Ailton Villanova

2 de novembro de 2016

A melhor das soluções

Com Diego Villanova

 

     Todas as sextas-feiras meia dúzia de amigos – entre os tais a dupla Raulibaldo e Gilfredo -, se reuniam num determinado canto da cidade para um joguinho de cartas. Essa patota gastava uma nota preta, no baralho. A jogatina iniciava às sete da noite, emendava com o sábado e terminava ao raiar do sol do domingo. Um dia, o dono do local onde os caras se reuniam chegou pra eles e falou:

      – Vocês vão ter que procurar provisoriamente outro salão pro carteado, porque este nosso vai estar interditado por alguns dias…

      – O que foi que houve? – quis saber Gilfredo.

      – É que o cano mestre que conduz água pro prédio, estourou. Estão consertando a tubulação toda. É negócio pra uma semana de serviço!

      – Tá legal. A gente se vira!

      Em assim sendo, ficou acertado que o joguinho da sexta-feira seguinte seria realizado na casa do Raulibaldo, em caráter extraordinário. Separado da mulher, seu filhinho Juninho passava os finais de semana com ele. Cheio de dengos, o menino não dava chance ao pai. A toda hora estava chamando por ele.

       Bom. Chegou a sexta-feira e turma se dirigiu pra lá. Muito uísque e bastante tira-gosto aguardavam os camaradas.

        Mal distribuíram as cartas, Juninho acercou-se do pai:

        – Quero água!

        Raulibaldo interrompeu o jogo e foi buscar a água do menino. Ele bebeu metade, jogou o resto fora e ficou de olho na turma, que continuou mandando ver nas cartas. Não demorou muito, o menino voltou a perturbar:

        – Paínho, posso ver um filme na tevê?

        – Pode, meu filho! – respondeu o pai, de olho grudado nas cartas.

        Daí a pouco, olha ele novamente:

        – Paínho, vem arrumar a imagem da tevê, que tá ruim!

        E lá foi o infeliz ajeitar a tela da televisão do filho querido.

        Depois de mais de uma dúzia de interrupções, o Gilfredo, de saco cheio do garoto, se levantou e disse:

        – Aguentem a mão vocês aí, que eu vou lá ver se sossego o filhinho do nosso amigo Raulibaldo, que já está cansado de ficar pra lá e prá cá. Volto já!

        Depois dessa atitude tomada pelo amigão do dono da casa, a paz reinou no ambiente. O garoto não voltou mais a interromper o carteado. De manhã, quando todos resolveram ir embora, Raulibaldo perguntou ao amigo:

        – Ô Gil, o que, afinal, você fez pro meu filho ficar tão quieto?

        – Simples. Ensinei a ele se masturbar!

 

É… ele morreu de verdade!

     Presepeiro de marca maior e contumaz passador de trotes, Amaro Perrone, o Pereba, aprontou horrores. Difícil era saber quando ele estava agindo ou falando sério. O cara levava tudo na brincadeira.

     Malfadado dia, Amaro passou mal e morreu do coração. Não foi socorrido a tempo porque pensaram que ele estava de sacanagem.

     Seu melhor amigo, o Arqueleu Pitanga, encontrava-se em Aracaju quando lhe transmitiram a infausta notícia. Ele reagiu, na hora:

     – É onda desse safado! O Pereba aprontou mais uma! Isso é normal nele! 

   – Mas ele está de canela esticada, dentro do caixão! – insistiu o amigo que transmitiu a infausta notícia.

   – É mais um trote dele! Ele é o rei do trote!

   – Dessa vez não é, não. Pode vir pro enterro!

   Arqueleu pegou o carro e se mandou de Aracaju puxando mil por hora. Entrou em Maceió pela estrada do Pontal, equilibrando o carro na curva em duas rodas. Parou na porta do cemitério do Prado e correu para junto do defunto, que estava sendo velado na capela.

