Ailton Villanova

5 de julho de 2016

A “BR” do “doutor” Ascendino

     Grande músico e fundador da Rádio Difusora de Alagoas, o saudoso Ascendino Santos possuía uma lingua bastante afiada. Então, quando ele se juntava com os colegas Nely Luna e Odorico Souza, o notório “sargento Taínha”, a fofoca corria solta. Esses caras falavam mal de todo mundo. Quando não tinham de quem falar, falavam deles próprios.

     Elegante no vestir e também possuidor do excepcional dom de produzir piadas, ele integrou, durante a fase áurea da emissora oficial do estado, o famoso “Regional dos Professores”, conjunto musical integrado pelos não menos famosos Juracy Alves, Reinaldo Costa, Bráulio do Pistom, João do Acordeon, Mário e Carlos Costa, Nely Luna e outros…

     Um dia, incursionando pelo interior de Alagoas, o Regional dos Professores, esteve em Penedo onde fez um show  primoroso. Terminado o espetáculo, que ocorreu no Teatro 7 de Setembro, a turma se reuniu para os comes e bebes, no bar e restaurante intitulado “Jacaré”.

     Em torno da mesa, a turma aguardava o rango quando, em dado momento, Bráulio do Pistom, que adorava uma molecagem, levantou-se do seu lugar e foi até o balcão, onde se achava o dono do estabelecimento, e disse:

     – Meu amigo, ali naquela mesa está reunida a comitiva do Doutor Ascendino Santos, aquele mulato de camisa listrada… tá vendo?

     – Claro, claro! – respondeu o comerciante, lisonjeado com presença tão ilustre. – Ele é doutor de quê?

     E o Bráulio:

     – Ora, o senhor nunca ouviu falar no Doutor Ascendino?

     – Não senhor.

     – Ele é o mais famoso engenheiro do DER. É o grandola de lá.

     Ascendino e a turma do RP comeram e beberam do bom e do melhor. Terminada a farra, ele levantou-se de mão no bolso e dirigiu-se ao dono do restaurante:

     – A conta, por favor, meu amigo.

     E o dono da casa, com os olhos brilhando de felicidade:

    – A conta? Mas de maneira alguma, meu amigo! Imagine se eu vou cobrar uma continha tola de uma distinta autoridade como Vossa Excelência!

     Ascendino quís pular de alegria, mas se segurou:

     – O senhor não pode fazer isso! A despesa foi enorme!

     – É cortesia da casa, doutor!

     Aí, Ascendino entendeu de fazer uma média com o cidadão:

     – Nesse caso, o que eu poderei fazer pelo senhor?

     Bastante humilde, ele respondeu:

     – Eu só queria que o senhor, como engenheiro chefão do DER , não esquecesse da nossa estrada, que tá toda esburacada!

     – Só isso?

     – Somente isso.

     Ascendino estufou o peito, deu uma passada de olhos em redor, encarou o dono do bar e mandou:

     – Nesse caso, amanhã mesmo vou mandar uma das nossas BR-101 pra dar uma melhorada na sua estrada!

 

 

Apenas para puxar conversa!

 

     Madrugada calorenta, vento soprando preguiçoso. Na recepção da Delegacia de Plantão da Polícia Civil, que ficava na rua Boa Vista, centro comercial de Maceió, um policial cochilava debruçado no balcão de atendimento. A baba escorria pelo canto da boca. Em dado momento, parou na porta um velhinho de olhinho vivinho e ficou espiando lá pra dentro. Era o aposentado  Emídio Francisco do Nascimento. Depois de alguns segundos alí parado, ele resolveu entrar e foi entrando de mansinho no saguão vazio.

     Seu Emídio olhou para um lado, olhou para o outro e fixou a vista no tira dorminhoco da portaria. Adiantou-se, bateu com a mão espalmada no balcão e cumprimentou:

     – Boa noite, moço…

     O policial acordou num pinote:

     – Hein? Hein! Quê que houve?

     O velhinho liberou um sorriso meio sem graça e continuou, tranquilissimo:

     – Mataram um deputado…

     O agente da portaria nem esperou para ouvir o resto da história. Levantou-se da cadeira e disparou corredor a dentro, gritando que que nem um desesperado. Não demorou nadinha, voltou acompanhado de um monte de agentes, todos armados até os dentes.

      Com a palavra, mas ainda assustado, o policial voltou a falar com o velhusco Emídio:

      – Onde foi que mataram o deputado, vovô?

      Seu Emídio encostou-se no balcão e os policiais, nervosos, o cercaram:

      – Que horas aconteceu o crime?

      E o velho, incrivelmente tranquilo:

      – Ôxi, e vocês num estão lebrados não? Isso foi no ano de 1957, naquele tiroteio da Assembléia Legislativa!

       O chefe dos tiras, Cícero Calheiros, quís ficar aborrecido mas, considerando a caduquice do velhinho, ponderou:

       – Ah, vovô, mas esse crime está com mais de 40 anos!

       – Pois é…

       – E por que só agora o senhor veio denunciá-lo?

       – Eu num vim denunciar nada, meu filho. Eu entrei aqui só pra bater um papinho. Falei nesse caso só pra puxar assunto…

 

 

Azar do Valdemar

 

     Todos os depoimentos relacionados à pessoa do finado Valdemar Lourenço são unânimes em destacar que ele era um bom sujeito. Seu único defeito foi o de exagerar na birita. Quando começava a beber não queria parar mais. Mas, um dia, ele parou de vez, e de maneira trágica.

     Foi numa sexta-feira meio nublada. Ele chegou em casa, no Brejal, puxando o maior fogo. Olhou para os lados, encarou a mulher e esperneou:

     – Leobina, o que foi que houve com a nossa casa?

     E a mulher, sem entender qual era a do marido:

     – Não houve nada! O que ela tem demais?

     – Tá vendo não?

     – Vendo o quê, homem de Deus?

     – Você não tá vendo que a casa tá troncha?

     – O que tá troncho é o seu juízo. A casa tá do mesmo jeitinho!

     – Tá não! – insistiu Valdemar. – E quer saber de uma coisa? Vou dar um jeito nela, nestante!

     Dito isto, Valdemar girou nos calcanhares, ganhou a rua e desapareceu na escuridão da noite. Não demorou muito, retornou com dois amigos cachaçudos, cada um deles carregando uma pá e uma marreta, nas costas. Pararam em frente a casa e Valdemar ordenou:

     – Comecem a marretar a banda direita, que eu vou marretar a banda esquerda!

      Aí, a dona da casa gritou lá de dentro:

      – Peraí! Peraí, minha gente! Deixa eu sair primeiro!

      – Então, saia logo que eu tô avexado! – retrucou Valdemar.

      A mulher correu pro terreiro carregando o que pôde. Aí, Valdemar expediu o alerta:

      – Atenção, companheiros!

      O trio se preparou para usar os seus instrumentos.

      Então, ele disparou a ordem:  

      – Já!

     Nas duas primeiras marretadas que deram, a casa desabou em cima dos três.