Ailton Villanova

30 de julho de 2016

O pai era mesmo outro!

     Em que pese adepta da igreja Católica, dona Eufranásia sempre foi chegada a um terreirinho de macumba, desde que passou a “se entender por gente”. Nos últimos tempos, incrementou ainda mais os seus comparecimentos ao congá do babalorixá Aluribaldo dos Santos, o notório Pai Lula, por achar que, neste mundo, o referido é o mais  competente no barato macumbal. Ela teve a maior e definitiva prova disso.

      Bom.

      A grande preocupação de dona Eufranásia era o filho Adenósio, que, desde muito cedo, começou a atender, também, pelo vulgo de “Bacuráu”. Esse cara tinha um defeito terrível: não queria saber de estudar e nem de trabalhar. A mãe havia feito de tudo para tirá-lo da malandragem. Sem sucesso. Até que o galego Álvaro Cleto, lhe deu a dica:

     – Por que a senhora não leva esse rapaz ao nosso querido Pai Lula. Garanto que dará um jeito nele!

     Os olhos da madame brilharam:

     – É mesmo, seu Álvaro? Deus seja louvado!

     – Leve ele lá, o mais depressa possível!

     Depois de mais de quinze dias de luta tentando convencer o filho, dona Eufranásia conseguiu arrastá-lo até o terreiro do babalorixá.

     Chegaram lá, encontraram Pai Lula todo paramentado, esparramado num cadeirão de balanço, todo enfeitado de flores. De  olhos fechados, o babalorixá passava a impressão de estar cochilando. Daí a pouco, liberou um profundo suspiro, arregalou o olhão, estalou a língua e liberou uma risadinha marota. Estava “manifestado”. Nele acabara de “baixar” o “espírito” nordestino-baiano de orígem africana intitulado “Véio Migué”.

     – Ê, ê, ê! Se achegue mê zifí… – falou meio engrolado, encarando o malandro.

     Cismado, Bacuráu aproximou-se de Véio Migué, que chamou na grande:

     – Mê zifí num gosta de trabaiá, num é?

     E o Bacuráu:

     – É que não encontro jeito…

     – Si trata de um pobreminha isprituá, num sabe? Mas isso vai sê cunsertado daqui a uma sumana mai ô mêno…

     – Vai mesmo?

     – Vai. Uqui tá intrapaiando é o guia do seu pai… É isprito cavernoso, intende zifí? Cunheço a peça!

     – Conhece?

     – Cunheço. Si aperrêie não, qui eu vô botá pra quebrá im cima dele!

     – Daqui a uma semana?

     – Isso, mê zifí. É só isperá qui o seu pai assente os cabelo!

     – Meu pai?

     – É. Ele vai morrê daqui a uma sumana!

     Foi nesse ponto da conversa que o Bacuráu caiu na gargalhada. Em seguida, virou-se para a mãe e disparou:

     – Eu não falei, mãe? Eu não falei pra senhora que esse negócio de pai-de-santo é a maior enrolada?

     Aí, Pai Lula, quer dizer, o “espírito” Véio Migué, invocou-se com o malandro:

     – Tá duvidando d'eu? Num acridita qui o seu pai vai morrê?

     Bacurau foi desrespeitoso e irônico ainda mais:

     – Acredito porra nenhuma! A não ser que ele ressucite. Faz cinco anos que ele tá enterrado no cemitério, meu chapa!

     – Êpa! Êpa lá! Aquele qui morreu e tá interrado no sumitéro foi o marido da sua mãe. Seu pai é ôtro, e tá vivinho. É o mecânico Agagenô, aquele qui mora na isquina da sua rua!

     Justo uma semana depois, o infeliz do mecânico Agagenor esticou as canelas. Consequência de violento infarto.

 

 

Os assassinos de Tiradentes

 

     Cabo Arédio era um sujeito barrigudo e bigodudo que viveu no sertão alagoano, nos idos de 1917. Destemido, não abria parada nem para o trem.

     Arédio era mais grosso do que papel de enrolar prego. Nunca frequentou uma escola, mas era cabo da briosa Polícia Militar, destacado na região de Santana do Ipanema.

     Certa manhã, ele entrou no gabinete do delegado Agajoel Delfino Monteiro e o encontrou com ar preocupado. Não se conteve e  indagou da autoridade:

     – Qui cara de aperrêio é essa, seu Gajoé?

     E o delegado, disfarçando:

     – Tô aperreado não, cabo…

     – Tá. Tá, sim. Pelo seu olhinho, tô vendo que tá, sim. Eu lhe cunheço. Me diga logo quá é o mutivo desse disadôro, hôme!

     Agajoel Delfino então se abriu:

     – É que minha filha me pediu pra ajudá-la num trabalho de dissertação sobre a morte de Tiradentes, recomendado pela professora de História do Brasil!

     – E esse tá de Tiradente morreu do quê, seu Gajoé?

     – Você não conhece a história de Tiradentes?

     – Pur fé de Deus cuma num cunhêço!

     Tiradentes era um militar, colega seu… tenente da polícia, que foi assassinado. Morte terrível! Mataram o coitado e ainda o esquartejaram!

     Cabo Arédio revoltou-se:

     – Num me diga qui esses covardo fizéro uma disgraça dessa cum o meu superiô!

     – Pois fizeram!

     – E esses criminôso bandido 'tão preso adonde?

     – Nenhum foi preso, porque…

     Arédio não quis escutar mais nada. Deu meia-volta e saiu pisando firme da sala do delegado. Uma hora depois estava de volta, todo empoeirado e suando mais do que tampa de chaleira. Bateu continência e sapecou:

     – Pronto, seu Gajoé! Prendi todos os suspeito qui incrontei pelaí! Inté agora os safado tão negando qui matáro o tenente Tiradente. Mas deixe cumigo qui adispôis qui eu butá um pur um no pau-de-arara, eles vão confessá inté qui matáro Jesúis Cristo!

 

 

Um inusitado plano de fuga

 

     Meliante perigoso, conhecido por sua habilidade em fugir de prisões, Gelatino Possidônio, vulgo “Osso de Gôgo” foi mandado para cumprir pena na antiga Cadeia Pública de Marechal Deodoro tida e havida como a mais segura do estado. Poucos dias depois, teve uma infecção na boca e foi preciso que lhe extraissem todos os dentes. Mais duas semanas, uma apendicite aguda: arrancaram-lhe o apêndice. Não demorou muito, ele sofreu um acidente grave quando executava um serviço na oficina da cadeia: amputaram-lhe um braço.

     Osso de Gôgo convalescia dessa cirurgia, quando sofreu outro acidente: deu uma topada num dos batentes da cela, a unha do pé inflamou e, dias mais tarde, gangrenou. Cortaram-lhe o pé. A essa altura, o sargento PM Elpídio delegado de polícia da cidade, que acumulava a função com o cargo de chefe da cadeia, não conseguiu conter a sua desconfiança, mandou chamar o preso ao seu gabinete e deu o recado:

      – Olhe aqui, seu cabra! Não pense que vai me enganar. Eu já descobri o seu plano secreto: você tá planejando fugir da prisão aos tiquinhos, não é?