Ailton Villanova

27 de setembro de 2016

Abaixa que papai vem aí!

     A donzela Delzuíta Maria, corpo torneado, rosto bonito e sorriso encantador, tinha um pai que era bastante enérgico e conservador ao extremo. Sua mãe, dona Osvalda, nem tanto. Um dia, a menina arrumou um namorado, o rapazinho Admilson, tão virgem quanto ela e aí, seu Odorico, o pai da referida, começou a marcar em cima. Achando pouco, convocou a mãe para também fazer o mesmo. Pegar na mão da moça o rapaz não podia. Beijar? Nem pensar! Lei do cão! Os namoradinhos sequer sabiam o cheiro da pele um do outro. Quando o velho não estava de butuca no casal, dona Osvalda assumia a função.

     Na desesperada tentativa de se livre dos pais da garota, determinado dia, Admilson reuniu coragem e tomou uma decisão: pediu-a em casamento. Foi pior. Os cuidados dobraram.  Admilson partiu para nova ofensiva: marcou o dia do casamento para dentro de uma semana.

     Dois dias antes do casório, dona Octábula descobriu que faltavam cinco convites para serem entregues. O pai não gostou de saber disso:

     – Logo os convites mais importantes, mulher! Quem irá entrega-los? Eu não posso, por causa dos meus calos!

     E a mãe:

     – Eu também não posso, porque estou atacada de erisipela. Tá vendo como a minha perna está vermelha e inchada?

     – Então, vai o noivo! – sugeriu pai.

     E o noivo, tirando o corpo da jogada:

     – Eu nem conheço os convidados,  seu Odorico!

     A mãe retomou a palavra e definiu:

     – Vão os dois meninos, pronto!

     O velho reagiu:

     – Nem ver!

    Depois de mais de meia hora de arenga, finalmente Delzuíta e Admilson foram liberados para fazerem a entrega dos benditos convites.

     – Olhem vocês: nada de agarramento, nada de beijos, nada de pegar na mão! – advertiu a mãe.

     O pai completou:

      – Escute aqui, seu Admilson! Respeite a sua futura esposa! Nem toque nela! Agora, vão!

     Emocionados e felizes por se acharem livres da vigilância dos pais da garota, os noivinhos se mandaram para cumprir a tarefa. Na primeira esquina escura, a mocinha insinuou-se, cheia de más intenções:

     – Amor,  o que é que a gente faz agora?

     E o rapaz, morrendo de medo:

     – Eu prometi ao seu pai. Só faltam cinco dias…

     – Mas eu estou louca pra saber como é…

     – Eu também!

    E os dois continuaram andando pela rua, na maior esfregação. Entregaram os convites e fizeram o caminho de volta. A mocinha estava que não se aguentava mais:

     – Como é, amor?

     Aí, se depararam com uma enorme árvore sobre um gramado. Delzuíta abufelou-se com Admilson, cheia de tesão:

     – Eu não aguento mais, amor! Quero ser sua, agora!

     – Então, seja o que Deus quiser! Levanta a saia!

     Ela levantou, e ele:

     – Tire a calcinha.

     Delzuíta tirou a calcinha e perguntou trêmula de emoção:

     – E agora, amor?

     – Agora – disse ele – você se abaixa aí na grama e finge que está fazendo xixi, porque o seu pai está vindo aí!

 

 

Um noivo sufocado

 

     Hipoclorito e Violanta se conheceram na faculdade e começaram a namorar. Daí para o noivado foi um pulo, porque estavam perdidamente apaixonados um pelo outro. No período das férias, eis que bateu na cachola do rapaz a idéia de viajar ao interior para conhecer os futuros sogros que, muito gentís, apesar de conservadores, ofereceram-lhe hospedagem, na sua fazenda. Seu Arcelino e dona Marieta foram generosos com Hipoclorito mas não abriram a guarda.  Para onde ele e Violanta se viravam os velhos estavam de olho.

      Pais extremamente cuidadosos, seu Arcelino e dona Marieta trataram de acomodar Hipoclorito bem distante dos aposentos da filha. O quarto ocupado pelos  velhos, estrategicamente ficava entre os quartos dos noivos. E mais: enquanto Hipoclorito estivesse sob o teto dos futuros sogros, nada de estravagâncias tipo agarrar e beijar a noiva, coisa que só teria o direito de fazer depois das núpcias, segundo determinação da mãe da noiva.  Não sabia dona Marieta que sua filhinha do coração e o noivo já dormiam juntos na capital, porque moravam no mesmo pensionato, destinado a universitários. Aquela folga, aquela tranquilidade.

