Ailton Villanova

5 de julho de 2016

Corredor prevenido

     Bonitoso (mistura de bonito com pintoso), cheio de músculos, cabeleira à moda Elvis Presley, o Ospernábulo Otélio era um paquerador contumaz. Vestisse saia, pintasse no seu terreiro sem acompanhamento machesco, ele atacava sem o menor constrangimento, na base da melifluidade. O cara era o fino nesse barato.

    Além dos qualificativos acima citados, Ospernábulo tinha mais uma vantagem sobre a esmagadora maioria dos seus congêneres: era campeão de tudo quanto era tipo de corrida movida à canelas.

     Certa manhã, caminhando na orla ele bateu o olho na figura de uma morena curvilínea e lindíssima, e logo pensou: “Essa o papaizinho aqui vai faturar!” E partiu firme pra cima da criatura. Nem precisou gastar muita saliva: meia horinha de cantada foi o suficiente para convencer a gostosura aceitar uma noitada de amor no melhor estilo horizontalino.

     Voltaram a se encontrar à noite, cujas estrelas sumiram do firmamento, dando lugar a nuvens turvas, chuvosas, boas para o xumbrego no quentinho edredônico.

      Entre sussurros, gemidos e suspiros, os dois rolavam na cama. Veio a madrugada e, finalmente, a luz do dia. Os amantes ainda se encontravam em êxtase quando escutaram passos no corredor.

      – É o meu marido! – alarmou-se a mulher.

      – Seu marido???!!!

      – É! Depressa! Pegue as suas roupas e pule pela janela!

      – Mas tá chovendo, meu amor!

      – Pula, vai!

      Não teve outro jeito. Ospernábulo Otélio lançou-se do terceiro andar do prédio de apartamentos e caiu na rua, justo na hora em que se realizava uma corrida de pedestres. Caiu no meio dos corredores, segurando as roupas que não tivera tempo de vestir. Já que estava no embalo, ele que era um autêntico atleta, aproveitou o embalo, peladão como nasceu. Todo mundo olhando espantado pra ele. Um dos corredores não se conteve:

      – Ô cara, você sempre corre assim, nuzão?

      E ele:

      – Corro! É tão bom ter a sensação de liberdade!

      – E você sempre corre também carregando suas roupas?

      E Ospernábulo – o troço balançando, lept! lept!, sem se dar por vencido:

      – Eu gosto assim. Posso me vestir no fim da corrida. Depois, pego o carro e me mando casa…

      – E essa camisinha aí no biláu? Você sempre coloca uma camisinha quando corre?

      – Só quando está chovendo!

 

 

A mulher e os seus amigos

 

     No forum, o juiz Josaphat Santana entrevistava um casal em litígio.

     – Por que o senhor está querendo o divórcio, seu Ptolomeu? – perguntou o magistrado ao marido.

     E o infeliz:

     – Excelência, essa mulher é muito preguiçosa… é uma péssima dona de casa. Estou cheio de ver nossa cama cheia de parasitas!

     O juiz ponderou:

     – Isso não me parece ser motivo suficiente para o divórcio, seu Plínio!

     E, virando-se para a mulher, o magistrado indagou:

     – E a senhora, o que tem a dizer?

     E ela:

     – Seu juiz, esse meu marido é um ordinário! O senhor não ouviu como ele chamou os meus amigos?

 

 

Bêbado novato no pedaço

 

      Depois de uma bruta farra na Vila Brejal, os amigos Bertulíbio Xerém e Nauseabúlio Antrúcio caminhavam abraçados pelas tortuosas ruas do pedaço quando, em dado momento, o primeiro apontou para uma poça d'água e disse:

     – Olha a Lua, meu!

     Nauseabúlio respondeu contestando:

     – Ô cara, isso que tá refletido na água não é a Lua. É o Sol, tá ligado?

     – É a Lua!

     – É o Sol!

     – Tô te falando que é a Lua, porra!

