Ailton Villanova

25 de setembro de 2016

Defeitinho de nada

     Feio que nem um trem virado, Beroaldo Galisteu também conhecido como Porronca, cansou de viver solteiro e procurou a agência de casamento de um tal de Wanderlúbio. Chegou lá, expôs a sua necessidade, apresentou algumas exigências a respeito da mulher pretendida e o cara prometeu ajuda-lo na medida do possível. Ao final do papo, pediu:

     – Deixe comigo um retrato seu, que é para mostrar pra candidata.

     Porronca entregou a sua mais recente fotografia ao Wanderlúbio, por sinal tirada pelo Adailson Calheiros, e se mandou pra casa cheio de esperança. Aguardou quase um ano. Já nem pensava mais no assunto quando recebeu um telefonema do dono da agência matrimonial que, todo contente, anunciou:

      – Demorou, mas chegou o grande momento da sua vida! Pegue uma condução e venha pra cá, voando!

      E o Porronca, mal acreditando no que estava ouvindo:

      – Você arrumou mesmo a minha futura esposa?

      – Mas é claro! Eu não prometi?

      – E como é ela?

     – É linda! Tem 20 aninhos, é morena, olhos verdes… um tesão de garota!

      – Pelamordedeus!

      – Olha, o detalhe, meu chapa: é filha única!

      – Ôba!

     – Se segure aí que tem mais: o pai dela tem 98 anos, já sofreu cinco derrames, três infartos, tem colesterol altíssimo e é diabético no último grau!

     – Putaquipariu!

     – Provavelmente entra em coma na semana que vem. Tá completamente desenganado!

     – Pé na cova, tranquilo. Uma semana?

     – Dizem os médicos. Agora, o detalhe mais importante: o velho é milionário!

     – Acho que quem vai ter um infarto sou eu! E tem mais alguma surpresa?

     – Manja só: o seu futuro sogro tem milhões de dólares em bancos suíços e já passou tudinho pro nome da filha!

     Porronca foi à loucura:

    – Cadê ela? Quero me casar agora com ela agorinha mesmo! Mande chamar um padre!  Puxa vida, Wanderlúbio, demorou mas você me arrumou o maior negócio do mundo!

    E o casamenteiro:

    – Só tem mais um pequenino detalhe…

    – Manda!

    – A garota tem uma verruga nas costas…

    – Verruga? Isso é bronca safada!

    – Você acha?

    – Bom… quer dizer… será que essa verruga aparece muito?

    – Se aparece muito? Bem… Você já ouviu falar no corcunda de Notre Dame, não ouviu?

 

Medir, como?

     Bastante conhecido pela sua extrema paciência, o João Advíncula é um apreciador da famosa “loura suada”, mas somente nos finais de semana. Aí, ele bebe até cair emborcado. Mas, num sábado específico, ele passou da conta e foi encontrado pelo amigo Garibaldo, o Fuleiragem, puxando o maior fogo, num barzinho praiano.

     – Tu hoje botou pra quebrar, hein, Advíncula? – indagou o Fuleiragem.

     E ele, engrolando a língua:

     – É que tô muito puto, meu!

     – Mas puto por que, camarada?

     – Peguei minha mulher transando na minha cama, com o vizinho!

     – Iiih, meu! Essa foi de lascar! E tu tomou alguma medida?

     – Medir, como? Não pude! O fiadaputa tava com o pau enfiado todinho nela!

 

O cúmulo do esquecimento

     Tranquilíssimo, naquele passo de tartaruga, lá ía o Odorico arrastando os pés pelo calçadão da Pajuçara, num domingo ensolarado de mil mulheres gostosas exibindo seus corpos. Ele já tinha caminhado um bocadão, quando foi abordado pelo amigo Reostato:

     – Ô cara, tu ainda tá usando aquela cueca do Flamengo que te dei no Natal!

     Odorico arregalou o olhão, espantado:

     – E tu deu agora pra advinhar, foi?

     – Que advinhar que nada, rapaz! Tu esqueceu a calça em casa!

 

Pintor maluco, pintura complicada

     Ex-vereador, o jornalista e arquiteto Ênio Lins era secretário estadual de Cultura quando, um dia, foi procurado por um sujeito com toda pinta de doido, que carregava uma tela embaixo do braço:

     – Trouxe uma obra-prima para lhe mostrar, doutor!

     Juntando ação à palavra, o indivíduo estendeu a tela sobre o birô do secretário e explicou, de peito empolado:

     – Esta é uma obra neo-concreta de grande efeito!

     Olha que o Ênio entende do riscado. Mas dessa vez ficou embatucado depois de reparar bem na peça:

      – Não estou entendendo nada, meu camarada! – Ênio foi incisivo. – Afinal, o que representa essa pintura?

      E o cara:

     – Ora, doutor, isto aqui representa um cão comendo um osso!

     – Mas cadê o osso?

     – O senhor não percebe que o cão já comeu?

     – E onde está o cachorro?

     – Já ví que o senhor não tem a menor sensibilidade. Então o senhor acha que o cão ia ficar aí, olhando à toa, e dando a maior sopa, depois de ter comido o osso?

 

Um poste chocante

     O amigo leitor que é chegado a uma biritagem, sabe muito bem como é boteco de subúrbio em final de semana: abarrotado de bêbado. Então, pro neguinho utilizar-se do sanitário é um drama. Em assim sendo, o Bar do Camaleão, localizado no Jacintinho, não foge à regra. Lá, a fila de xambregados por uma colher-de-chá no WC é quilométrica. Entre esses se achava o galego Agnósio Hepatino que, já não estava mais reunindo condições de continuar aguardando a vez de utilizar o sanitário. De modo que procurou fazer o seu pipi no pé do poste da esquina.

     Com a visão atrapalhada em razão dos incontáveis grogues que havia tomado, Agnósio não reparou que sentado no pé do poste encontrava-se um negão que mais parecia uma montanha. Aí, puxou a “chibata” e mandou ver uma tremenda mijada na cabeça do negão, dessas de fazer mil espumas. A porrada que levou no meio da cara atirou-o longe.  Depois de uns cinco minutos desmaiado, ele voltou, cambaleando, ao bar. Seu parceiro de mesa, um tal de Nenem Piaba, reclamou:

     – Porra! Tu demoru pra cacete! Agora quem vai lá mijar sou eu!

     E o galego:

     – Olha, Piaba, tu num mija no poste da esquina, que tá dando um choque filho da puta!

 

Como procurar o isqueiro?

     Depois de uma bruta farra, os parceiros Alcolídio e Eutanólio enfrentavam o caminho de volta ao lar. Isso, alta madrugada. A rua por onde andavam estava escura que nem breu. Em dado momento o Alcolídio meteu a mão no bolso, puxou um cigarro todo torto, catou a caixa de fósforo, acendeu um palito e pediu ao Eutenólio:

     – Perêia, segura esse fósforo, por favor…

     – E tu num vai acender o cigarro?

     – Vou, porra! Mas como é que eu vou procurar a bobônica do isqueiro com o fósforo apagado, me responda!