Ailton Villanova

31 de agosto de 2016

Modelo infernal brasileiro

(Com Diego Villanova)

 

      Descendente de portugueses, Alcidésio Barata herdara do avô paterno, o velho Leôncio, a veia humorística que dele fez parte a vida inteira. De tudo ele bolava uma pilhéria. Até dos momentos mais severos ou lastimosos, ele escapou com uma piada na ponta da língua.

     Um dia, Alcidésio embarcou “desta para a melhor (?!)”, ao sofrer um acidente automobilístico na rodovia que liga Pernambuco a Paraíba, nas imediações de Igarassu . A viúva, dona Cleônia Cristina, não se conformou – lógico -, com a perda do amado marido e, sempre que podia, rogava ao Criador:

     – Oh, Pai Celestial, toma conta direitinho do meu Dezinho, aí no céu!

     Só que o espírito do infortunado andava por outras paragens bem diferentes e distantes das celestiais. Pelo próprio inditoso, através de uma sessão espírita, dona Cleônia Cristina ficou sabendo que Alcidésio Barata encontrava-se numa boa, nas profundezas do inferno.

     Em volta de uma mesa forrada de linho branco, reuniam-se dois médiuns, a viúva e a sogra, além de uma restrita plateia. Todos aguardavam ansiosamente que o espírito de Alcidésio pintasse na parada.

     Ele pintou, numa boa!

     A primeira pergunta que a viúva lhe fez foi a seguinte: “Você está sendo bem tratado aí no céu, meu amor?”

     Com voz cavernosa, ele respondeu:

     – Estou maravilhosamente bem, aqui no inferno!

     – No inferno?! Por que você não foi pro céu, Dezinho?

     – Ah, minha filha, o céu é muito devegar…

     – Não diga uma blasfêmia dessa, Dezinho!

     – Claro que digo! Aqui no inferno estou numa boa, pode crer! Assim que cheguei no inferno-geral fiquei meio cabreiro. Entretanto, o cão-chefe, Carolino, me ofereceu três alternativas: ir pro inferno inglês, onde teria que comer vinte latas de enxofre por dia; ir pro inferno alemão, onde teria que comer cinquenta latas de enxofre diariamente, ou vir aqui pro inferno brasileiro, onde teria que comer duzentas… É lógico que escolhi o inglês. Mas, o secretário do Cão-chefe me chamou num canto e aconselhou: 'Olha, cara, se eu fosse você optava pelo inferno brasileiro, que é bem melhor'. Aí, eu reagí: 'qualé, meu irmão? Você quer me ferrar?' Então, ele insistiu: 'Vai por mim, rapaz. No inferno brasileiro tudo funciona com aquele jeitão que você conhece… quando tem lata, não tem enxofre, quando tem enxofre não tem lata…'”

 

 

Que nem o pai!

 

     Extremosa e boa, mamãe Margô levou seu querido rebento, o pentelho Cacá, para visitar os avós. Quando chegou lá, dona Matilde, a avó, já o esperava de braços abertos, na maior ansiedade:

     – Ooohhh, meu santinho! Que felicidade revê-lo!

     E tome beijos, afagos e abraços mil.

     Babando-se toda, dona Matilde prosseguiu:

     – Mas como você está lindo, Cacá! Ah, eu soube que você tem uma nova babá!

     – É…

     – Você gosta da nova babá?

     E o Cacá:

     – Odeio! Ela é uma chata! Eu queria agarrar e morder o pescoço dela, igual o paínho faz!

 

 

Queria… mas como desenhar?!

 

     Na escolinha da Tia Rose, a garotada estava pronta para cumprir mais uma tarefa, solicitada pela ilustre mestra. Só estava faltando o tema. Momentos antes do início dos trabalhos, tia Rose anunciou:

     – Bom, meus queridinhos… vamos pegando o lápis e o papel, para começarmos a nossa tarefinha. Eu quero que vocês ponham aí o que todos querem ser quando crescer.

      Meia depois, todos os garotos entregaram os seus desenhos, menos o Sidclay, priminho do Cacá, talqualmente pentelho.

      – Você não quer ser nada quando crescer, meu amor? – perguntou tia Rose.

      E ele:

      – Claro que quero, tia! Eu quero, sim, ser casado, mas não sei como desenhar…

 

 

Desenho bem difícil

 

     Geninho, garotinho vivinho, voltou da escola e foi direto pro colo da mãe, Silvinha, com quem desabafou:

     – Maínha, a tia lá da escola nunca viu um cavalo!

     – Não é possível! Eu não acredito, meu filho!

     – É verdade, maínha!

     – Ela lhe disse que nunca viu um cavalo?

     – E precisou? Eu pintei um cavalo, mostrei pra ela e ela perguntou o que era!

 

 

O bife escondidinho

 

     Após ser servido, inclusive em tempo recorde, o freguês do Restaurante do Duda, filial de Mangabeiras, terminou de rangar e chamou o garçom Deraldo, que na ocasião estava sóbrio:

     – Por favor, rapaz, me traga a conta!

     E o Deraldo, querendo ser gentil:

     –  E então, doutor, como acho o bife?

     O cara respondeu:

     – Como achei? Ah, por acaso! Levantei a batata e ele estava embaixo, escondidinho!

 

 

O tambor significativamente incomodativo

 

     Na hora do jantar, dona Geovanilda conversava com o maridão Pedro Eulálio, sem esconder a sua decepção:

     – Eu acho que o nosso vizinho do apartamento aí de cima, não apreciou o novo tambor do Juninho!

     – Por que você acha isso, meu amor?

     – Porque hoje, o canalha deu um canivete pro menino e perguntou se ele não queria saber como era o tambor por dentro.

 

 

A “queda” era outra!

 

     Num vôo internacional, o avião brasileiro transportava passageiros de diversas procedências quando, em determinado momento, ocorreu uma pane. Generalizou-se uma confusão.

     Calmamente, um inglês dirigiu-se à porta de emergência, abriu-a e saltou sem nenhum equipamento. Em pleno ar, tirou do bolso do paletó uma caneta de ouro e, apertando um botão especial, surgiu um paraquedas.

      Em seguida, saltou pela mesma porta um americano e saca do bolso um isqueiro paraquedas.

      Aí, vem o português e salta também.

      Horas mais tarde seu corpo é encontrado estatelado, após queda livre de cinco mil metros. Ao resgatarem o cadáver, constataram que ele segurava na mão um vidrinho. No rótulo estava escrito, em destaque: “PARA QUEDAS de cabelos!”.