Rívison Batista

31 de julho de 2016

'Homo onlines'

O século XXI trouxe à tona uma nova espécie de ser humano: o 'Homo onlines'. Bartolomeu se insere neste novo tipo de hominídeo. Todo dia, logo após acordar, por volta das 7h30, ele dá 'bom dia' a todos por meio de redes sociais. De repente, um amigo puxa conversa: 'Bart, vai ter um encontro da turma naquele bar próximo a sua casa, vamos?”. Bartolomeu visualiza a mensagem, pensa um pouco e diz: “Não vou poder, mas qualquer dia a gente se vê”. Frases do tipo 'qualquer dia a gente se vê' e 'vamos marcar mesmo' são características deste novo tipo de ser humano e, às vezes, elas têm um peso terrível na vida dessas pessoas. Bart, então, sai de casa em direção ao trabalho. Espera o ônibus todo dia no mesmo ponto e, neste lugar quase místico, se depara com outros 'Homo onlines'. Uma moça, com seu smartphone na mão, começa a dar risada de alguma imagem que lhe enviaram. Um ônibus passa e ela não percebe. “Droga! Moço, você viu que ônibus era aquele?”. Bartolomeu responde que não. A moça é bonita e Bartolomeu é solteiro. Ele se identifica com a mulher, mas, infelizmente, ele consegue puxar conversas com estranhos na internet. Ele põe seus óculos escuros, estilo 'Matrix', e pega seu transporte coletivo. A caminho do trabalho, uma pequena integrante da sua espécie tentando tirar uma selfie. A menina, de aproximadamente 10 anos de idade, está na calçada, com um sorvete na mão e apontando a câmera para si mesma repetidas vezes, como se não tivesse gostado das fotos anteriores. O sorvete derrete pelos seus dedos, mas ela quer mostrar ao mundo virtual que estava tomando o sorvete. Talvez este seja um dos males do Homo onlines: querer mostrar a todos que está com um sorvete na mão, quando deveria, simplesmente, saboreá-lo.

No trabalho, Bartolomeu deixa sua rede social online. Na sua linha do tempo, passam as mais diversas postagens: “o mundo acaba nesta quarta-feira”, “um ator famoso acaba de morrer”, “um político famoso disse que o sol girava em torno da Terra”, entre outras coisas hilárias. Porém, para o Homo onlines, tais coisas são tomadas como verdades. Esta é uma das principais diferenças entre o Homo onlines e o Homo sapiens sapiens: não checar a veracidade dos fatos. Reproduzir absurdos. “Nossa, nunca gostei dessa presidente. Eu sabia que ela era burra. Mas dizer que nós vivemos em Marte, que absurdo!”, escreveu Bartolomeu em mais uma postagem na rede social, sem, ao menos, pesquisar se tal notícia tinha algum fundamento. Isto é grave. A ciência ainda não tem resposta se, um dia, o Homo onlines deixará de reproduzir bobagens. Em uma entrevista na TV, um cientista que pesquisa sobre o assunto pegou pesado: “Já dizia Umberto Eco, 'o drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade'. O que diria Darwin dessa evolução?, questionava o pesquisador.

Bartolomeu volta para casa e, no seu quarto, percebe que há uma mensagem na rede social de 'paquera' que participa. No outro dia, vai ao encontro da moça já sabendo do maior obstáculo: ela é Homo sapiens sapiens. Mesmo um pouco tímido, ele consegue conversar por um bom tempo com a moça do outro tipo humano. “Então, nos vemos amanhã novamente?, pergunta a moça, animada. “Não sei, a gente pode ir se falando pelo Facebook, ou Whatsapp, ou Telegram…”, responde Bartolomeu. “Você não gostou de mim?”, pergunta, já desconsolada. “Adorei você, mas eu não vejo muita necessidade de ir a lugares sempre”, diz Bart. “Olha, a gente mora na mesma cidade, não há necessidade de não nos vermos”, fala a moça. Os dois se beijam e mais um relacionamento duvidoso entre duas espécies distintas começa. Tal como 'Eduardo e Mônica ', 'Romeu e Julieta' e outros. A evolução apenas começou, e o Homo onlines, às vezes, se mantém online na internet e off-line na vida real. Procura parecer a pessoa mais feliz e mais sábia do mundo nas redes sociais, mas sofre do mal da solidão e de outros problemas, como todos vivem na realidade. Vivemos nos tempos do 'kkkkkk' digitado com rosto sério.

 

*Rívison Batista é jornalista (e utiliza redes sociais e faz selfies também, porém observa que certos aspectos da modernidade são preocupantes; o texto é apenas um alerta).