Rívison Batista

30 de junho de 2016

A 'fé política' que embasa o ódio (ou Revolta em Taured)

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Uma nação chamada Taured está à beira de uma guerra civil. As duas principais vertentes ideológicas do país não conseguem chegar a um entendimento e as discussões políticas acaloradas já provocaram mortes. Nessa nação, que sobrevive da agricultura, há o Partido dos Lucros (PL) e o Partido da Boa Vontade (PBV). Quem está do lado dos Lucros são as famílias e funcionários de alta patente que administram o solo. A Boa Vontade é composta por famílias de agricultores que pagam uma taxa para viver nas terras dos Lucros. O PL é formado, como o próprio nome já diz, por pessoas que colocam o poder financeiro na frente de interesses sociais. O PBV tenta defender os direitos trabalhistas. 

Durante 50 anos, o Boa Vontade governou Taured. Abriu as fronteiras e facilitou o pagamento das terras. Tudo ia bem, até que o governo decidiu dar uma espécie de “mesada” às famílias mais necessitadas, afinal, só quem passa fome e é privado de necessidades básicas sabe que a menor ajuda faz a diferença. “Esses vagabundos não vão querer trabalhar nunca”. “Estão sustentando parasitas com meu dinheiro”. “Usam o dinheiro do meu imposto para comprar drogas e armas; a criminalidade está aumentando”. Estas e outras frases de revolta foram ditas pela elite furiosa do país distante, que também já considerava o governo de 50 anos do PBV, escolhido democraticamente, uma afronta. Depois, o governo decidiu sortear terras desocupadas a algumas famílias de agricultores. Não demorou para as críticas dos integrantes do PL aumentarem. “Sou de uma tradicional família, que ajudou a criar essa nação e, por isso, se fez merecedora de uma parte da terra. É inadmissível que alguém, sem tradição alguma, ganhe terrenos”, dizia um homem poderoso. Uma família de imigrantes foi uma das sorteadas e foi morta em um verdadeiro ataque terrorista que explodiu uma casa inteira. Nos jornais mais sensacionalistas, apareceram os corpos queimados e irreconhecíveis, o que se tornou um cartão de “mantenha distância” para possíveis imigrantes. Houve hostilidade nas fronteiras de Taured. 

O Partido dos Lucros foi além na ofensiva contra o modelo liberal do Boa Vontade e firmou uma aliança com a Entidade da Fé, um tipo de liderança religiosa em Taured. Adeptos do conservadorismo gritavam palavras de ordem inflamadas de ódio nas ruas e justificavam a raiva por vontade divina. Pessoas foram perseguidas e espancadas (não por vontade de um deus, mas por interesses políticos, ainda que obscuros). Imigrantes, homossexuais, pobres, agricultores; todos que não se enquadravam no modelo das tradicionais famílias corriam perigo. Acontecia em Taured o que aconteceu numa Alemanha rancorosa e aos pedaços há tempos atrás: um holocausto em plena luz do dia. A reação desproporcional do conservadorismo em um mundo onde a diversificação e a unificação de todos os tipos de pessoas já era um caminho sem volta. Os motivos da matança em Taured, como na Alemanha de Hitler, já não eram econômicos, mas sim um tipo de vingança contra quem ousava não estar enquadrado nos padrões. 

Com o lema “Taured tem fé na justiça”, o Partido dos Lucros voltou ao poder, dessa vez ao lado da Entidade da Fé, e um governo misturado com costumes religiosos se estabeleceu no país, que antes era laico. As fortes famílias agora podiam gozar do poder amparadas pela 'vontade dos céus'. Os mais pobres, sem a “mesada”, se marginalizaram mais ainda, cometeram pequenos furtos e foram fuzilados um a um. Muitos aplaudiam de pé os fuzilamentos e diziam que a nação estava no caminho certo. As fronteiras foram fechadas sob o pretexto de que os imigrantes eram perigosos e podiam explodir residências. E o Partido dos Lucros, agora denominado 'Partido dos Lucros e da Fé', conseguiu fazer o errado parecer certo, pois, sob a ótica de quem acha que o ódio é uma ferramenta para um mundo melhor, todos os males são justificáveis. 

 

*Rívison Batista é jornalista