Ailton Villanova

13 de julho de 2016

ERAM APENAS CANGACEIROS!

     Ele morava no Alto Sertão das Alagoas, um pouco mais pra dentro de Delmiro Gouveia e tinha a fama de sovina. Seu Juvêncio Batista era um velhinho mirradinho da cara ossuda, fundilho de mochila e olhinhos bem vivinhos. Possuía uma mercearia bem sortida, cujos produtos ele comercializava pelos olhos da cara, apesar de jamais ter pago um único centavo de imposto ao Governo. Seu Batista era o rei da sonegação. Montados

     Bela manhã, sol lascando o cano, eis que riscam na porta do estabelecimento comercial de Juvêncio Batista dois sujeitos montados em seus cavalos. Usavam roupas de pano grosso, tinham chapéus de couro enfiados na cabeça, cartucheiras cruzadas no peito e carregavam rifles. O mais baixinho dos dois, que usava óculos de aros dourados e tinha um olho cego, adiantou-se, encarou o dono da bodega e ordenou, cheio de arrogância: 

     – Ô véio fidaégua, botaí duas cachaças!

     Tremendo mais do que vara verde, seu Batista atendeu. Os dois engoliram a bebida quase ao mesmo tempo e estalaram a íngua no céu da boca.

     – Agora, bota trêis! Uma é pra vosmicê bebê cum nóis! – determinou o baixinho de óculos.

      – Pur favô, dotô, eu num bebo! Sofro do figo, num sabe? –desculpou-se o vendeiro.

       E, o baixinho, alisando o cabo da arma:

       – Bebe qui tô mandando!

       – Pelamordedeus, seu dotô!

       – Bebe, cabra!

       Não houve jeito. Juvêncio Batista engoliu a cachaça de uma só vez. Depois de quatro rodadas, ele ainda continuava trêmulo.

          Acabada a oitavaVosmicê sabe rodada, o baixinho de óculos perguntou:

          – Vosmicê sabe cum quem tá bebendo?

          – Seio não sinhô, seu dotô. – respondeu Juvêncio Batista, ainda tremendo em cima do solado dos pés.

          – Pois fique sabendo qui tá bebendo cum o capitão Virgulino Ferrêra e cum o cabra da peste chamado Curisco!

          O velho arregalou os olhos:

          – Puracauso vosmicê é o cangacêro Lampião?

          – Im carne e osso! Hai argum pobrêma?

          Nesse momento, aconteceu a reviravolta. De trêmulo, quase se cagando de medo, seu Juvêncio, surpreendentemente  passou a agir como o demônio do terceiro livro: deu garra de um cabo de vassoura e saiu distribuindo porradas no lombo de Lampião e do seu capanga. Enquanto batia nos dois cangaceiros, ele bradava a plenos pulmões:

           – Fora daqui, dois cabra seveigônho! E eu pensando qui vosmicês dois era fiscá do gunverno!

 

MORTO, SEM DÚVIDA!

     Padre Marcelo Villanova, filho de minha irmã Anilza, e, portanto, meu sobrinho, é um tremendo gozador. Quando não está empenhado nos seus ofícios sacerdotais, ele está contando piadas para a galera do Recreio dos Bandeirantes, no Rio, onde é pároco.

      Foi ele quem me passou esta que vai papeada abaixo.

      Naquele tempo, depois de ter ressuscitado Lázaro, Jesus foi convocado para repetir a mesma façanha noutro cemitério, dois dias depois.

       O Grande Mestre se aproximou da tumba do infeliz e flou com energia:

       – Levanta-te e anda, Matias! Vamos, Matias, anda!

       E nada. Jesus gritou mais uma vez. Outra mais. Cinco vezes… e o Matias lá, mortão, dentro da tumba.

      Então, se virou para a multidão e disse, desolado:

    – É, não tem jeito. Ele morreu mesmo!  

 

MARIDO MARAVILHA

     Na família do “major” Rubião Pacheco uma tradição vinha sendo rigorosamente observada desde 1890: mulher que enviuvasse antes dos 30 anos tinha que se casar novamente até completar 40, para não se tornar falada. Belo dia, sua neta Margarida Maria, ficou viúva ao completar 27 anos. Na ocasião, ela se achava na cama, numa transa incrementadíssima, comemorando o aniversário com o marido, Tito Bernardino. Quando o casal estava atingindo o auge do ato carnal, o marido começou a gemer e a revirar os olhos. Não demorou muito, esticou as canelas.

       Uma semana depois da celebração da missa do sétimo dia, major Rubião chamou a neta num canto e falou:

       – Vosmicê vai tê de casá dinovo, minha fia. É a tradição familiá!

       E a viuvinha, num breve soluço:

       – Mas casar com quem, vô? Homem aqui é difícil!

       – Si preocupe não, qui eu mando buscá um marido novo pra vosmicê…   

       Mais outra semana, o candidato a suprir a lacuna no leito conjugal da  bela Margarida, moça muito educada e erudita, foi escolhido pelo líder do clã: justamente o açougueiro Antônio Argolo, um ancestral do coronel de verdade e doutor em direito Gerson Argolo de Melo.

        Após o casório, que ocorreu na fazenda do major Rubião, o marido, cuja fama era a de garanhão, em que pese a feiura e pouca cultura, comentou, baixinho, para a mulher:

       – Minha mãe sempre disse que a gente tem que fazer sexo antes de dormir, no meio da madrugada e de manhã bem cedinho.

       E o pau comeu até de manhã.

       Barriga cheia, mão lavada, dentes palitados, o marido chamou a esposinha num canto e falou ao seu ouvido:

       – Vamos para a cama, novamente. Conforme ensinou o meu pai, o marido tem que fazer sexo antes de sair para o trabalho.

       – E é? Então vamos! – animou-se a ex-viúva.

       Antes do almoço, outra ferrada. Depois do dito cujo, idem. À noite, nem é bom falar. 

        No domingo seguinte, o velho foi visitar a neta querida. Encontrou-a toda contente. Então, cheio de curiosidade, perguntou:

        – Que tal o novo marido, minha netinha?  

        E ela, com os olhos brilhando de felicidade:

        – Bom, vô, intelectual ele não é, mas tem um pai e uma mãe maravilhosos!