Ailton Villanova

1 de julho de 2016

Noaldo Dantas no Paraíso

     Sábado, 15 de maio. Ano: 1999

     Sem desviar os olhos do imenso portal celestial, São Pedro  conferia com insistência a hora no relógio que carregava no pulso. Não conseguia disfarçar a sua ansiedade. Dai a pouco, tocam a campanhia, ele corre e vai atender.

     Diante de São Pedro, eis que surge um cidadão magro, semblante tranquilo, olhos grandes, claros, cabeleira alva da cor das nuvens que adornavam a entrada do jardim divino. Era Noaldo Moreira Dantas.

     – Olá, São Pedro! – cumprimentou com aquele vozeirão que Deus lhe dera.

     E o santo-chaveiro, algo emocionado:

     – Entre… Entre, meu filho! É uma honra tê-lo aqui conosco!

     Noaldo adentrou ao Paraíso escutando sons de trombetas e cânticos de anjos. Tudo muito belo e comovedor. Mais adiante, uma comissão de recepção constituída de notáveis da cultura alagoana – que galgaram, muito antes, a consagração celestial -, lhe apresentou as boas-vindas. Depois das lágrimas de emoção de todos e da oratória que se seguiu, São Pedro retomou a palavra e dirigiu-se ao recém-chegado:

       – O Senhor Criador mandou lhe chamar, Noaldo, porque está precisando de sua assessoria, aqui no Céu…

      – Eu, São Pedro?! Mas por que eu? – reagiu Noaldo com a humildade que sempre carcterizou a sua personalidade.

      – Sim, você mesmo. Decisão de Deus não se discute, meu filho. Cumpre-se!

      – Eu sei, São Pedro, Mas esse é um privilégio que um pobre mortal como eu, está longe de merecer!

      – Êpa! Você não é mais um mortal, Noaldo! Aliás, já se tornara imortal desde quando escreveu aquela bela prosa intitulada  “O Dia Em Que Deus Criou Alagoas”…

      O santo fez uma pausa e prosseguiu:

      – Tanta beleza na simplicidade de um texto, expressando a vontade de Deus, só pode ser obra de inspiração divina. Infelizmente, Noaldo, os homens estão destruindo essa formosura que você exprimiu naquela obra!

      – E o que tem que ser feito, São Pedro?

      – Com a sua ajuda, com esse seu entusiasmo poético, iremos restaurar esse quadro. As praias de Maceió continuam sendo poluídas, as lagoas e os rios da bela Alagoas hoje vêm servindo de depósitos de dejetos e detritos de toda espécie. É incrível, meu filho, como o progresso vem destruindo os canaviais e a inércia das autoridades permitindo que o verde dos campos da Terra dos Marechais se transforme no marrom da miséria…

       – É verdade, São Pedro. Enquanto os homens com poder de mando se desentendem e se acusam mutuamente, recrudesce a fome e a mesologia toma conta dos nossos parlamentares…

       O santo voltou à palavra e concluiu:

       – É por isso que você está aqui, Noaldo. Com sua cultura e inteligência, certamente haveremos de abrir a consciência dos homens que mandam nos destinos de Alagoas. Lá embaixo sua voz não ressoaria com a intensidade e a autoridade que terá de agora em diante. O seu poema “O Dia Em Que Deus Criou Alagoas” será a inspiração para isso tudo!

 

 

Um repórter complicado!

 

     Havia um tempão não visitava um ilustre amigo, o saudoso Bráulio Leite Jr., no seu pequeno paraíso, o panorâmico Sítio Velho, localizado na área mais poética da histórica Paripueira. Mal assentei os solados dos pés no primeiro batente de sua espaçosa e confortável residência, ele sapecou de lá:

     – Que fim levou aquela dupla famosa Jotajó e Fedúlcio? Será que esses caras morreram e eu não fui avisado?

     Bráulio Leite aprecia bastante as histórias dessas duas complicadas personagens. Então, expliquei que estava dando um tempo aos indigitados porque eles haviam ficado muito manjados.

      O gordo não gostou da iniciativa e protestou:

      – Pelo menos o Fedúlcio você deveria manter ativo.

      Respondí:

      – Aliás, Bráulio, eu bem que estava pretendendo por em prática essa ideia. Mas, acontece, que o seu psicólogo Reinaldo Cavalcante me desistimulou, alegando que o Fedúlcio voltou a ter novos surtos de loucura…

      – Iiihhh, rapaz! O caso é sério, hein? E ele ainda anda com a mania de ser jornalista?

      – Esse é o problema. O Fedúlcio botou na cabeça que é um grande repórter e isso me reconduz à lembrança do dia em que fui apresentado à ele, pelo próprio Reinaldo Cavalcante. Na época, eu era o diretor de jornalismo da Rádio Gazeta e o Rei me apareceu lá com o sujeito à tira-colo…

      – O Reinaldo, hein? No mínimo, ele estava querendo se livrar o cara!

      – Isso mesmo, gordo. Então, fui pragmático. Encarei o Fedúlcio e indaguei: “Então, você quer ser repórter, não é?” Muito petulante, ele respondeu o seguinte: “Sua pergunta está errada, meu chefe. Eu não quero ser repórter! Eu sou um repórter! Já nascí repórter!”

       – E o que você fez?

       – Passei-lhe uma pauta, ele se mandou para a rua. Meia hora depois estava de volta à redação. Sentou-se diante da máquina de escrever, lascou o dedo pra frente e, cinco horas e meia depois, me entregou um texto de cinco linhas, contando a história do crime que fora mandado cobrir…

       – E o que dizia o texto?

       – Dizia o seguinte: “… pelos elementos averiguados, conclui-se que o assassino matou para roubar. A vítima, no entanto, havia, na véspera, depositado, graças a Deus, todo o seu dinheiro no banco. Desse modo, não perdeu nada, exceto a vida”.

 

 

Vai barba, ou cabelo?

 

     Se tem uma coisa que o amigo José Jesuíno, o indefectível Duda, não gosta é de freguês mal educado. Outro dia, um desses tipos baixou no seu restaurante, em Mangabeiras.

      O cara chegou, sentou-se à mesa e amarrou um guardanapo em volta do pescoço. Aí, o Duda invocou-se. Mais que depressa, chamou o garçom Deraldo e pediu:

      – Olha, vá alí naquela mesa e, disfarçadamente, dê a entender ao cara que está lá sentado, que aquilo de amarrar guardanapo no pescoço não se faz.

      – Deixa comigo, seu Duda!

      Deraldo aproximou-se do freguês e lascou lá:

       – Vai barba ou cabelo, senhor?

 

 

Nada de sexo no plenário!

 

     Além de laureado prosador e empresário competente na área da construção civil, o saudoso Pedro Ferreira foi excepcional humorista. Dono de uma presença de espírito incomum, ele sempre se saía numa boa em situações embaraçosas com uma piada na ponta da língua.

     Bela tarde, durante um aparte no plenário da Assembleia Legislativa, um colega deputado abordou Pedro Ferreira algo  aborrecido:

      – Nobre deputado, Vossa Excelência está querendo gozar com a minha cara?

      E Pedro Ferreira, em cima da bucha:

      – De forma alguma, nobre colega. Quando eu estou no plenário jamais consigo pensar em sexo!