Ailton Villanova

23 de agosto de 2016

Vingança sem (muito) rancor

(Com Diego Villanova)

       Finalzinho de tarde, o telefone tocou no casarão do fazendeiro Adamastor Calixto, homem de muitas posses e (mais ou menos) dono de uma mulher bonita e fogosa. Cheio de preguiça, ele atendeu:

     – Aaalô?

     Do outro lado da linha, alguém indagou:

     – Compadre? É o compadre Adasmator?

     – É ele. Quem é que tá falando?

     Uma voz feminina, sussurrante, completou com nova indagação:

     – Tá reconhecendo não? É a Dasdores!

     – Aaah! A comadre Dasdores! Como vai, comadre?

     – Sofrível, compadre. Sofrível. Estaria melhor se não tivesse recebido a notícia que recebí hoje…

     – E o qual foi a notícia que deixou a senhora tão desolada, comadre?

     Dasdores não fez arrodeio:

     – Bom, fiquei sabendo que a sua mulher, comadre Dulcina, anda trepando com o meu marido!

     – Ah, dois condenados! É verdade mesmo, comadre?

     – Verdade, e eu já tenho um plano de vingança. Se o senhor topar…

     – Já topei! Vá logo me dizendo que diacho de plano é esse.      Só lhe digo pessoalmente. Topa começar hoje?

     – Topo começar até agora, se a senhor desejar…

     Concluído o papo telefônico, compadre e comadre se encontraram num canto escondido da curva de uma estrada vicinal e, na conformidade do que sugeriu a mulher, os adúlteros deveriam receber o troco na mesma moeda. De modo que os “traídos” partiram para os “finalmentes”. Terminada a primeira transa ao pé de uma frondosa jaqueira, madame Dasdores propôs, aos suspiros:

      – Que tal mais uma vingançazinha?

      Compadre Adamastor não pensou duas vezes. Mandou o pau pra frente, sem dó e nem piedade.

       A comadre era insaciável:

       – Vamos de novo? A vingança tem que ser bem executada. Aqueles traidores há mais de seis meses vêm nos passando para trás.

      E tome desforra por cima de desforra. E Dasdores, danada persistindo:

      – Ai! Ui! Mais umazinha, compadre!

      A ponto de desmaiar de cansaço, Adamastor entregou os pontos:

      – Ufa! Sabe, comadre…! Puf… puf… eu acho que já passou o rancor e o desejo de vingança…

 

 

Morreu sem médico, mesmo!

 

     Antigos companheiros de boemia, Manuel Justiniano e Asnóbrio Pacheco se encontraram na feira livre de Arapiraca, depois de um tempão que não se viam. Vieram os abraços, dois dedos de prosa e, então, Justiniano perguntou:

     – Amigo véio, vosmicê tá sabendo quem morreu?

     E Asnóbrio:

     – Tô não. Quem foi qui morreu?

     – O cumpade Jesuíno!  

     – Num diga! E ele tava doente?

     – Tava, coitado…

     – E quáu foi dotô médico qui cuidô dele?

     – Ninhum! E cariceu? Ele morreu de morte naturá mêrmo!

 

 

Um amigo muito “doente”

 

     O baixinho Correínha de vez em quando dá uma de garanhão. De modo que, bela tarde, requisitou os préstimos de uma “niquimba” e foi com ela à um daqueles moteís do litoral. Naquilo que foi entrando, deu de cara com a esposa, que ia saindo, a bordo de um carrão pilotado por um bonitão. Aí, sacou uma de macho e exigiu dela explicações:

     – Margarida, que negócio é esse? Quê que você tava fazendo aí dentro?

     E ela, numa boa:

     – Deixe de nervosismo, meu filho. Eu e o meu amigão aqui, o Carlão, viemos fazer uma visita a uma pessoa doente…

     E Correínha:

     – Pessoa doente no motel?! Qual é a doença dessa pessoa?

     – Ejaculação precoce!

 

 

Mulher de amigo é remédio infalível!

 

     Amigos de velhas e longas datas, Eufrédio e Auflenísio encontravam-se bebendo num barzinho da periferia. Já bastante enfrascados, começaram a conversar aritica. No meio desse papoi furado, eis que o Eufrédio confessou:

     – Sabe, parêia, eu cheguei à conclusão que, por mais que eu beba para curar a minha depressão, mais eu fico abatido.

     E o Auflenísio, concordando:

     – É verdade. Tu tá com uma cara de quem ja morreu! Mas eu conheço um remédio porreta pra isso.

     – Conhece?

     – Claro que conheço. Quando eu tô assim, vou pra casa, pego a mulher, dou uma transada e fica tudo azul novamente!

     – Que legal, cara! Será que sua senhora está em casa agora?

 

 

Um presente muito difícil

 

     Com a maior cara de preocupação, o Serjão desabava com o amigo Periosto:

     – Tô lascado, bicho! Esse negócio de amante é bonzinho, mas dá um galho filho da mãe!

     – Quê que tá havendo?

     – É que a minha mulher está desconfiada do meu caso com a Cidinha, e eu agora tenho que lhe dar uma jóia de brilhantes para ver se despisto um pouco!

     – Pô, cara! Ontem mesmo tua mulher me falou que queria possuir ao menos um fusca, tá lembrado não?

     – Tô, tô!

     – E então? Por que essa história de jóia de brilhante? Dá um fusca pra ela, rapaz!

     – Mas onde bubônica eu vou arrumar um fusca falso, me diga?

 

 

Confissão um tanto retardada

 

     Ano de 1970. Recém-ordenado, padre Adelmário (mais conhecido como padre Déda) foi designado para uma paróquia no interior sergipano. Chegou lá cheio de gás e grandes ideias na cachola. Um dia, estando sem fazer nada especial, eis que foi procurado por um velho, que pediu para se confessar. Padre Déda aquiesceu e o macróbio mandou lá:

     – O pobrêma é o siguinte, seu vigáro… Na época qui o capitão Virgulino andava fazendo istripulia aqui pelo Sertão, bateu na minha porta uma mulé munto bunita pidindo pra s'siscondê dos cabra dele. Eita mulerão, seu vigáro! Entonce, iscondí-lha!

     – Mas foi uma coisa muito boa o que o senhor fez. Não precisa se confessar por isso…

     – Sim, seu vigáro… Mas eu fui fraco e apruveitadô: dixe pra ela qui ela tinha de pagá o favô na cama, cumigo!

     E Déda, bastante compreensivo:

     – Bem, era um tempo difícil e o senhor correu um risco muito grande. Portanto, está perdoado.

     – Agradicido, seu vigáro. Possa crê qui agora fiquei aliviado. Mas careço de lhe preguntá uma coisa…

     – Pois possa perguntar.

     – Será qui priciso dizê pra ela qui Lampião e seus cabra já morrêro tudo e qui o bando acabô?