Rívison Batista

23 de julho de 2016

A poesia no fim do mundo (ou Passos de um guerreiro sem rumo)

Num futuro próximo, um soldado ferido busca abrigo para se proteger da chuva ácida. Ele entra em uma das poucas casas que ficou de pé, porém, nada salvou a residência de parecer uma peneira vista à certa distância por causa das balas de todos os calibres que atingiram cada pedaço. Um país reduzido a pó. Um mundo que entrou em guerra pela terceira vez por dinheiro, territórios e algum rancor religioso. Ele se deita no chão da sala e olha para cima. O silêncio é interrompido constantemente por drones à procura de sobreviventes. Tais máquinas têm uma única missão: matar. Então ele acha mais seguro ir para um dos quartos. “Sobrevivi ao fim do mundo, não é um brinquedo que voa que vai me matar”, pensava. Deitou no chão do quarto, estava mais cansado do que ferido. O cômodo estava vazio, não fosse por um pedaço de papel em um dos cantos da parede. Abriu a folha amassada e leu o seguinte:

Vivemos aguardando uma mudança. Algo novo que nos arranque das cadeiras, dos sofás. Uma mudança que altere nossa visão de mundo e que, ao mesmo tempo, salve nosso mundo. Vivemos esperando algo que nos tire da rotina e nos mostre o absurdo. Vivemos na ânsia de algo novo fazer o ser humano deixar de ser surdo e cego. No almoço ou no jantar, na riqueza ou na pobreza, alimentamos apenas nosso próprio ego. Talvez seja por isso que nossas incertezas crescem junto com os medos, pois sozinhos não somos muita coisa. Somos peixes sem cardumes, aves sem bando, leões sem força. Alimentar o ego e se esquecer do próximo é como nadar em direção ao oceano. No começo é bonito e prazeroso, mas depois nos afogamos. Queremos mudar o mundo, mas depois dos 30 anos queremos mesmo é um emprego fixo. Esquecemos a falta de nexo da adolescência e achamos normal ignorar o desabrigado. Achamos comum uma pessoa pobre pegando comida no lixo. Porque tudo que queremos agora é sustentar nossos filhos, sendo que os filhos dos outros incomodam. Os filhos dos outros não tiveram educação. E a falta de bom senso faz tudo parecer bonito. Vivemos esperando uma mudança que sufoque a bomba atômica, quebre os muros da imigração, quebre a corrente do preconceito e desfaça o ódio na religião”. 

Ao terminar de ler o texto-poema, dobrou o papel cuidadosamente e o guardou no bolso, como se fosse o documento mais importante da humanidade. 

20 anos antes, uma jovem mulher naquele mesmo quarto presenciava o drama que o mundo estava inserido. Algo que, para ela e para qualquer um, não tinha volta. Atentados matavam duas mil pessoas. Guerras matavam dois milhões. O conflito tomou proporções globais e ela precisou ir embora. Mas antes rabiscou aquele texto e, assustada com um tiroteio, o esqueceu no chão do quarto. Se o soldado sobreviver, talvez, um dia, o texto se torne parte da lei vigente em um mundo renascido das cinzas.

 

*Rívison Batista é jornalista (obs.: a foto acima é da Reuters e mostra a destruição na cidade de Aleppo, na Síria)