Ailton Villanova

16 de julho de 2016

O DEFUNTO PERFUMADO

     Em geral, as mulheres preferem conversar sobre um problema antes de ouvir uma solução. Na verdade, às vezes simplesmente papeando com a pessoa que julga ser conveniente ela encontra uma resposta decisória, satisfatória, para um dilema que a preocupa . Mas, para a curvilínea Altamira Maria – Mirinha, para os íntimos -, o efeito de uma conversa aconselhatória que havia acertado com o vizinho Antiógenes Pinto – ou por falta de sorte, ou por azar mesmo -, resultou num desfecho infeliz. Ela, coitada, nem teve tempo de usufruir do conselho que seu vizinho Antiógenes Pinto, prometera alojar nos seus distintos ouvidos, em conversa sigilosa na penumbra do quarto de dormir.

 

      Altamira, Mirinha para os mais chegados, era tentadoramente atraente. Despertava desejo até em frade franciscano ortodoxo. Quando ela desfilava sua pessoa pelas ruas da cidade, o remelexo era tanto que passava a impressão sua bunda linda, deleitosamente volumosa, despencaria a qualquer momento. Seu corpo – ah! o seu corpo! – certamente fora projetado no maior capricho, no dia em que Deus esteve na melhor das suas inspirações.

 

      Antiógenes, o vizinho, era um sujeito fortão, cara de Elvis Presley, e musculatura de Arnold Schwarzzeneager. Usava um bigode do tipo Errol Flynn, finado ator holywoodiano que costumava arrancar suspiros das fãs espalhadas pelo mundo inteiro. Safadão, ele comia a Mirinha com os olhos, mas sempre alimentando o sonho de tê-la um dia em seus braços. Um detalhe, porém, o impedia de avançar o sinal: Mirinha era casada. Seu marido, o perfumista Jacintho Ignácio Abreu, o “Jajá do Cheiro”, tinha o dobro da sua idade e a fama de brabo, apesar da estatura de jogador de baralho. Não largava um “pau-de-fogo”. Sempre o carregava preso no cós das calças. Todo mundo sabia disso, inclusive o delegado Carlomano de Gusmão Miranda, de quem era amigo do peito.

 

      Jajá do Cheiro era um cara dedicadíssimo ao trabalho. Vivia enfurnado na loja onde comercializava e produzia os seus perfumes, cada um mais cheiroso que o outro. Mas, Jajá do Cheiro se orgulhava mesmo era daquela que considerava uma das suas melhores produções, justo a que dedicara à amada esposa: o extrato “Já Sinto o Cheiro do Luar” – um título estúpido, verdadeiro um insulto à formosura da mulher. Claro que Mirinha se sentia incomodada com a homenagem. Um dia, ela manifestou o seu desagrado:

     – Sabe, Jacintho, eu não gosto do título desse perfume!…

     – Não gosta? Como não sgosta, meu amor? É lindo! – rebateu o marido.

     – Eu não acho! – sustentou Mirinha – Acho esse título horrível!

 

    Jajá do Cheiro acabrunhou-se:

    – Nesse caso, desisto de ser perfumista. Não agrado nem a minha mulher!

    E ela:

    – Não exagere! O perfume é bom… Gosto da fragrância… Agora, esse nome “Já Sinto o Cheiro do Luar”… acho ridículo!

 

     De tantos desgosto e preocupação, o infeliz do Jacintho Ignácio não dormiu naquela noite. Dia seguinte, bem cedinho, trancou-se no laboratório da perfumaria, localizado a poucos metros de sua casa, e lascou o pau na produção de um novo perfume, apostando com ele próprio que a amada Mirinha iria se orgulhar da novidade.

 

       – Alô, meu amor! – berrou ele, eufórico, no bocal do aparelho telefônico.

       E Mirinha, bocejando, tentando acomodar o corpo espetacular, dentro de uma camisola sensualíssima:

       – O que é? Tô acabando de me acordar!

       – Tô aqui no laboratório! Acabei de criar um novo perfume! Cheiroso demais, meu amor! Olha, aquele outro perto desse aqui, pode ser comprado a mijo de bode. Ah, ah, ah… 

       – Ah?, é? Então, tá!

       – Escute… esse perfume é exclusivo, viu? É somente seu. Já tenho, até, um nome pra ele…

       – Tem? E como é?

       Jajá inflou e mandou:

       – “Buquê de Amor ‘Jacintho’”! Não é lindo?

       Indignada, Mirinha bateu o telefone. O marido não voltou pra casa, sob a alegação de que tinha uma viagem “pra perto”, mandou levar um tonel cheio da nova loção que, por sua expressiva recomendação, foi colocado no quarto de dormir do casal. Seria uma surpresa para a madame. Mirinha havia saído “para espairecer”.

 

       No final da tarde, ao voltar pra casa, madame Mirinha deu de cara com o vizinho Antiógenes, cujo sorrido se abriu de orelha a orelha.

        – Como vai a linda e charmosa senhora? – cumprimentou melífluo.

        Ela respondeu, algo desanimada:

        – Vou bem, mas um pouco chateada…

        – Mas o que a fez ficar desse jeito?

        – Meu marido… Ele não entende os meus sentimentos, não respeita as minhas vontades… Às vezes, não tenho nem com quem desabafar! Pra mim, uma simples conversa já me ajuda…

 

         Aí, Antiógenes, muito do sacana, viu naquele momento de fragilidade da mulher, a grande oportunidade de consumar o seu sonho bestial de comê-la. Seria “agora, ou nunca mais”! Aí, sapecou o verbo:

         – Ah, mas não faça cerimônia, minha querida. Aqui tem um ombro amigo. Quer desabafar agora? Sou todo ouvidos! Mas tem uma coisa: um assunto tão delicado desse, só pode ser tratado entre quatro paredes…

 

        Mirinha vacilou. Entretanto, necessitada de um sustentáculo, de um esteio, numa hora em que se sentia tão desconfortavelmente desamparada, aceitou a ideia do vizinho safado:

         – Está certo. Vai ser por poucos minutos. Eu não quero tomar muito o seu tempo.

         – Toma nada! Vamos pro meu quarto, vamos! – rebateu o sujeito, visivelmente excitado.

         – Não! É melhor no meu, porque eu fico mais à vontade. Meu marido está viajando… 

         – Vamos, vamos, vamos…

         Foram. Não deviam ter ido, mas foram.

 

         Mal entraram nos aposentos do casal, uma buzina de carro estridulou lá fora. Mirinha bradou, assustada:

         – Ai, meu Deus! Meu marido chegou! E ele tem um revólver!

         Encarando o assustadíssimo atleta, ela ordenou:

         – Depressa, Antiógenes! Entre nesse barril… ôxi, barril?!… é, entre nesse barril aí do canto, e fique escondido!

         Assim que o mal intencionado “conselheiro” mergulhou no barril, o cheiro forte de perfume tomou conta do ambiente. Ligeirinho, ele morreu asfixiado, cheirando e bebendo perfume.

 

          Acontece que a buzina que tocara lá fora, não fora a do carro do Jajá. Fora a buzina do automóvel de um amigo do próprio Antiógenes. Seu enterro, dia seguinte, foi exaltado pela imprensa, rádio e televisão, como o mais cheiroso de que se tem notícia neste mundo.

 

             O defunto estava perfumado demais!