Ailton Villanova

2 de outubro de 2016

Todo mundo na contra-mão!

(Com Diego Villanova)

 

     No dia em que saiu a sentença do seu divórcio, Orsini Guimarães resolveu comemorar com muita comida e muita bebida e convidou uma monte de amigos, entre esses o Eliúde Lindoso, também conhecido como Boca de Ponche. A festança começou num sábado de tarde e terminou no domingo de madrugada.

     O ágape – se é que podemos chamá-lo assim -, ocorreu num sítio que o Orsini possuía na parte mais alta da cidade. A negrada saiu de lá biritadíssima. O mais chapado de todos era, justo, o Eliúde. Na segunda de manhã, ele disparava pela Fernandes Lima, ao volante do seu maltratado Gol cor de abóbora. Para ele, o trânsito estava terrivelmente complicado.

       Driblando automóveis, caminhões e ônibus na pista, Eliúde escutava o rádio do seu carro com o volume topado. Aí, ele se ligou mais ainda quando o locutor anunciou:

        – Atenção, caros ouvintes! Informa o Serviço de Utilidade Pública de sua emissora líder em audiência, em caráter extraordinário: se você está trafegando pela Avenida Fernandes Lima no sentido Farol/Tabuleiro do Martins, muito cuidado! Tem um louco na contramão, no sentido inverso!

        Ao escutar a advertência do locutor, Eliúde comentou, cheio de ironia:

        -Um louco só?! Rá, rá,rá… Olha quantos na contramão!!! Esse locutor tá todo por fora!!!

 

Testemunhas ilustres

     Conhecido professor de música foi assassinado num bairro nobre da capital, e a notícia chegou aos ouvidos da polícia mais depressa do que imediatamente. O diretor da polícia, um jovem recém nomeado para o posto, menos pela sua competência, mais pelo apadrinhamento político, viu aí a oportunidade de aparecer na mídia.

      – Eu mesmo vou pro local! – anunciou cheio de empáfia.

      Em seguida, o “doutor” chamou um dos seus auxiliares e deu a ordem:

      – Chame a imprensa! Diga que eu estou indo pra lá!

      Quando o tal delegadozinho assentou o solado dos pés na área do  crime, a primeira coisa fez foi perguntar  o seguinte: “Cadê os jornalistas, já chegaram?”.  A seguir, dirigiu-se até o ponto onde se registrara a cena sangrenta. Um policial militar que chegara antes de todos e anotava tudo num caderninho, foi abordado pelo boçal, digo, pela autoridade:

       – Soldado! Eu sou o delegado! O que foi que você anotou aí?

       – Anotei o nome de um vizinho da vítima. Por sinal, foi essa testemunha, que também é professor, a ver a vítima com vida!

      – Hummm… bastante suspeito! Cadê essa testemunha?

      O PM levou o delegado até a presença da sobredita testemunha, que foi logo sendo interrogada:

      – Tô sabendo que o senhor foi a última pessoa a conversar com a vítima, certo?

      – Certo.

      – E o que foi que o senhor conversou com o morto?

      – Conversamos sobre Chopin, Beethoven, Strauss, Hendel…

      – Hummmm… Muita gente, hein? Me faça um favor, professor…

      – Pois não.

      – Anote aí num papel o nome desse povo todo, que é para eu intimá-los à depor!

 

Pesando o vizinho

     O criador de porcos Perigeu Abaeté, possuía, além de centenas de bacurinhos, uma belíssima mulher que, aliás, era mais nova que ele uns vinte anos. Perigeu já tinha tanto tempo nessa atividade que nem mais precisava de balança para pesar os suínos. Ele simplesmente colocava o animal em cima de sua adiposa barriga e já dizia qual o seu peso. Era tiro e queda!

     Certo dia, depois de ter pesado um monte de porcos, ele, afinal, cansou. Aí, mandou que Juninho, o filho menor, corresse até em casa e chamasse a mãe, que também sabia pesar porco com a barriga, para ajudá-lo no serviço. O menino foi e voltou num piscar de olhos. Sem a mãe.

     – Juninho, sua mãe não vem me ajudar a pesar os porcos?

     – Acho que ela não vem não, pai!

     – Por quê?

     – Porque ela tá pesando seu Luiz, o vizinho!

 

Ah, finalmente pegaram…!

     Amigos de longas datas, os aposentados Demóstenes Januário e Mirandolino Abaeté resolveram fazer um estrago: retiraram a graninha que guardavam na poupança, compraram passagem de avião e foram conhecer Brasília. E lá estavam os dois caminhando por uma das superquadras quando foram alertados por um barulho infernal de sirenas. Aí, viram uma frota enorme de carros policiais, liderados por batedores em motos possantes.

      No meio desse aparato todo, um carrão preto. Impressionado com aquilo, Demóstenes perguntou à um cidadão que ia passando:

     – Por favor, moço, o que é que está sucedendo por aqui? Por que essa barulheira toda?

      – O senhor não sabe? Aquele que vai lá escoltado é o presidente da República!

     Aí, Demóstenes virou-se pro companheiro:

     – Ô Mirandolino, eu não falei que a gente pode acreditar na Justiça? Finalmente resolveram pegar o homem!

 

A desculpa para o recibo

     Agricultor com dificuldades financeiras, seu Ariosto Barbacena era um velho prevenidíssimo. Seus negócios sempre foram organizados e honrados. Um dia, ao quitar a última prestação de um empréstimo, ele apelou ao agiota José Augusto Gorgulho:

     – Tô carecendo que vosmicê agora me dê um ricibo…

     E o agiota:

     – Será que o senhor está pensando que vou lhe cobrar o empréstimo de novo? O senhor não confia em mim, seu Ariosto?

      O velho respondeu:

      – O problema, seu Zé, é qui quando eu chegá na porta do céu, São Pedro pode querê vê o ricibo e eu num tô disposto a andá o inferno intêro pra achá o sinhô, não!

 

O problema é achar a ponte!

     Chovia muito no interior de Alagoas, a estrada estava completamente alagada na região de Olho D’Água. Digirindo um caminhão carregado de mercadorias, o motorista José Brás estava tendo dificuldade em enxergar a estrada. Mais adiante, havia uma ponte que deveria transpor e ela também estava encoberta pelas águas.

     Prevenido, José Brás parou o autocarga no meio do caminho  e perguntou a um matuto como fazer para atravessar a ponte sem afundar no rio.

     E o matuto:

     – Bom, o negóço é vosmicê sabê guiá purcima das água, né?

     – Mas como é que eu vou dirigir por cima das águas sem afundar? – irritou-se o motorista.

     – Simpre! É só percurá acertá a ponte, qui tá dibacho da água!