Ailton Villanova

14 de outubro de 2016

O peru já era!

Com Diego Villanova

 

     Apressado, e com a maior cara de choro, o agricultor Valdemar Cordulino, popularmente conhecido como “Seu Dema”, entrou na delegacia de polícia de Batalha e foi falando para o policial que se achava cochilando na portaria:

      – Cadê o delegado? Ele tá?

      O policial despertou e respondeu, de má vontade:

      – Ele tá! Quê que você quer com ele?

      – Vim dar uma “parte” pra ele. Robáro o meu Diocréço!

      Introduzido no gabinete do delegado Rômulo Monteiro, o agricultor não pôde segurar as lágrimas, ao denunciar o furto do Dioclécio:   

      – O meu Dió, incelênça, é um piru de munta cunsideração e respeito. Eu criei-lo ele derna de novinho… snif… É mermo qui sê da famía… snif… tão inteligentizinho, só farta falá…

      O delegado Rômulo sensibilizou-se com o drama do queixoso e prometeu o maior empenho do seu pessoal para capturar o gatuno:

      – Nós vamos pegar esse ladrão fidapeste de qualquer jeito! Pode voltar pra casa sossegado, meu amigo!

      Deu sorte. Na primeira volta que os agentes deram pela cidade, eles prenderam o ladrão e o levaram à presença da autoridade policial, com peru e tudo.

       – Como é que você teve a ousadia de furtar o peru de um cidadão tão distinto, seu canalha? – berrou o delegado na cara do larápio.

       E o acusado, no maior cinismo:

       – Eeeuuu, doutor? Deve estar havendo algum engano. Esse peru aí é meu!

      – Vamos tirar isso a limpo, já, já! – decidiu o delegado.

      Juntando ação a palavra, Rômulo Monteiro mandou chamar Seu Dema de volta à delegacia. Naquilo que ele botou o primeiro pé dentro do gabinete do delegado, o peru o reconheceu  deu aquele brado de alegria:

      – Glu… glu… gluuuu…

      O agricultor quase morreu de emoção:

      – Dióóó! Meu Diozinho!

      Cena comovente. O velho abraçado com o Dioclécio e todo mundo aplaudindo. Menos o ladrão, que se remoía todo:

      – Ôxi! E carece essa frescura toda?!

      Não restava dúvida de que o penoso era mesmo o Dió querido do queixoso. Ainda sob o calor da emoção, o delegado Rômulo investiu contra o gatuno:

       – E agora, seu safado?  Você ainda continua negando que furtou o peru do cidadão aqui?

       – Continuo!                                                                                                   Rômulo Monteiro é um cabra bom, mas quando se invoca perde o juízo. Ao receber a resposta cínica e ousada do malandro, ele endoidou. Aí, agarrou o peru pelo pescoço e sapecou o bicho no lombo do marginal – Pleft! Plaft! Bleft!

       Era o peru batendo nas costas do meliante e ele gritando:

       –  Ai! Ui! Socooorrrooo!

       E tome Plaft… glu… ploft… glu… glu…

       Num canto da sala, Seu Dema se descabelava:

       – Pelamordedeus dotô! O sinhô tá matando o meu Dió!

      Aplicado o violento corretivo no ladrão, o delegado se desculpou com o choroso Valdemar:

       – Fiquei tão revoltado com o cinismo desse ladrão safado, que perdi o controle. Mas o senhor não se preocupe. Eu vou lhe dar outro peru novinho em folha!

        – Carece não, dotô. Só me sirvia esse, quiéra de istimação!

        À noite, no boteco da esquina, o peru do velho Dema foi consumido ao molho pardo, pelo delegado e auxiliares, numa farra regada a incontáveis goles de cerveja gelada.

 

O porco e a esmola

     Começo de manhã no Sertão e o sol já ameaçava derreter o juízo do povo. Calor de lascar! Na Delegacia de Polícia de Delmiro Gouveia, um cidadão se mantinha atento à leitura da Bíblia Sagrada. Era o religiosíssimo delegado Policarpo Damasceno.

     De repente, a paz no ambiente foi quebrada pela intempestiva entrada do velhusco Jugurta Ferreira:

     – Fui rôbado, dotô!

     O delegado fechou o livro sagrado e indagou:

     – O que foi que roubaram do senhor, meu velho?

     E ele:

     – Rôbaro o meu poiquinho Genéso, dotô! O bichinho ainda era novinho… Tava c’uns trêis mêis de nascido.

     – O senhor desconfia de quem possa ter afanado o Genésio?

     – Tenho certeza de qui o ladrão é o nêgo Xavié…

     – Xavier, não é?

     – É, sim sinhô. Foi ele!

     Nesse ponto o queixoso começou a chorar. Coração mole, o delegado quase chorou, também. Só não caiu no pranto porque pegava mal. Já pensaram uma autoridade do porte do doutor Policarpo chorando por causa de um porco? Então, ele teve de se segurar.

     Passado o momento da emoção, o delegado chamou o seu chefe de serviço e determinou que ele mandasse buscar o tal Xavier.

     Pegaram o indivíduo e levaram à presença do delegado, que foi logo entrando de sola, assim que pôs os olhos nele:

      – Quer dizer que você é o gatuno que roubou o porquinho do cidadão aqui presente, hein?

      Muito do folgado e cheio de liberdades, o negrão comentou com um risinho cínico:

      – Quem chama aquilo de porco…

      O delegado invocou-se:

      – Eu lhe fiz uma pergunta, seu filho da puta! Responda! Roubou ou não roubou?

      – Bom… eu apenas peguei o bacurinho pra fazer um tira-gosto…

      O delegado subiu ao píncaro da indignação:

       – Pois você vai pagar o porco do velhinho, seu canalha! Vamos, pague!

       Com a maior má vontade do mundo o elemento meteu a mão o bolso, contou a grana estipulada pelo dono do suíno, jogou-a em cima do birô do delegado e disse, cheio de desprezo:

        – Olhaí a porcaria do dinheiro! O senhor fique sabendo que eu estou dando uma esmola à esse velho fofoqueiro…

        Dito isto, Xavier foi se virando para ir embora, mas o delegado o segurou  pelo gogó:

        – Pra onde vai, seu cabra?  

        – Eu tô indo embora! Num já paguei o porco?

        – Pagou não! O que você acabou de dar ao velhinho foi uma esmola, conforme fez questão de frisar. O pagamento do porco você vai fazer agora, seu safado, Vamos, pague!

        Xavier pagou o finado bacurinho e foi dormir no xadrez, de lombo ardendo.