Ailton Villanova

3 de julho de 2016

O cabo Azogado

     Doido e meio, o soldado PM Enoque Pereira, vulgo “Azogado”, dava um trabalho danado aos seus superiores hierárquicos. Por conta disso, sua ficha andava mais suja do que macacão de mecânico. Um dia, de saco cheio de suas estrepolias, o coronel Gerson Argôlo de Melo, então sub-comandante geral da corporação, resolveu pagar-lhe uma missão nada fácil:

     – Olhe aqui, rapaz, você está na bica de ser expulso da corporação, por causa das suas loucuras. De modo que vou lhe dar a última oportunidade, está me ouvindo bem?

     – Tô, meu coronel.

     E Argôlo despachou-o à Palmeira dos Índios, onde morava um negrão conhecido como Farromba, que era o terror do Agreste. A polícia tinha pavor dele. Como não havia no destacamento militar um só homem com coragem suficiente para enfrentá-lo, a missão do Azogado era enfrentá-lo e prendê-lo, livrando a região daquele estropício.

     Por uma razão de consciência, o delegado municipal, sargento Farias, teve de ser sincero com o Azogado, assim que o recebeu:

      – Sei que você é um cabra destemido, mas não me custa nada lembrar que o cara que você vai enfrentar é perigoso demais. Tenha muito cuidado. Leve a metralhadora pro caso de você necessitar…

     – Necessito não, sargento. Vou pegar esse fidapeste com as mãos limpas. Pode deixar o xadrez aberto, porque ele vai entrar aqui correndo, pra ser trancafiado…

     – Isso é anedota, Azogado!

     – Espere só pra ver, sargento.

     Dito isto, Azogado bateu continência, girou nos calcanhares e se mandou rua afora. Daí a minutos, parou na porta da casa onde o valentão se arranchava. Bateu palmas, ele veio atender.

     – Uquié que você quer, seu “menganha”? – berrou o negrão, que devia medir em torno de 2 metros de tamanho, além de possuir muitas libras de músculos em cima do esqueleto.

     Azogado mirou o massa bruta de cima a baixo, franziu as sobrancelhas, cuspiu de lado e perguntou:

     – É verdade que o amigo é o campeão de corridas daqui?

     – Quem falou essa besteira?

     – Eu soube. Mas, reparando direitinho, já ví que você não é de nada!

     O negrão arretou-se:

     – Quem não é de nada, seu corno?

     – Você! E até parece que é viado!

     Ao escutar a depreciação à sua pessoa, o negrão endoidou: pulou a porta e partiu pra cima do Azogado, que disparou na frente, puxando mil por hora. Os dois entravam em becos, saíam de becos, subiam ladeira, desciam ladeira… e o Azogado na dianteira. Finalmente, ele entrou na delegacia com o negrão nos calcanhares.

     Ao transpor o primeiro portal da repartição policial, Azogado deu um drible de corpo para a esquerda e o Farromba passou embalado indo esbarrar no fundo de uma das celas.

     – Depressa! – gritou o PM, com a lingua de fora. – Fechem a porta do xadrez que o elemento já tá no papo!

     Mês depois, Azogado foi promovido a cabo PM, por merecimento, e, ainda por cima, ganhou o posto de subdelegado de policia da cidade.

 

 

Viajante infeliz

 

     O cabo PM Santana era bastante chegado a um pileque. Mas, só nos finais de semana, quando estava de folga. Ele começava a beber assim que terminava o expediente da sexta-feira, no Quartel do Comando-Geral, isso lá pelas cinco da tarde, e só parava no primeiro canto do galo, na madrugada da segunda seguinte. Voltava pro quartel às sete da manhã, na maior ressaca.

     Certo fim de tarde, de uma sexta-feira, Santana largou do QCG da PM e se mandou para um barzinho existente na Praça São Vicente, a poucos metros do quartel, e aí iniciou a contumaz bebedeira. Lá pelas onze da noite, o dono do estabelecimento avisou:

     – Infelizmente tenho de fechar, cabo…

     – Então, me deixe tomar a saideira.

     E que “saideira” foi essa que o ilustre militar só se despediu da bebedeira depois da meia-noite. Saiu do bar vendo o mundo emborcado e ingressou no primeiro coletivo que encontrou dando sopa. Espichou-se na poltrona dos fundos, puxou o boné até o pau da venta e danou-se a roncar.

     O ônibus fez o circular Ponta da Terra/Vergel do Lago mais de dez vezes e nada do cabo descer. Parecia até que o veículo era de sua propriedade. Todas as vezes que o cobrador o acordava, ele falava com voz pastosa:

     – Xão Paulo, meu nego… Xão Paulo!

     Motorista e cobrador deixaram que Santana continuasse dormindo à vontade, mas ponderaram que, ao invés de recolherem o veículo à garagem com o insólito passageiro dentro, teriam de entregá-lo em algum lugar.

     – Já sei! Vamos deixá-lo no quartel! – sugeriu o cobrador.

     O motorista animou-se:

     – É, vamos!

     Pararam o ônibus na porta do QCG da PM e o motorista abriu o bocão:

     – Atençãããããõoo passageeeiiirros!

     Assustado, cabo Santana abriu os olhos e aí o chofer completou:

     – Chegamos a São Paulo!

     O militar pulou de dentro do coletivo e foi esparramar-se no Corpo da Guarda, onde desmaiou novamente.

     Acordou perto das duas da tarde na carceragem da corporação.

 

 

Catástrofe dentária

 

     Bastante necessitada de uns esfregaços masculinos, a viúva Maria Estriônia, andava subindo pelas paredes. Um amiga sua, a balzaquiana Mesopotâmia, bastante experimentada no barato alcovital, aconselhou-a procurar um psicólogo que, por sua vez, sugeriu-lhe a compra de um vibrador.

     Cheia de acanhamento, a viúva entrou no SexShop e adquiriu o instrumento. Sem saber como usá-lo, perguntou ao balconista, que a orientou nos seguintes termos:

     – É simples, madame. Faça como se fosse o seu marido…

     Maria Estriônia agradeceu, pegou o material e foi embora. Dia seguinte, voltou à loja toda lacrimosa:

     – Esse negócio não presta! É uma catástrofe!

     – Como assim, dona? – perguntou o balconista.

     – Eu fiz como você ensinou e… ó, repare pra mim, tá reparando? Fiz como se fosse o meu finado marido e o resultado é que quebrei os meus dentes da frente!