Ailton Villanova

22 de outubro de 2016

A nova fruta novolinense

Com Diego Villanova

 

     Originário do Sítio Lino e desmembrado de Colônia Leopoldina, o município de Novo Lino foi implantado em 1° de dezembro de 1962. Grandes vultos contribuíram para o seu desenvolvimento, entre tantos os irmãos Carlos e Antônio Gomes de Barros, o sobrinho destes, Paulo Gomes de Barros, ademais Alfredo Soares, Isaias e Antônio Buarque de Lima, Caetano Cavalcante e, naturalmente, o insigne Manuel Carlos, figura simples, cuja “performance” o colocou na primeira fila da galeria do folclore político alagoano.

      Trabalhador incansável, Manuel Carlos era autodidata e pouco íntimo das letras, mas insistia em dar uma de erudito, sempre que a ocasião lhe permitia. Mas isso jamais deslustrou a sua competência de administrador municipal. Amigo de figurões políticos do primeiro escalão, conseguiu projetar-se como um daqueles, de sua época, que mais realizaram obras no interior das Alagoas.

       Na época em que Divaldo Suruagy foi elevado ao cargo de governador do Estado pela segunda vez, Manuel Carlos era o prefeito de Novo Lino. Numa das viagens do chefe do executivo estadual àquela cidade, acompanhou-o o secretário de Educação Murillo Mendes, porque o alcaide tinha duas ou três obras nessa área, prontas para serem inauguradas, uma delas na zona rural.

      O governador e sua comitiva foram recebidos com toda pompa e circunstância – muitos vivas, muitas palmas… foguetório. Como estava muito apressado porque o tempo e mostrava ameaçador, Suruagy falou pro prefeito:

      – Neguinho, seria apelar demais se eu lhe pedisse para vermos logo essas obras?

      – De maneira alguma, excelência! – respondeu Manuel Carlos.

       Então, o governador, o prefeito e demais membros da comitiva governamental foram ver as obras. No momento em que passavam sob um jenipapeiro, escutaram o ribombar de um trovão, prenúncio de chuva. Aí, Murillo Mendes sugeriu:

      – Vamos nos apressar! A atmosfera está muito carregada!

      Vaidoso ao extremo, o prefeito não gostava de ficar por baixo. De modo que, pegando a palavra do secretário pelo pé, Manuel Carlos resolveu mostrar que era também uma pessoa ilustrada: levantou a cabeça, deu uma conferida na copa da árvore e respondeu todo, ancho:

       – É verdade, doutor. Tem cada atmospapo danado de grande! Vamos sair logo antes que um desses caia em cima da gente!

 

O vigário que não era

       Hoje em dia o jornalista, advogado e procurador de estado Nilo Sérgio Pinheiro anda meio afastado da igreja, mas já foi papa-hóstia. Na infância, além de pertencer à Cruzada Eucarística Infantil, exercitava a função de coroinha, na paróquia de Nossa Senhora do Bom Parto.

        Era um exemplo de garoto, o Nilo Sérgio, motivo de orgulho de seus pais, dona Helena e o saudoso Batista Pinheiro, um dos maiores jornalistas de sua época.

         Bom. Os tempos foram passando, Nilo crescendo , mas mantendo aquela postura clerical. Tanto que, vez ou outra era confundido com um sacerdote. De vez em quando alguém chegava pra ele e pedia:

          – Sua bênção, padre!

          Baixinho, meio gordinho, polêmico, Nilo Sérgio Pinheiro hoje não é mais confundido com um sacerdote, entretanto sempre que ocorre uma festa religiosa no Bom Parto, ele é o primeiro a ser convidado para dela participar.

           Certo dia, atendendo a um convite da amiga de infância e antiga vizinha Helenita (Lena) Gusmão – por sinal prima do também jornalista, advogado e desportista Bastinhos, de saudosa memória -, compareceu a uma festinha que ela promovera para dar por inaugurado o seu novo apartamento no Stella Maris. Nilo Sérgio teve uma recepção incomum. Depois de muitos anos voltou a ser confundido com um sacerdote, justo aquele que havia sido convidado para dar a bênção na nova residência da Lena Gusmão.

            Ocupada nas atenções aos demais convidados, noutra dependência do apartamento, Lena não reparou na chegada do amigo Nilo. De modo que, quando alguém correu lá dentro para avisá-la que “o padre havia chegado”, ela respondeu:

            – Por favor, vão fazendo as honras da casa para ele, minha gente! Desocupo já!

            Na verdade, o sacerdote que estava sendo aguardado era frei Bruno e ninguém alí  o conhecia pessoalmente. O fato é que o religioso encontrava-se atrasado, porque não havia achado o endereço da nova  residência da jovem Lena. Perdidão no Stella Maris, o frade continuava procurando…

             Enquanto isso, no ambiente domiciliar, Nilo continuava sendo confundido e recebendo tratamento que só se confere a detentores de alta patente religiosa.

             – Chegava uma madame e dizia:

            – O senhor quer um uisquezinho ou uma cervejinha?

            – Os dois! Misturados, se possível!

            Outra vinha e perguntava:

             – O tira-gosto é suficiente?

             E ele:

             – Apreciaria se me desse uma nova chance!

             Não demorou muito, o suposto padre já estava biritado, fato que chamou a atenção da mulherada:

              – Puxa, mas como esse padre bebe, hein?

              Foi quando bateram na porta. Abriram. Diante de uma atônita plateia, surgiu o verdadeiro sacerdote, já paramentado. Nesse mesmo momento ingressou na sala a dona da festa, que cumprimentou o recém-chegado:

               – Boa noite, frei Bruno. Me disseram que o senhor havia chegado havia um bom tempo mas, pelo visto, o senhor está chegando agora!

              Aí, uma das convidadas apontou para o Nilo Sérgio:

              – Epa! Se esse é o padre, quem é aquele impostor alí?

              A dona da festa não gostou da observação depreciativa ao amigo e rebateu, em cima da hora:

               – Impostor, não! Esse é o meu amigo doutor Nilo Sérgio Pinheiro, procurador de estado. Não admito que o insultem!

               Passado o mal estar, frei Bruno deu início a bênção do imóvel. Foi então que o doutor Nilo Sérgio reviveu os seus bons tempos de coroinha. Deu verdadeiro show de acolitato, ao lado do sacerdote.

               Saiu da festa aplaudidíssimo.