Ailton Villanova

11 de outubro de 2016

A prova provada

Com Diego Villanova

 

     Um dia, nem que seja lá pelo ano 30.000, a previdência social pode melhorar neste país. Por enquanto, vai matando devagarinho o infeliz que dela necessita. O sortudo filho de Deus que se der ao incômodo ou à curiosidade de ver como são tratados seus semelhantes, num desses postos de assistência social oficial certamente se comoverá com o que verá nesses locais.

      Fila enorme em certo posto do INSS. Avança o primeiro infeliz para ser atendido e o funcionário encarregado de fazer o seu cadastro, indaga, cheio de má vomaneiras ntade:

      – Qualé o seu pôblema?

      – Lepra! – respondeu o cara.

      – Lepra?! – o funcionário fez cara de nojo. – Prove que está com lepra!

      No ato, o cara puxou uma orelha e colocou em cima do balcão.

      – Tá certo! Tá certo! Tire essa porcaria daí, jogue no lixo e entre naquela outra fila!

      O doente jogou a orelha no recipiente destinado ao lixo e postou-se no lugar indicado. Imediatamente, outro ocupou o seu lugar e o funcionário, sem maneirar a grossura e a má educação, perguntou:

       – E o senhor? Tá doente de quê?

       – De tuberculose! – informou o infeliz.

       – Afaste-se pra lá e me dê uma prova!

       O camarada nem fez força: deu uma cusparada em cima da mesa. Verdadeira bola de sangue.

        Arrrrgh! Vá para aquela outra fila!

       Encostou o terceiro:

       – Meu problema é fome, moço…

       – Fome, hein? Prove que tá com fome!

       O miserável catou a orelha que estava no recipiente do lixo, molhou na cusparada de sangue e comeu!

 

O fruto bendito

     Num desses encontros de direitos humanos, ou algo parecido, um certo Licurgo Liberal, eterno candidato em tudo quanto é pleito eleitoral, discursava para uma atenta plateia, num determinado clube social:

      – … De modo, meus amigos, que eu sou contra a discriminação de qualquer espécie. Sou de opinião que devemos proteger as minorias. O homossexual, por exemplo, é apenas um fruto da nossa sociedade…

      Da plateia, interferiu um vozeirão:

      – É isso aí, meu! Acabei de comer um, nestante!

 

Carcereiro na medida

     Cansado de trabalhar como balconista de bar, o Oribaldo Batista procurou o delegado Walter Gama, quando este era secretário de Justiça e lhe pediu o emprego de carcereiro. Como o setor andava desguarnecido, Gama considerou boa a idéia de contratá-lo. Mas, antes, teve de adverti-lo para a responsabilidade da função:

      – Olha, trabalhar no sistema penitenciário não é tarefa fácil! Exige muito equilíbrio e responsabilidade! Será que você seria capaz de lidar com presos?

      E o Oribaldo, todo entusiasmado:

      – Não tem problema doutor. Se eles não se comportarem direitinho, boto todo mundo na rua!

 

Ué, cadê o meu cavalo?!

     Finzinho de tarde em Campo Alegre. Tudo na paz de Deus! Na margem da rodovia, abrem-se as portas de um bar e um camarada sai disparado de dentro, dá um salto acrobático e cai dentro da sarjeta paralela ao acostamento.

      Um trranseunte que quase foi atingido pelo sujeito, perguntou alarmado:

      – O que foi isso, rapaz?! Você foi expulso a pontapés, ou está doido?

     E o cara:

     – Nem uma coisa e nem outra. Só queria saber quem foi o fiadaputa que tirou o meu cavalo do lugar!

 

O doutor mouquinho

     Ao final de mais um dia de trabalho , dois psicanalistas se encontram no elevador do edifício onde ambos possuem seus respectivos consultórios. Um deles, cerca de 40 anos de idade, aparentava cansaço. Seus olhos saltitando nas órbitas, confirmavam realmente que ele tivera um dia pesadíssimo. O outro, beirando os 80 anos, parecia feliz, descontraído, relaxadíssimo.

     – Ufa! Estou pregado de tanto escutar os problemas dos meus pacientes. Cada um mais complicado que o outro! E o senhor que atende mais pacientes do que eu, está aí inteirão, bem disposto, como se nada o abalasse… Será que o senhor pode me revelar qual o segredo para se manter assim?

       E o velho psicanalista:

       – Hã? O que foi que você disse? Fale mais alto que eu sou surdo!

 

E precisava falar mais?

     Há muitos anos existiu no bairro do Farol uma balzaquiana chamada Maria Aparecida Peruíbe, cujo apelido era “Miss Feiúra”. Deu pra manjar  na figura?

     Determinado dia, ela estava indo ao açougue do velho Messias Florêncio, que ficava próximo à Praça do Centenário, e, ao passar pela loja animais do galego Apolônio Cerqueira foi insultada por um papagaio que se achava trepado na janela da dita loja.

     – Mulher feia! Mulher feia! – disse o louro.

     Puta da vida, a balzaca prosseguiu pisando firme, sem olhar para trás. Dia seguinte, esquecida do que ouvira na tarde anterior, olha ela de novo passando pela porta da loja do Apolônio!

      O louro atacou mais uma vez:

      – Mulher feia! Mulher feia!

      Dessa vez Maria Aparecida não deixou por menos. Entrou na loja do galego, fumaçando:

      – Olhe aqui, seu Apolônio! Se esse papagaio maldito me esculhambar novamente eu lhe processo!

      – Pode deixar que ele nunca mais molestará a senhora. Eu lhe garanto que se ele voltar a fazer isso, vai virar “canja de papagaio”!

      Na manhã subsequente dona Aparecida voltou a fazer o mesmo itinerário. Ao passar pela loja do louro inconveniente, fez questão de diminuir os passos. Deu uma paradinha, encarou o louro e exibiu um riso triunfal.

       O papagaio então disse:

       -Não vou falar, mas a senhora já sabe, né?