Ailton Villanova

11 de agosto de 2016

Milagreiro de araque

Com Diego Villanova     

     Expulso do emprego de balconista de lanchonete, na periferia do mercado público da Levada, o espertíssimo, o Assuélio Matoso resolveu exercitar um barato mais maneiro: estabeleceu-se no ramo de milagreiro.

     O infeliz do ex-patrão, o velho Mauritônio Novais, quase foi a falência, porque todo o lucro de sua modesta casa de lanches o safado afanou. Se, em tempo, não o houvesse jogado no olho da rua por “justa causa”, hoje estaria esmolando por aí.

     Na semana seguinte ao da demissão, Assuélio já estava posando de pregador evangélico nos confins do Tabuleiro do Pinto, distrito de Rio Largo. Dois meses mais tarde, auto-intitulou-se “pastor” de uma certa Igreja Evangélica Nonagésima Celestial, de sua autoria, e lascou o pau a anunciar “milagres”.

     Numa sexta-feira de grande audiência, ele subiu ao púlpito e anunciou que no domingo seguinte os “caríssimos irmãos” e quem mais quisesse, estariam presenciando um dos maiores milagres dos últimos tempos, já ocorridos em cima desta planeta velho de guerra.

      Chegou o dia anunciado e o templo onde pontificava o malandrão estava entupido de incautos. No lado de fora, as pessoas se acotovelavam para assistir ao prometido fenômeno. E chegando mais gente.

      Igreja mergulhada no mais profundo silêncio, eis que soou uma campanhia e, em seguida, surgiu no púlpito, todo cheio de bossa e teatralidade, o safado do Assuélio. Parecia um pombo, todo de branco.

      Aí, meteu lá:

      – Irmãos, prometi, sexta-feira passada, que hoje apresentaria um grande milagre. Mas, pensando direitinho, vou apresentar dois!

      O silêncio permaneceu, a ponto de se escutar uma formiga caminhandlo pelo salão.

      – Primeiro – continuou ele -, vou fazer um fanhoso falar direito!

      E os fiéis, quebrando o silêncio:

      – Oooohhh…

      – Que se aproxime o fanhoso!

      O sobredito chegou pra perto do falso milagreiro, que temperou a goela e lascou lá:

      – E agora, vamos nos preparar para apreciar o segundo milagre…!

      – Oooohhhh… Glória a Jesus!

      – Vou fazer um aleijado andar!

      A galera foi à loucura. Mil aplausos. Mil gritos de Alelúia.

      E Assuélio, empolgadíssimo:

      – Aleijadinho, aproxime-se!

      E o coitadinho, com muita dificuldade, caminhou até ele, apoiando-se nas suas muletas. Assim que encostou no malandro, este determinou:

      – Aleijadinho, solte as muletas!

      O pobrezinho jogou fora as referidas.

      – Silêncio generalizado. O vigarista, então, retomou a palavra e deu nova ordem:

      – Fanhozinho, fala!

      E o deficiente vocal:

      – Uhn anlenjandinho cãnhiu!

 

 

Conforme a patroa pediu!

 

     Como sempre fazia nos finais de tarde de sábado, o galego Álvaro Cleto baixou na peixaria do velho Agrício Rodrigues e pediu o de sempre:

     – Me vê aí cinco camurins dos grandes, Agrício!

     O peixeiro abriu o balcão frigorífico, pegou uns peixes, colocou sobre o balcão e disse:

     – Pronto! Aqui tem cinco carapebas das maiores!

     – Mas eu pedi…

     – Camurins, eu entendi. Mas é que sua senhora esteve aqui e disse: “meu marido foi pescar. Quando ele vier comprar pesca, dê carapebas pra ele, porque já estou enjoada de camurins…

 

 

A resposta filosófica do Babá

 

     O saudoso radialista José Bartolomeu, o Babá, foi um bom camarada. A tigo boêmio, ele apreciava bastante emitir um toque filosófico nas suas ponderações.

     Certo domingo, descansava o esqueleto, espichado numa rede, armada no alpendre de casa, quando, de repente, chegou pra ele a caríssima consorte, que reclamou:

     – Ô Babá, você agora não me dá mais presentes como antes do casamento…

     E ele, frio que nem uma pedra de gelo:

     – Ô minha cabrocha, você já ouviu dizer que um pescador continuasse a dar sua isca ao peixe depois de tê-lo pescado?

 

 

Ué, roubaram o cavalo!

 

     Viajando de Viçosa a Maceió, o delegado gente boa José Rangel Ataíde Wanderley deu uma parada em Maribondo para tomar um refrigerante. Assim que desceu de sua caminhoneta à porta de uma lanchonete, quase foi atropelado por um sujeito que saiu disparado de lá de dentro, deu um salto e esparramou-se no chão.

     – Que foi isso, rapaz?! – indagou o delegado – Você foi expulso daí a pontapés ou está doido?

     E o cara, levantando-se e limpando-se todo:

     – Nem uma coisa e nem outra, meu chefe. Eu só queria saber qual foi o fiadaputa que tirou o meu cavalo do lugar!

 

 

Perguntando ao cara certo

 

     Analfabeto e desaforado ao extremo, seu Januário Anfrísio não tem o costume de sair de sua terrinha para andar por aí afora. Mas, um dia, teve de se deslocar da zona rural para ir até o centro de Arapiraca, a fim de resolver um probleminha com o seu IPTU. Aí, perdeu-se no comércio e teve de recorrer a um sujeito todo engravatado:

     – Moço, vosmicê pudia m'insiná adonde qui fica a prefeitura?

     O sujeito apontou para adiante e respondeu com deboche:

     – Alí, ó! Qualquer burro sabe onde fica.

     O velho replicou em cima da bucha:

     – Purísso mêrmo é qui preguntei pra vosmicê!

 

 

Até a mãe do sacristão o padre comeu!

 

     O vigário e o sacristão eram os dois maiores garanhões daquela cidadezinha. Cada um se gabava de ter traçado mais paroquianas que o outro.

     Um dia, pra tirar a limpo, o padre propôs pro sacristão:

     – Domingo, depois da missa, a gente fica na porta da igreja. Cada mulher que a gente já tiver comido, a gente fala “Ave!” quando ela passar, combinado?

     O sacristão topou a parada. No domingo, depois da missa, os dois se plantaram na porta da igreja. Passou a mulher do prefeito.

     – Ave! – disse o padre.

     – Ave! – repetiu o sacristão.

     Passou a mulher do delegado.

     – Ave! – disse um.

     – Ave! – disse o outro.

     Passou a enfermeira do posto de saúde.

     – Ave!

     – Ave!

     Passou toda a mulherada, e os dois só repetindo “Ave!” sem parar

     No final, os dois se entreolharam satisfeitos. O sacristão comentou:

     – É, padre, parece que nesta cidade, tirando a minha mãe e a minha irmã…

     E o reverendo:

     – Ave! Ave!