua empresa?

      – É que ele fez um filme que adorei! Assisti bem umas 20 vezes. Aí, botei o nome do filme na construtora.

      – E qual é o nome?

      – “Um dia a casa cai”!

 

Entrou na porta errada!

     Altamente biritado, o tal de Lindauro Canindé provocou o maior escândalo num daqueles bares situados na orla marítima jatiuquense.

      O cara havia esvaziado a sua décima garrafa de cerveja e entendeu de ir ao toalete. Levantou-se e foi lá. Não demorou muito, a freguesia foi sacudida pelo berreiro de uma freguesa:

      – Socooorrro! Acudam! Tem um tarado aquiii!

      Um monte de seguranças entrou no toalete e deu de cara com o Lindauro balançando o “instrumento”, diante de uma apavorada madame. Os seguranças pegaram ele pelos sovacos e saíram arrastando até a rua.

       E ele protestando:

       – Parem com isso! Eu quero mijar!

       – Você vai mijar na baixa da égua, pra aprender a não entrar no toalete das senhoras! – respondeu um dos seguranças, apertando-lhe a goela.

       – E eu tenho culpa? Vou lá, vejo duas portas, uma do lado da

 

 outra… Aí, penso que estou entrando na porta certa e entro na errada! Tenho culpa de tá vendo tudo em dobro, tenho?

 

Tremenda sacanagem

     Pense num cabra sacana. Pois o Jairo Argileu Romão ganha de lapada desse que você pensou. Aqui vai apenas uma “amostra grátis” do vasto repertório de sacanagens da autoria do indigitado:

     Vendedor autônomo de produtos domésticos, ele dirigia o seu carrinho meio derrubado por uma das estradas intestinas do município de Palmeiras dos Índios, quando topou com um matuto tentando fazer um jumento andar. O animal estava empacado e não tinha jeito de sair do lugar. Argileu desceu do carro e disse pro matuto:

       – Tenho uma ideia muito boa pra o senhor fazer esse jegue andar.

       – E qui idéia é essa? Possa me dizê…

       – A ideia é a seguinte: o senhor pega um bocado de urtiga e esfrega no traseiro desse bicho e ele num instante sal do lugar. Experimente pra ver!

       O matuto correu até o mato, procurou um pezinho de urtiga – coisa que não falta nas beiras de estradas -, encontrou um monte delas, destacou uma porção e esfregou no foreba do jumento, que saiu disparado estrada afora.

        O matuto ficou com cara de bobo e o Argileu, então, indagou:

        – Viu? Viu como esse remédio é eficiente?

        E o matuto:

        – Vi! Mas… e agora, meu sinhô? O jegue fugiu! Uquié qui eu faço, pra mode pegá-lo ele de vorta?

 

        Argileu botou mais tempero na sacanagem:

        – É fácil, meu velho! Esfregue urtiga também no seu rabo! Num instante o senhor alcança o jegue!

        O infeliz foi na onda. Ainda hoje ele corre!