Rívison Batista

23 de agosto de 2016

Invisíveis

Voltou para casa sem dinheiro, porém mais rico em educação. Tinha encontrado duas gramáticas no lixo. Na semana anterior, encontrou um livro de espanhol e tentou, em vão, falar com turistas. Em vão. Ninguém percebe uma criança pobre por perto. Ou finge não perceber. Pobre é um elogio para as condições de vida de Pedro. Era miserável. Morava com o pai em um barraco às margens da lagoa. A sala era o quarto e também era o banheiro. Em dias chuvosos, era preciso dormir fora, pois inundava. E dormir fora muitas vezes significava ficar embaixo do teto de uma loja. O desemprego do pai não ajudava a arranjar um local melhor. No auge dos seus dez anos, Pedro tem uma mania: procurar livros no lixo. Mesmo passando por tantos problemas, ele é devidamente matriculado em uma escola pública. Na sua classe, ele tem aulas no chão. Devido a uma enchente, as cadeiras escolares foram perdidas, e não foram recolocadas novas. Este tipo de detalhe da educação de um 'país em crescimento' (mas que produz, em massa, os excluídos) não o impediu de aprender a ler. “Pai, se eu tivesse um poder, seria o menino invisível“, falou o garoto, que segurava uma revista em quadrinhos de super-heróis e mostrava ao pai.

Não era invisível à toa. Subia em um ônibus e pedia alguns trocados aos passageiros que, quase sempre, voltavam a cabeça para a janela do coletivo, na esperança de que a criança não se dirigisse a eles. Sentava na calçada de um restaurante e estendia as mãos quando clientes saíam, porém era ignorado sempre. Só não era invisível para policiais, que pediam à criança para sair do local. O pai de Pedro não gostava que o filho saísse pedindo ajuda. O homem ficava destruído ao ver o filho lhe entregando poucas moedas. “Dá pra comprar uns três pães”, dizia o homem, segurando a esmola. O pai de Pedro não teve nenhuma oportunidade de estudar e tentava ganhar a vida como servente de pedreiro, mas, ultimamente, conseguia serviço uma vez por semana. O homem também tinha o dom da invisibilidade. Tentava pedir emprego em um supermercado e o gerente mandava um funcionário avisar que não havia vagas. “Mas eu não posso falar com o doutor gerente? Eu posso fazer qualquer coisa”, perguntava o desconsolado homem. “Ele não pode ver o senhor agora”, respondia o funcionário.

O homem invisível seguia andando pela cidade, segurando o filho por uma mão, até o momento em que se depara com uma loja de eletrodomésticos. Em uma grande TV, assiste a uma entrevista do ministro da Saúde: “O SUS [Sistema Único de Saúde] não funciona muito bem porque o povo chega inventando doenças nos hospitais”, afirmava o homem que tinha a obrigação de cuidar da saúde do povo. Andando mais um pouco, pai e filho foram abraçados por um candidato a deputado estadual. “Quando eu for eleito, o senhor não vai mais passar necessidades com o seu filho. Não esqueça meu número”, dizia em voz alta o sorridente candidato, que partiu em busca de outros abraços acompanhado de uma pequena banda. O homem e o filho não eram invisíveis para candidatos a cargos políticos por causa de algo chamado voto. Voltaram para o barraco em que viviam no início da noite. O céu estava estrelado e a lua cheia. Pedro deitou a cabeça em um travesseiro no chão e se preparava para dormir, na expectativa da aula pela manhã. O pai não conseguia dormir por horas e, entre uma tosse e outra, pensava se no próximo dia teria como alimentar o filho. A esperança de deixar de ser invisível era frequente nos dois.

 

*Rívison Batista é jornalista