Ailton Villanova

26 de outubro de 2016

Delírios do Chiado

     Na saga da boemia maceioense indispensável é a figura do Menelau Elisiário,  o “Mané Chiado”, motorista profissional, cujo “ponto” predileto era a Praça Dois Leões, no Jaraguá, por um motivo simples: é que a poucos passos da referida, ficava a da zona do meretrício. Asmático de nascença, ele tinha um chiado danado  no peito, daí o apelido. Mas esse incômodo ele tirava de letra, mediante a ingestão de incontáveis grogues de aguardente, sua bebida predileta.

     Quando a zona do meretrício se mudou para o Canaã, Mané Chiado aposentou-se da profissão de motorista e passou dedicar-se exclusivamente à biritagem. Pouco tempo depois, ingressou naquela fase do “delirium tremens” e volta e meia estava se deparando com jacarés dirigindo ônibus ou pilotando motos. Quando não era isso, olha ele correndo atrás dos elefantes que andavam voando em redor de casa! Teve uma vez que ele correu até a delegacia de polícia para pedir providência contra uma cambada de hipopótamos que dançava xaxado na rua e não o deixava dormir sossegado.

      – O homem endoidou de vez! – definiu sua esposa Maria Cícera, depois que quase foi assassinada por ele.

      No dia do acidente com dona Cícera, Mané Chiado tinha bebido mais  de cinco garrafas de cachaça. Ele se achava no alpendre de casa, esparramado numa espreguiçadeira, quando reparou num negócio estranho no fundo do quintal. Esfregou os olhos, apurou direitinho a vista e constatou que havia um boi, calçado de tamancos, trepado no coqueiro.

      – Tá querendo roubar os meus cocos, seu fío duma égua? Peraí, que você vai o que é bom pra tosse! – gritou ele.

      Chiado correu para dentro de casa a fim de apanhar uma arma. Ao entrar no quarto de dormir, tomou o maior susto de sua vida: em cima da cama, havia uma enorme “jibóia” puxando um ronco seguro. Aí, ele esqueceu o boi do coqueiro e partiu para expulsar a “serpente” do ambiente. Deu garra de um cabo de vassoura e sapecou-lhe na cabeça –  ploft… ploft… ploft…

      Na primeira porrada que recebeu no cachaço, a “jibóia” abriu o bocão:

      – Valei-me meu padrinho Ciço!

      Ploft… ploft… ploft…

      – Socorro! Socorro!

      A vizinhança correu toda para atender. Do contrário, no seu delírio, Mané Chiado, teria assassinado dona Maria Cícera, que àquela hora tirava um cochilozinho. Ele a havia confundindo com  a serpente.

 

Tom fora do tom

     Noite caminhando ao encontro da madrugada, e o cachaçudo Jaciro Hemetério fazendo o caminho de volta ao lar, que ficava pendurado no barreirão do alto da Borracheira, bairro do Pinheiro. No meio do caminho, eis que se deparou com um magote de boêmios entretidos numa batucada bastante animada. Aí, ele parou junto de um sujeito conhecido como Zé Bolero, que empunhava um violão meio derrubado, temperou a goela e indagou, cheio de pose:

      – Comequié, meu cumpade, o velho pinho aí tá afinado?

      E o Zé Bolero:

      – Tá! Por quê?

      – Por nada não. É que eu sou chegado a uma cantoria, com um bom violão.

      Aí, Zé Bolero pediu aos companheiros que parassem a batucada para escutarem o recém-chegado. Todos emudeceram em atenção ao pedido e o Zé Bolero, com um sinal de cabeça na direção do Jaciro, solicitou:

       – Dê o tom e comece…

      – O tom é bremó.

      – Peraí! Bremó? – estranhou Zé Bolero. – Que bubônica de tom é esse? Eu conheço bemol!

      – É bremó, sim.

      – Nesse tom eu não acompanho!

      – Acompanha não?

      – Não!

      – Se é assim, pegue essa porcaria de violão e soque no rabo, seu incompetente!

      O trabalho foi grande para segurar o  Zé Bolero, que era um negão do tamanho de um guardarroupa. Ele queria, de todo jeito, enfiar o instrumento no fiofó do Jaciro.

 

Uma boa ideia!

     Tanto aperreou que o marido lhe deu um Fiat Uno de presente. Era branquinho, lindinho!

     No domingo seguinte, dona Jumelícia desfilava, toda ancha, ao volante do carrinho. Do lado dela, o marido presenteador Adalgadair, com o coração aos pinotes.

      Entusiasmada, Jumelícia disparava, de pé topado no acelerador, pela AL-101/Norte, aumentando a apreensão e o desespero do marido que, a certa altura, não se conteve:

      – Estou me borrando de medo, minha filha! A cada curva que você faz, meu coração ameaça saltar da boca! Não é melhor você parar?

      E ela, tranquilona:

      – Faça como eu, meu amor: feche os olhos!

 

Efetivamente, um triângulo amoroso!

     O delegado Osmário Cardozo Almeida era o titular do 9° Distrito de Policia da Capital, quando, em certa ocasião, entrou em seu gabinete de trabalho o velhusco Sebastião Venâncio, arrastando os seus 95 janeiros:

     – Seu doutor, eu vim apresentar uma queixa contra a minha mulher Rubineide…

     – E o que foi que ela fez, vovô?

     – Ela tá querendo me trocar pelo tal de Itapuã!

     – Esse Itapuã deve ser um velhinho mais ou menos da sua idade, não é?

     – Velhinho como eu?! Velhinho o quê, doutor! O Itapuã é um molecão que tem a idade de ser meu bisneto!

     – Danou-se! Sua mulher deve estar caducando!!!

     – Caducando? O senhor já viu menina de 18 anos caducar?

     – Dezoito anos???!!! Será que ouvi bem? Sua mulher tem 18 anos?

     – Tem, aquela ingrata!

    Dia seguinte, por sugestão do delegado, o trio estava reunido no gabinete deste, com vistas a uma solução para o problema. A mulher do queixoso era um monumento, do tipo capaz de arrepiar cabelo até de estátua. Boa pra cacete! Por sua vez, o Itapuã era um negrão do tipo atlético marca Schwarzeneagger. Ele não tirava o olho da preciosidade.

     Com a palavra, Rubineide explicou ao delegado:

     – Sinto muito, doutor. Mas o senhor repare na minha situação. Sou jovem, sei que sou gostosa e preciso de um homem viril pra me satisfazer sexualmente. Tá certo que o Tião é ótimo pra mim, me trata bem demais mas… não funciona!

      – Nem a língua funciona? – aparteou o delegado.

      – Nem a língua, doutor!

     O delegado Osmário Cardozo coçou a careca, preocupado:

     – Tem razão. Uma pecinha como você não pode viver a pão e água…

     E o velhusco, apavorado:

     – Mas eu gosto dela, doutor. Se ela me deixar, eu morro!

     Depois de algumas horas de confabulações, chegou-se a uma conclusão satisfastória para as partes envolvidas na questão: a mulheraça continuaria vivendo sob o mesmo teto do velho Tião. Mas com o negrão inserido no contexto, oficialmente.