Rívison Batista

7 de setembro de 2016

O abraço do candidato (ou 'Conselhos de um pai experiente')

“- Meu filho, uma eleição não é decidida com argumentos. Não neste país. Uma eleição aqui é decidida sorrindo, aparecendo bem de frente às câmeras. É isso que o povo quer hoje: Juventude. Vitalidade. Sempre seja sorridente. Cumprimente todos. Abrace todos. Beije a mão do gari. O único argumento que você precisa usar para o povo na rua é: “Eu trago comigo a capacidade da mudança”. Diga isso com um olhar firme, confiante. Funciona como hipnose. Deixe os argumentos para os debates na televisão. Para o horário eleitoral. O povo não quer objetividade. Com ele, funciona melhor subjetividade. Você vai ouvir aplausos e aí tente manter uma postura serena…“.

O jovem candidato a vereador de 20 anos escuta atentamente os conselhos do pai, um senador. Passo a passo, o experiente político destrincha o manual do comportamento de um candidato a cargo político. Detalhes imperceptíveis, como um 'sinal de joia' e acenos, são vistos como vitais para o senador. “As pessoas podem se esquecer do seu discurso, mas não esquecem a sua simpatia. É assim que funciona aqui”, dizia o pai. “Crie um jargão, algo do tipo 'a força jovem que essa cidade precisa'. Você precisa se dar conta de que vivemos no país do entretenimento barato, onde pessoas totalmente despreparadas contam piadas e chegam ao poder. Onde alguém 'jura por deus' e ganha o voto de religiosos. Isto num país laico. Então crie seu personagem também. Entre na vida dessas pessoas. Pode citar meu nome de vez em quando, mas não sempre. Senão vai parecer inseguro“, aconselhava o senador, um homem experiente do teatro político. O jovem candidato então começa a se aventurar em busca de eleitores. Inicia a caminhada visitando comunidades carentes e vai recordando os conselhos do pai. “Filho, é necessário que eles pensem que você é um deles. Abrace a dona do barraco e a beije no rosto. Participe de alguma partida de futebol com crianças na rua. O abraço e o beijo são importantíssimos, não esqueça”, recomendou. “Pai, como é? Pelo amor de Deus, o cheiro desse povo, só o cheiro, me dá náuseas e ânsia de vômito! E você me fala de beijos e abraços?”, questionava o filho com ar de pânico. 

O jovem candidato seguiu os conselhos do pai experiente. Chegou na favela, colocou o melhor sorriso, acenou para todos, entrou em barracos, comeu pão de dois dias atrás, bebeu água de torneira, beijou a dona de casa no rosto, brincou com as crianças e deu um grande abraço em um carroceiro na rua. Após o bem sucedido dia em contato com futuros eleitores, chegou em casa, tirou a camisa social, tirou a calça e atirou as roupas no lixeiro. Três dias depois, aparece como um dos mais bem cotados em uma pesquisa de intenção de voto. Animado, pega o celular e telefona para o senador. “Pai, viu? Não, não fiz nenhum discurso. Apenas frases de efeito, como você disse. Não sabia que era tão fácil. Eu fico me perguntando, como esse povo passa tantos problemas e não presta atenção nas ideias, apenas observam o que não importa?”, perguntava o animado e confuso jovem candidato. O pai sabia a resposta para uma pergunta tão pertinente. “Filho, eles podem enxergar, ouvir e falar. São seres humanos totalmente capazes, à primeira vista. Mas a maioria da população é cega de educação. E não estou falando só dos pobres. A classe alta frequenta as melhores faculdades e ainda assim não tem senso crítico. A cegueira educacional constrói pessoas incapazes de diferenciar o correto da enrolação. Este será sempre nosso ponto forte. Enquanto não houver educação de qualidade, mesmo entre quem pode pagar por ela, teremos sempre um povo desunido e temeroso e, dessa forma, meu filho, nossa família sempre estará no topo usando apenas sorrisos, acenos e abraços”, disse o pai. O jovem candidato – um 'herdeiro' político de peso – se despediu, encerrou a ligação e se deu conta de que estava começando a entender como deveria agir na promissora vida política. Ao longo dos meses que antecediam as eleições, visitou outras comunidades, fez promessas e criou um jargão: 'O candidato que tem o aroma e o jeito do povo'. Quando chegou outubro, venceu nas urnas. Até o dia da posse, ele refletia sobre a falta de senso crítico de uma população facilmente iludida.

“Democracia é um jogo que temos que jogar com atenção. Os mais ingênuos pensam que a palavra significa 'governo do povo'. Santa ingenuidade. Agradeço a essa santa todos os dias”, dizia o sorridente pai ao filho em um almoço de domingo.

 

*Rívison Batista é jornalista (obs.: os personagens citados no texto são totalmente ficcionais)