     Os dias na casa de Violanta não estavam sendo do agrado do Hipoclorito. Sem poder dar ao menos uns arrochos na amada, a coisa  ficou insustentável pro seu lado. Quando chegava a hora de dormir, ele entrava no sufoco, porque não tinha na mesma cama a sua sensual Violanta. Esse negócio de só “comê-la” com os olhos não dava. Aí, ele começou a entrar em depressão.

     Certa madrugada, já bem doidão, Hipoclorito pulou da cama disposto a acabar com aquela agonia. Abriu a janela do quarto e reparou numa vaquinha toda jeitosinha bestando por alí. Logo, mil pensamentos libidinosos lhe assomaram o juízo. Aquela vaquinha quebraria o galho.

     Hipoclorito pulou a janela, pegou a vaquinha pela corda, encostou-a de jeito, levantou-lhe o rabo, arriou as calças do pijama, ajeitou-se como pôde e… quando estava se aprumando para mandar ver, acenderam a luz da varanda. Todo o terreiro ficou iluminado. E, lá da varanda, bem em frente de onde ele estava com a vaca, surgiu um grupo constituído dos pais de Violanta, dela própria e, ainda de quebra, do capataz da fazenda. Todos espiando escandalizados.

    Passado o primeiro momento de expectativa, o velho Arcelino gritou da varanda:

    – Que presepada é essa, seu safado?

    Hipoclorito ficou imóvel, de cabeça baixa.

    E a noiva, aflita:

    – O que é que você está fazendo com a vaquinha, meu amor?

    Então, Hipoclorito se mexeu. Olhou para aquela inusitada plateia, deu uma esfregadinha nas mãos, aplicou duas palmadinhas na anca da vaca e falou, todo sem jeito:  

    – Pois é, né, amor? Eu estava me preparando para sair do sufoco com essa vaquinha, aí apareceram vocês e cortaram o meu barato!

 

Cabra muito macho

 

     Pelo que garante a viúva Valguinalda, seu finado marido Hipotálamo Fragoso nunca negou fogo.

     – Todas as vezes que a gente se deitava, era tiro e queda! O Tatá era muito macho! – recorda a viúva com os olhos marejados de lágrimas.

    Em assim sendo, sua memória tinha que ser preservada a qualquer custo. Questão de honra e de justiça.

    Hipotálamo Fragoso assentou o cabelo em razão de uma disenteria aloprada. O infeliz passou três dias e três noites mijando pelo fiofó, que nem pato.

    Ele sabia que tinha o fígado esculhambado, mas insistia na biritagem. Então, quando se juntava com os colegas mecânicos de autos Corifeu Batista e Ambrólio Pinto aí era que a birita rolava adoidado. Não ficava uma garrafa cheia!

   Depois de uma farra escalafobética lá pras bandas de Marimbondo, Hipotálamo voltou pra casa passando mal. Dia seguinte, já não mais segurava o cocô no rabo, que descia de enxurrada. Três dias nessa agonia, Hipotálamo estava pedindo para ver Papai do Céu. Mas dona Vaguinalda preferiu requisitar a presença do doutor José Dias, em caráter extraordinário. Infelizmente, quando o esculápio chegou lá já era tarde demais.

     – Não posso fazer mais nada pelo seu marido, dona Val! – lamentou o médico. – Só me resta, agora, assinar a declaração de óbito.

     E a viúva, preocupada:

     – O senhor vai declarar que ele morreu de quê?

     – Diarréia!

     A viúva ajoelhou aos pés do médico:

    – Pelo amor de Deus, doutor, não coloque isso não! É melhor o senhor declarar que ele morreu de gonorréia!

    Doutor José Dias assustou-se:

    – Eu não posso fazer isso, dona Val! O seu marido morreu desidratado, em consequência de uma brutal diarreia!

    – Eu sei, doutor. Mas é pela memória do coitado…

    – Não entendi.

    Vaguinalda explicou:

    – É o seguinte, doutor… eu prefiro que todo mundo ache que o meu Tatá era um cabra macho e não um cagão!