Maternidade Colaborativa

4 de julho de 2016

Ajuda? Ser pai não é favor, é obrigação

– Amor, por favor, troca a fralda do bebê.

-Querido, por favor, dá agua a nossa filha.

Quantas vezes você ouviu essas frases, ou um diálogo semelhante? Ou quem sabe, você mesma se pegou pedindo esta “ajudinha”? Desconsiderando o fato de ser educada com o outro, o pedido de “ajuda” pode ser dos mais variados: dar água, banho, comida, um lanche. Mas, ajudar? A partir do momento que você assume que precisa da ajudinha do pai, você está trazendo unicamente para si a responsabilidade de cuidar do filho. E o pai tem apenas que ajudar quando puder, se puder e conforme quiser. Quando a responsabilidade é compartilhada ele tem funções. Quando nos ajudamos mutuamente nas nossas responsabilidades, a paternidade e a maternidade se tornam reais. Pai é pai! Ajuda seria se eles não fossem tão responsáveis pela cria quanto nós. O fato é que a tarefa de ser pai e mãe é igual em sua totalidade, porém muitas mulheres põe o homem no pedestal por fazer apenas o que é de sua obrigação. Ainda vivemos em um mundo em que a mãe é cobrada como se fosse uma obrigação exclusiva dela cuidar dos filhos e a participação do pai é vista como um bônus. Ou você nunca ouviu aquela frase que muitas mães dizem de forma “elogiosa” para a outra em relação a determinados pais?

-“Nossa, como você é sortuda por seu marido te ajudar!”

E isso acontece com muitos pais que não participam em quase nada e quando fazem algo e elas o elogiam, se acham os super pais. Todo ser humano, seja pai ou mãe, merece sim todo aplauso do mundo por cuidar e se dedicar aos filhos. Mas, infelizmente são poucos os homens que assumem a paternidade por amor e responsabilidade. E dividem as tarefas concernentes a ambos os pais com consciência de que é sua responsabilidade também. Transformar-se em um pai e uma mãe não é simples como comercial de margarina. E sim, muda muito a vida individual e mais ainda de um casal. E não, não basta só amor e paixão. É preciso no dia a dia compartilhar as obrigações, ter muito companheirismo e cumplicidade. Mas, sinceramente, pai, que é pai de verdade, com todas as letras e tudo o que essa palavra significa, ele não ajuda a mãe, ele não dá uma forcinha, ele cumpre a sua função de pai.

E não me refiro somente à divisão de tarefas. Participar da rotina da criança é simplesmente: ser pai! Criar laços de intimidade e amor com o filho. O simples ato de dar um banho é íntimo e amoroso. O trocar fralda também pode ser um momento de carinho. O ato de dar mamadeira/papinha/comida, enfim, todo ato considerado tarefa/obrigação permite o relacionamento com o filho, que vai se sentir protegido e amado pelo pai e pela mãe. Isso sim é obrigatório: muito amor. Aí tem pai que vai falar: “Ah, mas eu trabalho fora o dia todo e chego cansado!” Você trabalha 24 horas por dia? Porque um bebê precisa de cuidados durante o dia e a noite, disponibilidade integral. Uma mulher que está em casa com os filhos também está trabalhando. Lembrando que, apesar de não ser remunerado e ser extremamente desvalorizado, o trabalho doméstico dá tanto trabalho quanto e cansa tanto quanto o trabalho externo. Acho que não cabe mais defender o “você fica em casa e eu trabalho, quando chego, estou cansado, vejo TV e abro uma cerveja enquanto assisto o futebol”. Os cuidados com os filhos devem ser divididos. Não tenha a menor dúvida que a mesma regra vale se, por opção da família, o homem ficar em casa cuidando das crianças e a mulher trabalhar fora. Ela também deve dividir as obrigações. E sim, vale o mesmo quando o casal trabalha fora. Pois se foi uma opção dos dois constituir uma família, todo o trabalho decorrente dessa constituição deve ser dividido pelos dois. Portanto, vamos todos dividir, e não ajudar. Dividir o cuidado com os filhos é o mínimo de respeito á vida conjugal.

E para as mulheres com síndrome de mulher maravilha (“deixa que eu dou conta de tudo”), machista ou perfeccionista que não deixa o homem nem tentar, afinal, “homem não sabe dessas coisas” ou “ele vai fazer errado mesmo”, isso é muito triste, todos perdem e a criança mais ainda. Não é incomum ver mulheres se vangloriando por cuidar dos afazeres domésticos sozinhas, e ainda menos incomum mulheres que querem ser exclusivas na criação e cuidados dos filhos, jogando os pais de lado, ou melhor colocando-os a cumprir sua posição de pai, que para elas nada mais é do que ser coadjuvante da mãe onde mesmo não fazendo nada é o chefe da família. A educação doméstica contribui bastante para se ter um marido e pai que tenham a consciência de dividir e não ajudar. Infelizmente, muitos maridos e pais chegam à vida de suas esposas sem essa referência. E é extremamente desgastante ter que ficar lembrando que a casa não é apenas sua e que o filho não é apenas seu. Seria mais fácil se quem tivesse criado nossos maridos tivesse educado para dividir, mas certas opiniões e comportamentos só reforçam essa ideologia do ajudar.

É muito bonito quando encontramos homens que abraçam a paternidade com amor e responsabilidade. Eles não são ainda a maioria, mas estão aí sim, por todos os lados, em um movimento novo e muito bonito de se ver. Podemos até fazer uma piada sobre como os pais vestem os filhos misturando xadrez com listrado pra levá-lo ao pediatra, mas reclamamos (berramos, urramos!) é quando um homem usa esse discurso de “homem é assim mesmo” pra se livrar das suas obrigações. Sim, homens e mulheres são diferentes. Não somos iguais em nossas tolerâncias, respostas ou modos de agir. O que devemos incentivar é que cada um exerça o seu papel. Seja pai, cumpra o seu papel de pai, do seu jeito de homem, mas dê o seu melhor (de verdade, não para a mulher parar de encher o saco). Ter um filho é criar uma família, certo? A família é um grande organismo que precisa se ajudar. A sociedade é cruel, mas a nossa casa não precisa ser.

 

Joelma Leite é mãe, jornalista, empreendedora, escritora de gaveta, acredita que visibilidade materna importa, adora boas histórias e compartilhar conhecimento.