Ailton Villanova

30 de outubro de 2016

O cantor aloprado

Com Diego Villanova

     O casal Aldegundes/Aflaudízia Pacheco programou uma festa de arromba para o casamento de sua única filha, a donzelíssima Teócrita Crisálida. No dia da cerimônia religiosa das núpcias, a igreja de Santa Quitéria, ornamentadíssima, estava entupida de familiares dos nubentes e convidados. Duas pessoas eram aguardadas com bastante expectativa: a noiva e o cantor contratado para abrilhantar a solenidade. O noivo, Cleobaldo Leonâncio, o mais nervoso dos presentes, encontrava-se de pé no altar, na maior das expectativas.

     Aproximava-se a hora do enlace e nada do cantor aparecer, ele que já devia ter chegado para entoar a canção de recepção à noiva, assim que ela introduzisse o primeiro pezinho na soleira do templo. De repente, entrou apressado um parente do noivo, que alojou no seu ouvido o seguinte recado:

     – O cantor Rolando Alberto não poder vir! Mandou avisar que está com uma disenteria da gota serena!

     O noivo apavorou-se:

     – E agora? Esse cantor filho da puta achou de pegar uma caganeira logo agora! Ele era a figura mais importante do casamento, depois da minha noiva e de mim, naturalmente! Passamos uma semana inteira ensaiando as músicas!

      Nisso, vão chegando o pai, a mãe e um tio da noiva, para tomarem os seus lugares ao lado do altar, enquanto ela aguardava na porta da igreja, o momento de adentrar ao templo. Assim que os sogros se aproximaram, o noivo chegou mais pra junto do pai da futura esposa e transmitiu a infausta notícia:

      – O cantor não vem! Tá Todo cagado! O que é que a gente vai fazer, seu Aldegundes?

      – Essa me pegou de surpresa, meu filho! – respondeu o sogro, com cara de bobo.

      Aí, saltou o tio da noiva, seu Asclepíades, boêmio incorrigível, tentando uma solução para o impasse:

      – Posso quebrar o galho! Tenho um colega, o Jacó, que canta o fino!

      Aldegundes animou-se todo!

      – Vá buscá-lo! A gente fica segurando a cerimônia, até a chegada dele!

      Asclepíades foi buscar o cantor e voltou rapidinho com o referido, cuja cara, denunciava que ele se achava na mais completa embriaguez alcoólica. O cantor não perdeu tempo, assim que se viu dentro da igreja: correu pro altar, tomou o microfone da mão do padre, temperou a goela e lascou lá:

       – Seniorasss  senioresss…amigos ouvintesss… Abrindo esta magnífica solenidade, cantarei a belíssima cantiga intitulada… Lapa!

        Os saudosistas presentes aplaudiram, inclusive o padre, pensando tratar-se daquela famosa canção gravada pelo inconfundível e saudoso Nelson Gonçalves.

         Fez-se um respeitoso silêncio no ambiente, o tal do Jacó abriu o bocão e atacou:

         – Laaapa… mas que lapa de bunda/ uma lapa de bunda dessa/ só quem tem é a Raimunda…

         O cara só cantou até aí. Todo mundo bateu nele, inclusive o padre.

 

Morto não fala e nem discute!

     Era uma segunda-feira. De manhã. O sol não tinha dado o ar de sua graça, porque o tempo estava nublado. De repente, parou na porta do Instituto Médico Legal uma viatura do Corpo de Bombeiros e dela retiraram o corpo inanimado de um homem ainda jovem. Tinha toda a pinta de morto: duro que nem uma pedra e mais branco do que cera de vela. E ainda tinha mais um detalhe importante: sua boca estava cheia de formigas. Precisava mais?

     O funcionário de plantão na recepção do IML era Ednaldo Soares que, inclusive, acumulava a função com a de estagiário de auxiliar de necropsia. Então, ele e o serviçal conhecido como Zezé, de saudosa memória, pegaram o suposto defunto e deitaram numa das mesas da sala  de necropsia. Feito isso, Ednaldo subiu ao primeiro andar e avisou ao diretor Duda Calado:

      – Chefe, acabou de chegar um “presunto”!    

      E doutor Duda, tranquilão, como sempre:

      – Morte clínica ou violenta?

      – Clínica.

      – Veio de onde?

      – Acharam na rua! Papelada nenhuma!    

      – Vá preparando o corpo para a necropsia, que eu desço já. Você já sabe como proceder, não sabe?

      – Tô por dentro, doutor!

      Ednaldo Soares estava quase pronto para firmar-se na profissão de necropsista. Uma das lições que assimilou muito bem do seu mestre Manuel Cassiano foi a de que “auxiliar nenhum deve discutir a decisão do legista”. Afinal, ele é o perito.

       Em assim sendo, se o perito – logo o maior deles todos – havia determinado que ele procedesse o ritual de preparação do cadáver para a autopsia, Soares não tinha porque discutir. E se preparou para botar o bisturi pra funcionar.

       Quando o aprendiz de necropsista manobrava o instrumento cortante para fazer a incisão no tórax do defunto, o dito cujo abriu os olhos:

        – Epa! Peraí, meu irmão! O que é que você vai fazer comigo?

         E o Soares, forçando o cara a permanecer deitado:

         – Fica quieto, rapaz, senão eu erro o corte!

         O “finado” apavorou-se ainda mais:

          – Corte?! Você vai me cortar pra quê?

          – Ora, pra saber do que foi que você morreu!

          – E onde é que eu estou?

          – Você tá no IML, porra!

          – No IML!!! Mas eu tô vivo, meu irmão! Você num tá vendo?

          – Cala a boca! Você num tá vivo porra nenhuma! O doutor disse que  você morreu e se ele disse isso, você tá morto mesmo!

          Diante  a determinação do inflexível Ednaldo Soares, o “defunto” não teve outra alternativa senão a de abrir o bocão:

           – Socorro! Socorro, polííícia! Tem um louco aqui querendo me assassinar!

           Ainda bem que o doutor Duda Calado chegou a tempo!