Ailton Villanova

21 de agosto de 2016

Um cego muito irresponsável!

(Com Diego Villanova)    

  

     Preso em flagrante, um certo Manuel de Jesus foi levado à presença do então delegado de Acidentes de Veículos da Capital, o saudoso doutor Rubens Camêlo Almeida, pelo agente Thomaz Acioly Wanderley, também de saudosa memória, que respondia pela chefia de expediente da especializada.

     – Doutor Rubinho, este cabra aqui é um irresponsável de marca maior. O senhor precisa ver o estrago que ele fez no carro alheio! – dedurou o policial.

     E Rubens Camêlo, tranquilo, como sempre:

     – O estrago foi grande mesmo?

     – Bote grande nisso, doutor!

     – Me conte tudo direitinho.

     E o Thomaz:

     – Bom, o elemento aqui pegou o automóvel novinho de uma senhorita muito distinta, e saiu por aí fazendo barbaridades. Primeiramente, derrubou um poste e lá se foi uma banda inteira do carro. Em seguida, jogou longe um carrinho de pipocas com pipoqueiro e tudo! Mais adiante, subiu numa calçada, atropelou um cachorro e esmagou o gatinho de estimação de uma velhinha…

      – Danou-se!

      – E tem mais, doutor Rubinho!

      – Tem?

      – Tem.

      – Vá em frente! Continue!

      – Então, doutor, continuando: quando esse canalha não tinha mais a quem atropelar, ele demoliu o muro de uma escola. Uma professora de lá, que estava grávida, deu a luz na hora! Parto prematuro!

      – Terminou?

      – Terminei, doutor.

      O delegado Rubens Camêlo respirou fundo e encarou o acusado, que se mantinha firme em seu lugar. Parecia uma estátua. No pau da venta, ele tinha escanchado um óculos escuro, apesar de já ser noite.

        – Você andou bebendo, seu filho de uma égua? – interrogou o delegado.

        – Não senhor, doutor. Bebo não. – respondeu o sujeito.

        – Tem carteira de habilitação?

        – Tenho não.

        – E como andava dirigindo feito louco, o carro alheio, sem carteira de motorista?

        – Eu estava fazendo um favor à moça, sabe doutor?

        – Que moça? Que tipo de favor?

        – A moça era a dona do carro, que me pediu para guiá-lo…

        – Ela pediu, mesmo?

        – Pediu, sim. Eu estava passando pela porta do bar, quando ela me chamou e fez o pedido, dizendo que não tinha condições de dirigir, porque estava bêbada.

        – Aí, você pegou o carro e saiu tentando matar o povo! Esse automóvel não tinha freio?

        – Tinha, doutor.

        – E o que peste deu em você pra querer acabar com o mundo todo?

        – O problema, doutor, é que eu não enxergo nadinha. Sou cego de nascença!

 

 

Entre a vida e a morte

 

     Todo cristão tem o direito de errar, está escrito na “Bíblia de Josaphat”, e Mauritônio Urubá não poderia fugir à regra. A grande mancada de sua vida foi ter casado com a Dulcina, uma maranhense brabíssima, que se gaba de ser aparentada do Zé Sarney. Para curtir o desgosto de haver cometido o terrível engano, Mauritônio mergulhou no vício da bebida e, bem dizer, virou alcoólatra. Birita de manhã, de tarde e de noite.

     Outro dia, encontrava-se o indigitado no Bar do Duda, emborcando goles e mais goles de uísque goela a dentro, quando foi abordado pelo amigo Febrônio Leitão:

     – Ô bicho, eu estava preocupado com você! O que foi que aconteceu ontem de madrugada na sua casa? Me disseram que tinha um monte de carros de polícia na porta!

     – É verdade.

     – Algum assalto?

     – Mais ou menos?  Não entendi!!!

     – O caso é que minha mulher capturou e quase matou um ladrão!

     – Não diga! Sua mulher é valente, hein? Como foi isso?

     – Aconteceu o seguinte: Ela estava acordada me esperando, de porrete na mão, quando escutou alguém mexendo na fechadura e pensou que era eu, tá sacando?

     – Tô! 

     – Pois bem, naquilo que o ladrão botou a cabeça dentro de casa, levou uma violenta porrada e caiu estatelado no chão, expelindo pedaço de juízo pra todo lado!

     – Putaquipariu, meu! E qual é a situação do ladrão?

     – Está no hospital entre a vida e a morte!

     – Que loucura, meu! E a sua mulher?

     – Foi autuada em flagrante pelo delegado Mário Pedro dos Santos, por tentativa de homicídio. Tomara que esse ladrão morra logo!

 

 

Um trem a cada trilada de apito

 

     A galera mais nova desconhece que no belo e histórico prédio onde funciona o Centro de Ciências Biológicas (CCBi) da Universidade Federal de Alagoas, já funcionou uma unidade do exército brasileiro, o 4° RAM. No largo fronteiriço ao quartel, hoje conhecido como Praça da Faculdade, os militares costumavam praticar o futebol e o local acabou, anos mais tarde, se transformando na praça de esporte amador conhecida como Campo da Faculdade. Nessa época, brilhavam no bairro do Prado os inesquecíveis Arsenal Futebol Clube, do finado mestre Zé do Biu, e o Universal Esporte Clube, do saudoso Pai Manu. Até campeonatos da finada Liga Suburbana foram alí realizados, na década de 50. Era uma festa!

     Mas, antes, muito antes, de os militares do 4° RAM haverem elegido aquele local como pátio de educação física da corporação, eles promoviam os seus “rachas” e praticavam exercícios musculares no terreno baldio (hoje rua Zacharias de Azevêdo) que existia ao lado da estação ferroviária da antiga Great Western. Pouquinho mais adiante, ficava a enfermaria do exército, cujo prédio foi ampliado, décadas depois, para a instalação da 20a. Circunscrição do Serviço Militar, sucedânea da 20a. Circunscrição de Recrutamento.

      Quando acabavam de jogar o seu futebolzinho ou de praticar os seus exercícios físicos, os militares corriam para a praia da Avenida da Paz, onde se banhavam até o cair da tarde.

      Determinada tarde, quando o “racha” era dos mais animados, com direito, inclusive, a torcida organizada e tudo o mais, eis que o campo foi invadido por um senhor bigodudo e de barriga adiposa, cheio de malcriação:

     – Ei, vocês aí!

     No que respondeu o tenente responsável pela rapaziada:

     – O que deseja, senhor?

     – Quero que parem já, com esse jogo! – respondeu o cidadão.

     – Mas o que é que está havendo?

     E ele:

     – Vocês estão complicando a situação na estação ferroviária, aqui ao lado!

     O oficial tentou ponderar:

     – Olhe, senhor…

     – … Ananias, gerente da estação…!

     – Olhe, senhor Ananias, somos todos militares, estamos apenas jogando futebol e, pelo que sei, não há nenhum mal nisso!

     O gordo baixou a pancada:

     – Tá bom. Vocês podem jogar quanta bola quiserem mas, por favor, sem juiz!

     – Por que sem juiz, seu Ananias?

     Ele explicou:

     – Porque toda vez que ele apita, parte um trem!