Ailton Villanova

5 de outubro de 2016

Um cavalo, dois bundões

     Quando João Caldas elegeu-se deputado estadual, em 1994, ele deu uma grandiosa festa em Ibateguara. A comemoração não deu pra quem quis. Além de gente por demais importante na região matense, e até da capital, à ela acorreram matutos de tudo quanto foi de biboca ibateguarense.

      Eleitores cativos de Caldas, os compadres Justino Calixto e Petrúcio Batista combinaram irem juntos à festa. Mas, aí, a dúvida:

      – Nóis vamo pra festa do dotô Juão Carda montados im quê, cumpade? – quis saber o Justino.

      O indagado pensou um pouco e respondeu:

      – Sabe qui num sêio, cumpade! Daqui inté o lugá da festa é munto chão, num é?

      – Ora sé é! Tenho a minha biscréta, mas ela tá sem bagajêro…

      – E eu tenho o meu cavalo, mas a carroça num tem pinêu! Tá tudo furado!

      – E agora, uquié qui nóis fáis?

      – O jeito é nóis ir muntado no cavalo!

      – Sem a carroça?! Ele num guenta!

      – Guenta! Ele guenta!

      – Intonce vâmo montado nele!

      Foram.

      Calixto e Batista montaram no bicho e seguiram em frente. Chegaram ao local do furdunço, estacionaram o animal no terreiro e entraram no ambiente festivo. Comeram, beberam, soltaram uns vivas, abraçaram o deputado eleito, demoraram um pouco e, finalmente, decidiram que já haviam cumprido o dever.

      Era tarde da noite quando rumaram para o local onde haviam deixado o cavalo. Quando chegaram lá, tiveram a maior surpresa: estacionados um monte de cavalos, todos iguais!

      – E agora, cumpade? Qualé o nosso? – indagou Petrúcio Batista.

      – Misturáro tudo, mas eu seio qual é. Possa dexá!

      Justino Calixto se aproximou do primeiro cavalo, levantou o rabo do animal e disse cheio de convicção:

      –  Esse num é!

      Passou para outro e fez a mesma coisa:

     – Tomém num é!

     Quando Justino já havia examinado de uns dez cavalos, Petrúcio Batista, intrigadíssimo, perguntou:

      – Mas qui doidice é essa, cumpade Justino? Cuma é qui vosmicê vai discubrí o nosso animá levantando o rabo?

      E o Justino:

       – É fáci! Quando nóis foi chegando, o sujeito qui tumava conta dos artomóve dos convidado, dixe pro ôtro qui tava junto: “Repara lá! Acabô de chegá um cavalo cum dois cuzão!”

 

“Abença, seu bispo!”

     Qual é o cristão que não se orgulha de haver concluído um curso superior, principalmente depois de ter passado por incontáveis dificuldades? Afinal, pro cara ser chamado de “doutor” vale a pena qualquer sacrifício, é ou não é?

      Eloquente exemplo disso é o Aldegundes Cabral, natural do Crato, no Ceará, porém “alagoano de coração”, conforme faz questão de alardear. Filho de um modesto marceneiro e de uma humilde serviçal da prefeitura municipal, ele emigrou sozinho para Maceió, ao completar 19 anos de idade. Aqui, conseguiu graduar-se em direito, trabalhando de manhã e de tarde  como auxiliar de mestre-de-obras. À noite, ele corria pra faculdade, muitas vezes com as tripas roncando, tão vazias se achavam.

      Então, chegou o seu grande dia.

      Na hora da colação de grau houve um probleminha com esse nosso amigo. É que o barrete – a cobertura da indumentária de formando, ou melhor, aquele chapéu invocado parecido com uma panela -, não coube na sua cabeça, porque ela é um pouco, digamos… avantajada, marca registrada de todo cearense. De modo que a toda hora o tal chapeuzinho estava escorregando da cabeçorra do Aldegundes e caindo no chão.

       Anos se passaram desde esse episódio, doutor Aldegundes melhorou de vida e – vaidoso ao extremo -, mandou copiar sua foto de formatura em tamanho gigante e entronizou na sala de casa. Na foto, embrulhado numa beca preta, o ilustre causídico exibia-se com um sorriso de felicidade, que ia de orelha a orelha.  Parte integrante da vestimenta do formando em direito, a faixa vermelha que circundava a cintura do sobredito, media dois palmos de largura. Naquela pose toda, o cara mais parecia um prelado do que propriamente um graduando.

      Dias se passaram, eis que, certa manhã, bateu-lhe à porta um pedinte e doutor Aldegundes foi atender. Naquilo que abriu a referida, inevitável e propositadamente destacou-se na sala o imenso quadro com o retrato do dono da casa. Ao reparar naquilo, o mendigo persignou-se todo, puxou um rosário do bolso e preparou-se para rezar. Aí, Aldegundes falou:

      – O que deseja, senhor?

      Os olhos do pedinte dançaram do quadro para a figura do retratado e vice-versa. Sua reação foi incrível. Ajoelhou-se aos pés do advogado, tomou-lhe as mãos e beijou-lhe o anel. Em seguida, bastante emocionado, ele balbuciou:

       – Abença, seu bispo?

 

Ele bem que avisou!

     Devorador contumaz da notícia impressa, o distinto Migueraldo Guilhardo já amanhece de olho pregado nos jornais, principalmente a Tribuna Independente. Lê tudo, até as vírgulas. Concluído esse ritual – que ele tem repetido há décadas – vai à mesa, toma o seu café e, em seguida, se manda pro trabalho, informado de tudo. Migueraldo Aguiar sabe das coisas.

     Certo dia de domingo, ele acordou mais tarde que de costume, tomou o seu costumeiro banho, pegou o desjejum e espichou-se numa rede pendurada no alpendre. Em seguida, deu garra do primeiro jornal do dia – que não era a nossa TI, porque esta ainda não existia -, e se preparou para saber das últimas. Assim que bateu os olhos no matutino, chamou-lhe a atenção a chamada da notícia para a página A9: “Governo vai vender a Chesf e o Rio São Francisco”.

     – Não é possível! Não posso acreditar! – exclamou assustado.

     Ao lado, seu sogro Arquibaldo Porciúncula, passou-lhe o rabo de olho e ficou esperando que Migueraldo falasse algo mais.

     A matéria não fazia arrodeios. Dizia que o presidente de então, Fernando Henrique Cardoso, além de pretender privatizar a Chesf, também pretendia vender o rio São Francisco, gigantesca obra da Natureza, que já existia muito antes de o Brasil ser descoberto por Pedro Álvares Cabral.

      À proporção que ia avançando na leitura, Migueraldo ia emitindo opiniões e comentários carregados de indignação:

      – Não pode! Isso é demais!

      E o sogro, só de butuca, morrendo de curiosidade.

      Mais uma linha lida, mais um comentário:

      – Como é que pode, meu Deus? É terrível!

     Até que seu Arquibaldo não conseguiu mais se segurar:

     – Que diabo de tão incrível você está lendo aí nesse jornal que não para de reclamar?

     E o Migueraldo:

     – É uma coisa inacreditável, seu Arquibaldo! Diz aqui a notícia que o presidente da República quer vender o rio São Francisco!

     O velho deu um pinote da espreguiçadeira, olhão arregalado:

     – O quêêêê???

     – Isso mesmo que o senhor ouviu! 

     – O homem endoidou de vez!  – explodiu o velho. – Pretender ser dono do Brasil, a gente até entende que pense assim… Mas querer virar Deus!!! Aí ele foi longe demais! Eu bem que avisei que esse cara ia aprontar, não avisei? Votaram nele porque quiseram. Bem empregado!