Ailton Villanova

10 de agosto de 2016

O hematoma do “adêvogado”

     Desde pequeno, Poliedro Mescalino sempre foi um sujeito boçal e, mais ainda, burro ao extremo. Um dia, por uma dessas molecagens do destino, ele conseguiu passar no vestibular para o curso de direito. Aí foi que sua boçalidade triplicou e, logo, ele começou a exigir que as pessoas o chamassem de “doutor”. Doutor Poli.

     Aos trancos e barrancos, Poli conseguiu diplomar-se. Sua primeira causa foi patrocinar a defesa de um sujeito acusado de ter, provocado uma colisão de veículos em Branca de Atalaia.

     Chegou o dia da audiência.

     O juiz da Comarca de Atalaia, Antônio Sapucaia – baixinho invocado que pela sua inteligência, coragem e competência veio a ser desembargador, anos depois -, concedeu a palavra ao advogado Poli a fim de que ele exercitasse o seu ofício de defensor e ele, então, mandou ver:

     – Imagine, excelência, se o carro do meu constituinte tivesse provocado o acidente, como dizem, é claro que não estaria com a porta do seu lado esquerdo todo cheio de hematomas.

     – Hematomas, doutor?! – espantou-se o promotor de justiça.

     – Perfeitamente! A porta esquerda do carro do meu cliente estava cheia de hematomas, conforme se vê aqui nas fotografias!

      Segurando-se para não cair na risada, o promotor tentou consertar o cavalgadura: 

      – Vossa excelência não estaria querendo dizer que na porta em questão existem amassões, é isso?

      – Eu falei bem claro, excelência! Eu falei he-ma-to-mas!

      O promotor insistiu:

      – Ocorre, excelência, que hematoma, palavra originária do grego hemos, que quer dizer sangue, só se aplica em pessoas. Hematoma significa tumor formado por sangue extravasado.

       E o burrão do Poli, querendo impor sua tese:

       – Absolutamente, doutor! Hematoma quer dizer arranhadura e eu não preciso recorrer a nenhuma lingua estrangeira para dizer que estou certo. Tanto faz grego, alemão, latim ou francês… Hematoma é arranhadura e pronto!

       Foi nesse ponto da discussão que o réu interferiu. Quebrando o protocolo, ele se dirigiu-se ao juiz:

       – Excelência, eu posso falar?

       Advinhando o que o réu pretendia dizer, o juiz Sapucaia, que até então se mantinha calado, apreciando o inusitado debate, concedeu a palavra ao solicitante. Então, ele falou:

       – Por favor, excelência, me condene logo!

       – Mas, por que essa pressa? – quis saber o magistrado.

       – Porque se esse meu advogado continuar falando tanta besteira, eu acho que quem vai sair daqui cheio de hematomas é ele!

 

 

“Enfie o defunto no…”

 

     O falecido José Nicomedes, que viveu no bairro do Jaraguá, era fanático por velórios e enterros. Não perdia um! Debaixo do braço carregava sempre um ensebado caderno de anotações, com tudo o que era data de sepultamentos, e até missas do sétimo e do trigésimo dias. Volta e meia estava tirando plantão no IML, para o caso de acompanhar algum féretro. 

     Seu Nicomedes era um caso patológico para estudo profundo.

     Certa manhã, tendo acordado mais cedo, seu Nicomedes se preparava para caminhar na praia quando foi despertado por uma  churumela na casa pegada à sua. Correu até lá e qual não foi a sua satisfação ao constatar que o vizinho, o velho Asdrúbal, havia acabado de bater as botas.

     A partir daquela hora seu Nicomeder não saiu mais da residência do finado vizinho. Aliás, saiu, sim. Saiu, para dar um pulinho em casa, a fim de vestir a sua roupa preta de velório.

     Horas mais tarde, perto da saída do cortejo fúnebre para o cemitério, seu Nicomedes aguardava num canto da sala o toque da viúva para pegar na primeira alça do caixão. Dado o sinal, ele partiu firme, mas foi contido por um sujeito bigodudo, que disse:

     – Sinto muito, meu amigo…

     – Mas o finado era meu vizinho!

     – E daí? Esse lugar é meu! Prometí ao morto que seria o primeiro a pegar na alça do seu caixão!

     Pega! Não pega! Estabeleceu-se a discussão. Quando os dois repararam direitinho, todas as alças da urna funerária estavam ocupadas e o cortejo em movimento.

     Nicomedes se meteu no meio do povo e foi chegando junto do féretro, que era conduzido a pé, com destino ao cemitério do Jaraguá.

      O cortejo seguia lento, soturno, e seu Nicomedes tentando pegar numa alça do féretro, que estava dando sopa. Mais uma vez foi reprimido:

      – Êpa! Larga a mão daí! Nesta alça só quem pega sou eu! – bradou um antigo colega de repartição do “de cujus”.

      Aí, ele reparou num cara que segurava numa das alças de trás que e demonstrava cansaço. Chegou junto, levou outro fora:

      – Negativo, meu amigo! Ele era meu tio. Portanto, faço questão de levá-lo até sua última morada!

      Daí a pouco, tentou no meio:

      – Deixa?

      A resposta:

      – Jamais! Ainda que minhas forças se esgotem, rastejarei até a sepultura segurando esta alça. Asdrúbal era meu irmão mais querido!

      Nicomedes bem que tentou. Deus foi testemunha. Cansou e parou no meio do caminho. As pessoas foram passando e ele ficando. Quando se viu irremediavelmente só no meio do caminho, o cortejo fúnebre bem distante, levantou o braço e gritou:

      – Ei, pessoal!

      Todo mundo olhou para trás e seu Nicomedes disparou:

       – Peguem esse defunto fajuto e enfiem no rabo!

 

 

Agressão com efeito retardado

 

     Quando era delegado de polícia em Arapiraca, o doutor José Rangel Ataíde Wanderley teve um caso inusitado para resolver, envolvendo marido e mulher. O casal era de trabalhadores rurais que, na ocasião, se achavam sentados diante da sobredita autoridade.

      Rangel puxou o assunto:

      – Dona Maria do Carmo, quer dizer que a senhora agrediu o seu  marido na cabeça, utilizando-se de uma mão-de-pilão, só porque ele  ele a chamou de hipopótamo, no ano passado! Por que demorou tanto tempo para agredí-lo?

      E a agressora:

      – É purquê só antonte eu vi pela premêra vêis, esse tá de popóto, no cíuco lá im Paulo Afonso!