Ailton Villanova

1 de novembro de 2016

“Doutor Figurinha”, o Puxa-saco!

Com Diego Villanova

 

     Aquele que já teve a oportunidade de gozar da intimidade do poder no Palácio Marechal Floriano, certamente conheceu uma figura que se notabilizou pela sua extrema subserviência. Entrava governo, saía governo, e ele firme, lambendo os chinelos dos manda-chuvas. Ainda hoje ele existe, agora chupando saco em outras plagas, certamente mais ativo e mais rasteiro que antes. É a sua sina, é o seu destino!

      Elegante, falante, paradoxalmente discreto, o indigitado, mais conhecido como “doutor Figurinha” estava sempre de plantão no Palácio do Governo, por moto próprio, e sempre pronto para mais uma “balançada”. Certa vez, numa festa de congraçamento em palácio, ele se achava presente com o seu filho menor. Aí, o governador de então aproximou-se do menino, alisou-lhe a cabeça e, olhando para o pai puxa-saco, indagou:

       – Esse menino bonito é seu filho, doutor…?

       E ele, atingindo o cúmulo da bajulice:

       – É nosso, excelência!! É nosso!

       De outra feita, o governador, que não era o mesmo, se preparava para viajar a Brasília, a fim de avistar-se com o presidente da República, mandou chamar seus assessores mais próximos e “doutor Figurinha” foi junto, embora não convocado. Aí, o chefe do governo começou a recomendar:

       – Na minha ausência quero tudo funcionando na mais perfeita ordem…

       Nesse momento, o puxa-saco começou a interromper:

       – Excelência…

       E o governador:

       – Depois, doutor, depois! Manuel, verifique sempre se a garrafa de café está cheia!

       E o puxa-saco insistindo:

       – Excelência, eu…

       – Espere aí, doutor…! Dona Janice, não se esqueça de manter a tramitação dos processos em dia.

        – Excelência, eu…

        – Calma, doutor…! José Maria, não esqueça de acompanhar as licitações…

        – Excelência, eu…

        Ai, o governador invocou-se com o puxa-saco:

        – Tá bom, tá certo! Fala de uma vez, porra! O que é que você quer?

        – Nada não, excelência! Eu só queria dizer que… se Vossa Excelência espirrar durante a viagem, saúde!

 

Cornança anunciada

     Depois de mais de cinco anos de namoro e noivado, Eutálio e Crisálida resolveram encarar o altar, numa boa. Casaram com direito a chuva de arroz e demais milongas inerentes às solenidades matrimoniais finórias. Semanas depois, numa reunião de amigos, o casal era o centro das atenções. A certa altura do papo, Crisálida tomou a palavra e fez uma revelação:

      – Eu me casei com o Eutálio para ter uma bela família. Pretendo ter pelo menos uns três filhos!

      O marido não gostou do que ouviu e resolveu cortar o barato da esposa:

      – Nada disso! Só vamos ter um casal de filhos!

      Crisálida teimou:

      – Três! Eu quero três!

      E o Eurálio, rebatendo firme:

      – Dois!  Depois do segundo filho eu faço uma vasectomia e pronto!

      – Ah, é? Eu espero que você ame o terceiro como se fosse seu!

 

Finado perfeccionista

     Depois de ter participado de uma bruta farra no bairro do Poço, o Magnaldo Pereira voltava pra casa, na Pajuçara, no “amor febril”, trocando as pernas e enxergando o caminho todo torto. O relógio marcava 2 e meia da madrugada, quando ele se aproximou do cemitério do Jaraguá. Nesse momento, escutou umas batidas de marreta numa pedra e ficou ligado no barato. Ao passar pela porta do cemitério, as marteladas aumentaram de intensidade e, então, ele resolveu procurar ver o que se passava lá dentro. Com muito cuidado, trepou no muro e espiou. O que Magnaldo viu, então? Viu um sujeito talhando febrilmente uma lápide. Cheio de curiosidade, perguntou ao cara:

      – Ô meu, quê que tu tá fazendo aí a esta hora?

       O sujeito das marteladas deu uma paradinha e respondeu:

      – Tô consertando a lápide. Escreveram o meu nome errado!

 

Teimoso ao extremo!

     Ele era considerado o rei da teimosia. Sebastião Rodrigues ficou muito conhecido em toda a zona da mata alagoana pela sua birra. Como todo obstinado, ele não respeitava a opinião de ninguém. Só a dele prevalecia.

      Em síntese, Tião era um cabra muito do chato. Belo dia, entendeu de visitar uns parentes no Sertão, mais precisamente em Santana do Ipanema, onde foi bem recebido pelo primo Aígriton, próspero criador de caprinos da região. Orgulhoso do seu patrimônio, o anfitrião fez questão de exibir pro parente visitante sua linda fazenda, onde milhares de cabeças de bodes, cabras, carneiros e ovelhas se misturavam até perder de vista.

       Ao volante de uma caminhoneta, Aígriton mostrava o território ao Hipérides quando, de repente, na linha do horizonte, surgiu aquele cenário alvo-azulado, parecendo uma pintura.

      – Olha lá, um lago! – apontou o teimoso.

      – Não é um lago, primo. Aquilo é um areal! – consertou Aígriton, conhecedor profundo daquelas paragens.

      E o Tião:

      – Areal o quê, rapaz! Não tá vendo? É evidente que é um lago!

      – Tô falando que é um areal. Eu moro aqui desde menino, você sabe.

      – Mora aqui, mas se enganou. – insistiu o teimoso.  – Aquilo é um lago e pronto!

      – É areal!

      – É um lago!

      – É areal!

      O carro correndo na estrada e eles naquela arenga. Aí, o Aígriton parou o veículo e decidiu:

      – A gente só tira a dúvida indo até lá. Estamos aqui bancando bobos. Vamos lá?

      – Vamos. Mas estou certo que é um lago.

      Foram. Chegando lá, ficou constatado que Aígriton  tinha razão. Feliz por ter ganho a parada, o criador de bodes encarou o primo teimoso e desabafou:

        – Viu? Viu agora? É ou não é um areal?

        E, dizendo isto, Aígriton abaixou-se, pegou um bocado daquela areia fina e branca e jogou no primo. Este deu um pulo para trás, assustado:

         – Ei, você está me molhando, rapaz!