Ailton Villanova

28 de julho de 2016

Mas que pai inconveniente, hein?

Com Diego Villanova

  

     Comecinho de tarde de um sábado de verão, o restaurante chique superlotado, e o garçom Gelásio Poliedro, atarefadíssimo, ziguezagueava entre mesas, equilibrando na palma da mão uma bandeja cheia de pratos sofisticados. De repente, eis que invade o ambiente um velhote bigodudo pra lá de biritado. Ele para no meio do salão, dá uma temperada na goela e grita pro garçom:

     – Ô Gelásio!

     E o garçom:

     – Quié? Tô ocupado!

     O bebaço então dispara:

     – Tô vindo da casa da sua mãe!  Eu tava na cama com ela!

     Mal-estar no ambiente. O garçom ignora a provocação e continua atendendo a grafinada.

     Ao passar novamente pelo bêbado, Gelásio escutou nova provocação:

     – A veínha ainda tá gostosa pra cacete! Mandei a vara nela sem dó e nem piedade. Ela adorou!

     Roxo de vergonha, o garçom finge, mais uma vez, que não ouve nada, mas os distintos clientes do restaurante escutam muito bem e ficam horrorizados.

     Não demorou muito, lá volta o Gelásio equilibrando em nova bandeja uma garrafa de uísque e um prato de tira-gosto de camarão. O velho não faz por menos:

     – Quer saber mais, Gelásio?

     – Por favor…

     – Hoje à noite eu vou comê-la novamente!

     O cara tinha passado dos limites. Até que, não suportando a inconveniência do bêbado, um freguês chamou o garçom e lhe disse discretamente:

      – Você precisa dar um jeito nesse velho, rapaz! Ele está deixando todo mundo constrangido. Se você não tomar uma providência, quem vai lá sou eu!

      – Pode deixar, doutor. Eu vou falar com ele!

      Dito isto, Gelásio aproximou-se do inconveniente e falou com energia:

     – Pai, é melhor o senhor ir pra casa! Já tem gente reclamando!

 

 

Pegou o ônibus errado!

 

     O coletivo parou num dos pontos de passageiros da Rua do Sol e aí subiu, pela traseira, um sujeito pra lá de biritado. Inconveniente até dizer basta, ele saiu empurrando todo mundo, tentando chegar mais pra frente. Na primeira freada brusca imprimida pelo motorista, ele caiu em cima de uma velhota, que lia uma exemplar da Bíblia. A passageira exaltou-se:

     – O que é isso, meu senhor?

     E o cara, liberando o maior bafo de cana:

     – “Que é isso” o quê? Eu simplesmente caí, num tá vendo?

     A vetusta entronchou a cara:

     – Hummmm… Eita fedor de cachaça! Talvez o senhor não saiba, mas está no caminho do inferno!

    E o bebão, apavorado, puxando a cordinha da campanhia:

    – Êpa! Para aí, motorista! Para, que eu peguei o ônibus errado!

 

 

O cunhado de Satanás 

 

     Por sugestão do galego Álvaro Cleto, o gráfico João Elpídio compareceu ao terreiro do babalorixá intitulado Pai Lulu, para uma “consulta espiritual”.

     Começou a sessão e, não demorou muito, baixou lá um tal de “espirito” afirmando que era o próprio Satanás. Foi aquele fuzuê! A negrada presente no terreiro de Pai Lulu se mandou do local, inclusive o próprio, pai-de-santo. Só ficou mesmo o corajoso João Elpídio.

     Surpreso, Satanás indagou ao gráfico:

     – Comequié, cara? Você não tem medo de mim?

     Aí, João Elpídio resolveu tirar um sarro com a cara de Satanás:

    – Claro que não, pô! Eu fui casado 40 anos com uma de suas irmãs!

 

 

Oportuna saída do causídico

 

     Advogado conhecidíssimo foi contratado para cuidar do divórcio litigioso impetrado por uma madame chamada Ariosta, loura sensacional, com tudo nos devidos lugares. E, como não poderia  deixar de ser, apaixonou-se perdidamente pela cliente. Cadê que conseguia tirá-la da cabeça!

     Num certo final de noite, dormindo a sono solto, ele começou a murmurar:

     – Ariosta… Ariosta, meu amor, eu não posso viver sem você… Vou me divorciar também pra gente se casar!

     De repente, ele se acordou e viu que a esposa estava de olho, com cara de poucos amigos. Mais que depressa, tentou disfarçar:

     – Meritíssimo, eu protesto! Exijo que o amante da senhora Ariosta seja retirado deste tribunal!

 

 

Só faltou a estante!

 

     O Epistatlo pegou o 13° salário antecipado e entendeu de fazer uma viagem, na companhia da esposa Mesopotâmia, que é chegada a um exagero. Ele foi a uma agência de viagens, comprou um pacote turístico e, dia seguinte, ele e a mulher  encontravam-se no aeroporto, de onde voariam à Roma.

     Na fila do check-in, madame ainda tentava arrumar um monte de malas e pacotes no carrinho de bagagens. O marido só de olho. Na hora de subirem no avião com aquela enorme carga, Epistatlo olhou para Mesopotâmia e disse:

     – Ô filha, já que você trouxe tanta coisa, por que não pegou também a estante da sala?

     Aí a madame se mordeu:?

     – Brincadeira tem hora, viu seu palhaço? Tá querendo tirar onda com a minha cara?

     E ele:

     – Não é nada disso não, meu amor. É que esqueci as passagens justo na estante da sala!

 

 

Matuto bem prevenido

 

     Velhos amigos e compadres, os matutos José Inocêncio e Pedro Inácio combinaram uma pescaria para um final de semana. No sábado acertado, eles se encontraram e Zé Inocêncio foi logo perguntando:

     – Cumpade Ináço, pra dondeAa qui vosmicê tá levando essas sacolas?

     E Pedro Inácio:

     – É qui tô levando uma cachacinha, num sabe?

     – Cachaça, cumpáde?! E nós num tinha combinado qui num ía bebê nunca mais?

     – É verdade, cumpade Nocênço… Mas é qui pode aparicê, de repente, uma cobra e picá nóis. Aí, nóis disinfeta cum a cachaça e toma uns grogue pra mode num sintí dô.

     – Bom, sendo assim… E na ôtra sacola, uquié qui o cumpáde tá levando?

     – A cobra, quié pro causo de lá num aparicê ninhuma!