     Nisso, vai passando um terceiro sujeito mais embriagado ainda. Então, Nauseabúlio o abordou:

     – Dá licença companheiro? Faça o favor de olhar nessa poça d'água e diga pra nós se isso é a Lua ou é o Sol!

     E o cara:

     – Vocês me desculpem, mas não posso responder. Sou novato por aqui!

 

 

Sorveteiro assassino

 

     Muito triste e abatido com a morte do avô Nicolino, de 92 anos, o jovem Eutíquio Bicalho dirigiu-se à casa da avó para apresentar-lhe os pêsames.

     – Como foi que o vovô morreu, hein vovó? – quis saber o neto.

     E a vetusta, com aquele olhar saudoso e lânguido:

     – Ah, meu netinho, ele morreu fazendo amor comigo!

     Impressionado, o jovem Eutíquio comentou que as pessoas com mais de 90 anos não deveriam mais fazer amor, e completou:

     – Fazer amor nessa idade, vovó, é muito perigoso!

     A velhusca tentou se justificar:

     – A gente só fazia amor aos domingos e com muita calma, netinho! Era acompanhando o compasso das badaladas do sino da igreja…

     Ela respirou fundo e completou:

     – Era “ding” para botar e “dong” para tirar. E se não fosse o filho da puta do sorveteiro passar bem na hora, com seu sininho – “ding”, “ding”, “ding”, “ding”… – seu avô ainda estaria vivo!

 

 

Nenhuma delas escapou!

 

     Recém-designado pela arquidiocese, padre Oberaldo chegou animadão à sua nova paróquia, no interior, mas foi logo advertido pelo sacristão José Francisco:

     – Olha, padre, não sei se o senhor é do tipo conservador, mas eu já vou avisando: esta cidade é uma sacanagem só! Uma pouca vergonha! Todo mundo chifra todo mundo!

     – Eu não acredito! – reagiu o reverendo.

     – Pois acredite, padre.

     – Não é possível que aqui não exista gente virtuosa! Tem que existir!

     – Uma ova! As garotas começam desde cedo a botar pra quebrar! Trepam com a mão na cabeça pra não perderem o juízo! Não se salva ninguém!

     – Pois eu vou provar que pelo menos uma boa alma tem que haver aqui!

     Passou-se a semana, chegou o domingo, dia da primeira missa do padre Oberaldo. Na hora do sermão, o reverendo começou a preparar os fiéis para o que pretendia mais adiante. Começou explicando que mentir na casa de Deus “é um pecado inominável”. Em seguida, lançou o répto:

     – Quem aqui já traiu, fique de pé!

     Imediatamente a igreja toda se pôs de pé. Chocado, o padre começou a percorrer a platéia com os olhos, em busca de pelo menos uma alma virtuosa. Foi quando reparou numa mocinha bonitinha, toda comportadinha, sentadinha no seu canto.

     Animado, padre Oberaldo puxou o fôlego para elogiar a garota  quando o sacristão o cutucou com o cotovê-lo:

     – Não se empolgue não, padre. Essa aí é a “Mara Mouquinha”, a maior puta da cidade!

 

 

E se a fome aumenta?.

 

     O gráfico Álvaro Cleto, irreverente ao extremo, hoje em dia anda mais comportado do que frade franciscano. Garante o Deninson Petronilho, seu antigo parceiro de boemia, que o motivo de tão radical mudança “é a dona encrenca”, que resolveu colocá-lo nos eixos.

      Em decorrência dessa metamorfose, o galego é frequentador assíduo das missas da paróquia onde está inserido. Dia desses, quando saía da igreja, onde fora dar um “alô” pro padre, ele deu de cara com um mendigo, rezando em voz alta:

      – Ô meu Deus! Por favor, tenha piedade deste seu filho! Me ajude! Deixe pelo menos eu ficar com a fome que que tenho!

      O galego estranhou o pedido do esmolante e perguntou o que significava aquilo. O cara explicou:

     – Ora, o senhor a pensou se a fome aumenta? Tô fudido!