Ailton Villanova

21 de outubro de 2016

Surdo, graças a Deus!

Com Diego Villanova 

 

     Dona Obdúlia Fonsêca foi uma madame cuja língua jamais parou quieta na boca. Segundo seu sobrinho José Diomedes ela escolhe a profissão errada. Ao invés de bibliotecária, deveria ser narradora de futebol. Verdadeira, metranca no palavrear. Antes de bater as botas, seu marido Josué sofreu muito, com o matraquear da mulher no pé do ouvido, de manhã, de tarde e de noite, todos os dias.

      Além de falar demais, dona Obdúlia falava alto ao extremo. A entonação que dava à voz, era de centenas de decibéis acima de qualquer som de trio elétrico.

       Numa determinada ocasião, dona Obdúlia caminhava apressada pela Rua do Comércio quando avistou, fazendo a mesma coisa, na calçada contrária uma pessoa bastante conhecida sua: o médico ortopedista Luiz Fernando Silva de Barros. Levantou a mão e falou naquele seu tom aloprado de voz:

      – Ei, doutor! Preciso falar com o senhor! Espere aí…!

      Conhecendo muito bem a peça, Luiz Fernando tentou escapar:

      – Olha, a senhora seja breve, porque eu estou apressado. Tenho uma cirurgia pra daqui a dez minutos…

       – Mas eu só preciso de dez segundos de sua atenção, doutor. É rápido!

       – Pois que seja. Qual é o problema?

       – É o meu marido Josué, doutor…

       – Ele quebrou alguma perna, algum braço, alguma costela? Está com osteoporose?

       – Não senhor. Ele está com problema de memória!

       – Então, o caso não comigo, dona Obdúlia.

      – Eu sei, doutor. Mas como o senhor é médico, deve entender disso também. O Josué anda esquecendo tudo! Imagine que às vezes eu fico falando com ele durante uma hora…

      – Não sei como ele suporta!

      – Pois é. Eu falo, falo, ele não escuta!

      – A senhora tem certeza?

      – Bom, pelo menos ele não reage, não responde… e eu me acabando de falar. Que doença danada é essa, doutor?

      Doutor Luiz Fernando esboçou um sorriso irônico e respondeu:

      – Isso não é doença, minha senhora. É uma graça de Deus!

 

Louro desbocado

     Dona Adrenalina de Oliveira era uma viúva que adorava criar animais domésticos. No seu sítio, em Colônia Leopoldina, tinha bicho de toda espécie, entre esses um cágado e um papagaio. Este último ela ganhou de presente de uma antiga cafetina, que fora obrigada a respirar outros ares.

      – Este papagaio, dona Adrenalina, é muito inteligente! Pra ser gente, só  falta ter bigode, vestir calça comprida e calçar sapatos. – disse a prostituta.

      – Ah, mas que interessante! Brigadinha, minha filha. Pode ir sossegada, que cuidarei dele bem direitinho…

      – Tem uma coisa, dona Adrenalina…

      – Que coisa, minha filha?

      – Ele é muito desbocado. Fala palavrões demais!

      – Ah, é? Deixa comigo, que eu vou educá-lo direitinho!

      Assim que se instalou na casa da viúva, o penoso abriu o bico a falar palavrões. Aí, a velhota deu a dura:

      – Olhaqui, seu safado… se você continuar dizendo essas coisas horríveis, eu lhe jogo no fundo da fossa, tá me ouvindo?

      Pois bem, minutos depois da bronca, olha o papagaio soltando novos palavrões: “Porra meu louro”, “Putaquipariu”, “Corno”, “Bicha”… o escambáu!

       Dona Adrenalina subiu nas tamancas:

       – De novo, louro?  Tá lembrado do que lhe falei?

       E ele, se justificando, com aquela vozinha de taboca rachada:

       –  É que fiquei muito tempo sem dizer palavrão e, de repente, veio tudo de uma vez só!

      – Não interessa! Vai direto pra fossa! Eu não avisei?

      A velhota pegou o bicho pela asa e atirou na fossa, que tinha uma boca com tampa e servia também de vaso sanitário a céu aberto. Naquele tempo era assim, no interior. Algum tempo mais tarde, bateu na viúva aquela vontade de fazer um cocô esperto.

       Dona Adrenalina correu para a privada, suspendeu o vestido, arriou a calcinha e passou a despejar o barro. Como estava ao ar livre, ela começou a admirar o firmamente azul,  crivado de estrelas e a suspirar:

       – Ah, que céu estrelado!

       Lá de baixo, o papagaio respondeu:

       – Ah, mas que cuzão arreganhado!

 

O Mané e o sacrifício de Cristo

     No Bom Parto dos áureos tempos existia de tudo, campo de futebol, quadras de volibol e basquete, cinema e teatro. O povo bompartense era um povo feliz. Hoje em dia, o bairro passou a ser dominado por bandidos e o pacato morador dalí vive sobressaltado, entregue à própria sorte. É uma pena!

      Naquele tempo de muita alegria e felicidade, o cineminha São José, que se localizava ao lado da paróquia, vivia cheio de espectadores ligados nos filmes, que eram escolhidos a dedo pelo padre Brandão Lima, pároco do bairro. Num belo dia de semana santa, o cine São José exibia o filme A Paixão de Cristo  e aí aconteceu uma baita confusão, promovido por um recente morador da comunidade, chamado Manuel Lázaro, mais conhecido como “Mané Doido”. É que, revoltado com as judiações e malvadezas impostas ao Filho de Deus, ele cismou de quebrar cadeiras, atirando-as contra a tela.

       A projeção foi suspensa, as luzes do cinema foram acesas e aí entraram em cena o cabo PM Né e o soldado Aurino, que serviam na subdelegacia de polícia do bairro. Os militares pegaram o Mané Doido e  levaram à presença do subdelegado José Granja, que também era cabo PM.

     A indignação do Mané foi maior, porque a esmagadora maioria dos espectadores não fez nada contra os algozes de Cristo. Quando era trancado no xadrez, ele desabafou:

      – Quem devia tá era preso era aquele magote de covarde, e não eu! Eu quis apenas salvar o cabeludo, que tava sofrendo de fazer dó!

      Fora aquela a primeira vez que Mané Doido tinha entrado num cinema.