Ailton Villanova

22 de setembro de 2016

REGIME ALOPRADO

 (Com Diego Villanova)

 

     Parentes, vizinhos, amigos e colegas de trabalho andaram vivendo dias de muita preocupação, apreensão e expectativa com o misterioso desaparecimento do gordo Etelvino Raposo, cujas bochechas vermelhas, parecidas com tomates maduros, brilhavam à luz do sol. Etelvino nunca foi essas inteligências todas, entretanto, um grande sujeito. Ele sumiu no oco do mundo um dia depois de ter comparecido ao consultório do médico Hipocôndrio Castelo Branco.

     Conta o próprio esculápio que o Raposo havia comparecido à sua clínica com o objetivo de pegar uma dieta para emagrecer uns quilinhos, já que estava pesando quase duzentos quilos. Nessa ocasião, recomendara o doutor:

     – Olha, Raposo, de princípio você precisa experimentar uns exercícios…

     – Perfeitamente, doutor. Que tipo de exercício o senhor me recomenda?

     – Bem… Você começa com uma caminhada leve. Depois, vai apressando os passos até fazer 10 quilômetros diários, durante 30 minutos, está me entendendo?

     – Estou. Quer dizer que eu devo caminhar um mês?

     – Exato. Depois disso, volte aqui. Garanto que nesse período perderá pelo menos uns 40 quilos.

     – Não diga, doutor!

     – Digo.

     – E quando é que eu começo?

     – Amanhã mesmo!

     Depois desse papo o Etelvino desapareceu do mapa. Um mês depois do seu sumiço, e de intensas procuras pela sua pessoa, todo mundo já havia se conformado com a possibilidade de ele ter sido sequestrado e eliminado por terríveis bandidos. Sua mãe, dona Estriquinina, passou a usar vestido preto, de luto, e a esposa Maria Teorema se conformado com a condição de viúva.

     Decorridos exatos 35 dias do lamentoso desaparecimento do gordo, com direito, inclusive a missa de trigésimo dia, eis que o doutor Hipocôndrio recebeu um telefonema:

     – Alô, doutor? Aqui é o Etelvino!

     – E você está vivo, rapaz?!

     – Claro né, doutor?

     – E onde é que você anda, rapaz? Está todo mundo pensando que você morreu! Houve até missa…

     – Eu estou no Piauí!

     – No Piauí???!!! O que diabo você está fazendo aí, rapaz? Tem feito os exercícios que recomendei?

     – Tudo direitinho, doutor!

     – Conseguiu emagrecer?

     – Consegui até demais! Mas estou com um probleminha, doutor! Não consigo voltar porque me assaltaram e levaram a minha carteira!

 

Mais dois na caçapa!

     À época do fato que vai abaixo papeado, o Hospital de Pronto Socorro pertencia à prefeitura de Maceió e funcionava na rua Dias Cabral, esquina com a Santos Pacheco, bem no centro da Capital. Hoje, no local, opera o Serviço de Emergência da Santa Casa de Misericórdia.

       Nos fins de semana o movimento no finado HPS era dobrado. O  trânsito na área engarrafava. Era um Deus-nos-acuda!

     O entra e sai de ambulâncias pelas estreitas aberturas laterais do nosocômio dava agonia.

     Certa tarde de sábado, o motorista de uma delas, chamado Hildebrando foi acionado para conduzir ao distrito do Mutange a equipe de resgate chefiada pelo enfermeiro José Bento da Fonsêca. É que havia lá um coitado gritando de dor, arriado na via pública. Caso de atropelamento.

     Zé Bento e equipe se mandaram voando pro local. Quinze minutos depois, estavam de volta ao nosocômio. Naquilo que a ambulância estacionou no acanhado pátio do hospital, saltou o médico de plantão e observou, em tom de crítica:

     – Ué! Vocês foram buscar um doente e trouxeram três!

     E o motorista:

     – Os outros dois a gente atropelou, doutor!

 

Banho incômodo demais!

     O médico alagoano boa praça Nilton Jorge Melo, antigo cronista esportivo, viveu mais de 20 anos em Portugal. Integrou-se tanto ao país luso que quando voltou pro Brasil, voltou falando com forte sotaque lusitano.

     Um dia, em terras de Além-Mar, encontrava-se dando plantão no hospital de clínicas quando foi procurado por um paciente:

     – Preciso falaire consigo, doutoire!

     – Ora pois, seu Manuel! Mas, antes de mais nada, me responda: como está se sentindo com os banhos que prescrevi?

     E o gajo:

     – Vou muito bem, doutoire. Só sinto o corpo pegajoso!

     – Pegajoso?!

     – É, doutoire! Eu acho que é por causa do açúcar…

     – Açucar?!

     – O senhoire não me mandou só tomaire banho de água doce, opá?

 

Duas horas é de bom tamanho!

     O cenário é hospitalar. Quase todo mundo conhece esse ambiente.

     Madrugada fria, o baixinho intitulado Euclósio Pretérito caminhava pra cima e pra baixo no corredor do hospital. Sua mulher encontrava-se bastante doente, beirando a morte. De repente, abriu-se a porta do UTI e de lá saiu um médico, exibindo a maior cara de tristeza. Euclósio antecipou-se:

     – E então, doutor?

     O esculápio meteu lá uma cara de ator dramático e fez aquele drama:

     – Seja forte, meu amigo. Infelizmente, sua esposa não tem mais que duas horas de vida…

     – Pode deixar, doutor, eu serei. Depois de tantos anos, dá pra suportar mais essas duas horas.

 

Quem sabe mais?

     Mal acabou de sair da faculdade de medicina, o jovem doutor Flamarion Anaxágoras foi clinicar no interior, a convite do prefeito Propino Liberal, amigão de seu pai, o também doutor Mediastino.

      Assim que assentou o traseiro na cadeira de médico, no posto de saúde da cidade, foi chamado para examinar um velhinho, na zona rural. O coitadinho estava mais pra lá do que pra cá.

     Assim que bateu o olho no macróbio, doutor  Flamarion armou a maior cara de pesar e disse à esposa do infeliz:

     – Infelizmente não posso fazer mais nada pelo velhinho. Ele já está praticamente morto!

     Ao escutar o que o jovem médico havia falado, o moribundo reagiu:

     – Morto coisa nenhuma! Tô bem vivo!

     E a mulher dele:

     – Cala a boca, diacho! Quem foi qui istudô? Você ou o dotô?

 

Só depois da necropsia!

     Noite chuvosa, o pintor de paredes José Tancredo entrou no posto de saúde da Chã da Jaqueira reclamando mais do que bode embarcado. No local não havia médico, apenas um acadêmico, um auxiliar de enfermagem e o serviçal Arquimedes, o único acordado, no momento.

     Agoniado, Tancredo apelou para o serviçal:

     – Doutor, pelo amor de Deus, me acuda!

    Ao ser chamado de “doutor”, Arquimedes ficou todo ancho e assumiu a condição de “médico“. Encheu o peito, soltou um pigarro e retrucou:

     – Fique calmo, meu chapa! O que é que você tá sentindo?

     – Tô sentindo uma agonia danada! Nem posso respirar direito!

     – Xovê! Chega pra cá!

     O cara chegou para perto do falso doutor, ele encostou o ouvido no peito dele e disse:

     – Você tá completamente envenenado!

     – Minha Nossa Senhora! E o que poderia ser, doutor?

     –  Só poderemos saber depois da sua necropsia, no IML!

     Aí, o cara morreu de verdade. De infarto.