     Gil Pereba repousava num esquife todo enfeitado de flores. Dele só se destacava a venta. Arqueleu reparou direitinho na cara do amigo. Era a cara mais cínica do mundo! Aí, bradou:

     – Ele tá vivo! O sacana tá vivo! Olhem só pra esse filho da puta!

     Ninguém gostou daquela observação desrespeitosa, principalmente a viúva, que mandou o inconveniente à casa da peste. O ambiente ficou pesado, mas o Arqueleu nem aí. Ele só queria provar que o amigo estava mesmo vivo.

      Arqueleu chegou mais pra perto do finado, abaixou a cabeça até o ouvido dele e disse:

      – Ô cara, tu já passou do limite! Levanta daí, porra!

      Como o “de cujus” não se mexeu, Arqueleu partiu para a prova definitiva no sentido de que o velho parceiro não havia morrido de verdade. O que ele fez, então? Meteu a mão dentro do caixão, pegou naquela parte proibida do defunto, deu um aperto violentíssimo, uma torcida pra lá, outra pra cá, puxou pra cima, puxou pra baixo e esperou o berro do Pereba. Nada. Do finado, rolou apenas uma lágrima grossa pelo canto do olho.

      Decepcionado, Arqueleu espiou para os quatro cantos do velório e desabafou, desolado:

 

       – É… o safado morreu mesmo!

 

O leitão era outro!

     Abdias Cardoso de Sá, o popular Bolão, arriou os seis cento e tantos quilos na cadeira de uma das mesas da lanchonete do Matoso e falou pro pro cara que atendia no balcão:

      – Ô Afrânio, manda ver aí um leitão, por favor!

      E o atendente:

      – Caprichado?

      – Exato!

      – Pode aguardar!

      Demorou mais de meia hora pro pedido ser despachado. Bolã o já estava impaciente, se preparando para desistir do leitão, quando pintou na sua mesa aquele aparato fenomenal: numa imensa travessa, repousava um leitão grelhado, rodeado de cebolas e tomates. Além do mais, duas outras travessas menores – uma com arroz e outra entupida de farofa.

      O queixo do Abdias desabou:

      – Mas o que é isso, meu chapa?!

      – É o leitão caprichado que o senhor pediu! – respondeu o atendente.

      – Mas o leitão que eu pedi não foi esse, cara! Eu pedi foi um copo daqueles bem grandes de leite!

 

Contar… a primeira providência!

     Antigamente, os programas de rádio em Maceió distribuíam valiosos brindes. E tinha mais: os ouvintes não eram

 

verbalmente agredidos pela analfabetice e grossura de animadores, como ocorre atualmente. Eram respeitados. Os programas eram feitos para eles, ouvintes, não para os tais apresentadores.

      Naquele tempo, tínhamos na rádio Gazeta, sempre líder em audiência, grandes atrações. Uma delas, por exemplo, que ia ao ar aos sábados à tarde, era comandada pelo saudoso Rudy Barbosa. Intitulava-se “Peça Sucessos Musicais”, onde eram promovidos sorteios de prêmios destinados aos sintonizadores.

      Um dia, Rudy resolveu inovar e passou a sortear dinheiro vivo entre os ouvintes. A grana sorteada era entregue na residência do contemplado, de onde o repórter – que normalmente era o também saudoso Luiz Tojal -, fazia o registro, com mil badalações.

      Uma das vezes o Tojal ficou impossibilitado de cumprir a escala, por motivos de saúde, e foi substituído pelo neófito Gildo Almeida que, logicamente, não tinha essas intimidades todas com o microfone.

      A sorteada havia sido uma viúva residente no distrito da Coréia, bairro de Ponta Grossa. No ato da entrega da bufunfa à ouvinte, Gildo Almeida, todo entusiasmado, microfone em punho, sacou a pergunta:

      – Dona Isaura, agora que a senhora recebeu esse dinheiro todo, o que é que pretende fazer?

      A viúva não titubeou. Sapecou a resposta curta e grossa:

      – Contar!