Ailton Villanova

18 de junho de 2016

A vingança do “José”

     A infância e a juventude do Bom Parto dos áureos tempos eram orientadas para enfrentar o futuro com coragem e determinação. Os moradores de então, daquele bairro, constituíam uma grande família. A paróquia e a indústria de tecidos Alexandria influenciavam expressivamente na formação cultural da moçada do pedaço, através de movimentos artísticos e esportivos. A orientação religiosa permeava esses movimentos.

     O futebol foi – e ainda continua sendo -, a maior das opções da juventude do bairro. O volibol, durante muitos anos, teve o seu espaço e o teatro, com a participação de garotas e garotos, moças e rapazes, produziram grandes espetáculos, para a alegria e orgulho da família bompartense.

      Foi numa das encenações teatrais da Escola São José – mantida pela paróquia do bairro -, que meteoricamente passou o garotão David Pereira dos Santos, em cuja cachola alimentava a idéia de ser ator. Insistente e muito chato, forçou a dedicadíssima professora Edith Martins de Oliveira, espécie de mãezona da garotada, a lhe dar uma oportunidade. Deus é testemunha que Edith bem que tentou fazer do David um ator.

       O surgimento do David na parada ocorreu quando professora Edith Martins anunciou que o teatro da Escola São José estaria lançando uma peça sobre o Natal. Na maior cara de pau, ele pediu o papel principal e é claro que não o teve. Mas ganhou a oportunidade de representar um estalageiro. Aceitou-o de má vontade e ficou maquinando uma maneira de se vingar do colega que interpretaria a personagem principal, que era São José, o marido de Maria.

      Depois de várias semanas de ensaio (entre os atores havia um garoto magrinho, canelinhas fininhas, chamado Aílton, que por acaso era eu), eis que finalmente chegou o dia da estréia.

      Auditório da Escola São José lotado, presente, inclusive, o grande incentivador cultural, o saudoso padre José Brandão Lima, entraram em cena José e Maria, esta em vias de dar a luz, que batem na porta de uma estalagem. David, no papel de estalajadeiro, abriu a porta e olhou para o casal, com desdém:

       – Quíé? Que desejam? – perguntou, completamente fora do script .

       O ator que representava José, acusou o golpe, e foi em frente, respeitando o escrito “ipsis litters”:

       – Pode nos dar comida e dormida por uma noite? Estamos muito cansados…

       Para surpresa geral e desespero da diretora da peça, em vez da esperada recusa, conforme constava do roteiro, mais uma vez o estalageiro David apelou: abriu a porta para Maria e José, sorriu cinicamente e disse:

      – Entrem! Entrem, meus caros. Podem ficar com o melhor quarto deste maravilhoso hotel!

      Seguiu-se profundo silêncio. Então, o jovem José Alcides, que revivia o papel de José, virou-se para a atriz ao seu lado (Maria) e tentou consertar a cena estragada pelo vingativo David:

      – Espere aí, Maria, que eu vou dar uma olhada lá dentro!

      Em seguida, completou:

      – Olha, seu estalageiro, não vou colocar minha mulher nesta espelunca! Vamos dormir no estábulo, Maria!

      O pano desceu rápido.

 

 

O grande e orgulhoso Jura

 

     Bompartense genuíno, doutor Juracy César e Silva, delegado aposentado de policia civil, faz qualquer sacrifício para não ter que trocar um pneu de carro.

     – Tenho o maior trauma desse negócio! – confessa sem o menor constrangimento.

     Exemplar chefe de família, excelente colega, amigo leal, Juracy César já foi chegado a uma boêmia. Seu primeiro porre ele tomou junto comigo, quando éramos garotões, estudantes do Colégio Estadual de Alagoas.

      Pacato, extremamente educado e inteligentissimo, Juracy tentou ser craque de futebol, mas não deu. Não por lhe faltar competência no bate-bola, mas porque dedicou-se de corpo e alma, primeiro à Guarda Civil Estadual e, depois, à Polícia Civil.

     Juracy saiu do Bom Parto para morar no Tabuleiro do Martins, mais especificamente no residencial Salvador Lyra, assim que contraiu núpcias. Até essa época, apreciava uns bordejos noturnos com amigos, entre esses o José Mário, também bompartense e competente sonotécnico da Rádio Difusora. Um dia, ao voltar pra casa, alta madrugada, ele se achava tão cansado da farreança que não teve o menor ânimo de guardar na garagem sua Brasília amarela. Deixou-a na porta e entrou para dormir.

      Dia seguinte, assim que acordou, correu para reparar se o carango ainda se encontrava no lugar onde havia deixado. Estava, mas com um detalhe lamentável: um dos pneus estava murcho.

      – Puta merda! – revoltou-se.

      Sem outra alternativa e, com ressaca e tudo, pegou o macaco hudráulico e deu início à batalha de levantar a Brasília para facilicitar a troca do pneu. Mais de uma hora depois, transpirando por todos os poros, ele ainda não tinha alcançado sucesso na tarefa: o maldito pneu continuava vazio, no mesmo lugar e o macaco emperrado. Mas, o estóico delegado persistia, a língua quase arrastando no chão. Em dado momento, saiu à rua um dos seus vizinhos, o jovem José Carlos, disposto a ajudá-lo:

       – Tudo bem aí, doutor?

       E o Jura, mal podendo falar:

       – Puf… Tudo… puf… tudo bem.

       – Tudo bem mesmo? – insistiu o rapaz.

       – Tu… tudo…

       – Tem certeza de que não precisa de ajuda?

       E ele, cheio de orgulho e sem querer dar o braço a torcer:

       – Cla… puf… Claro que na-não…

       E caiu desmaiado.

 

 

O revolucionário Benito

 

     Dono de uma memória privilegiadíssima, Benito Lopes Rodrigues bem dizer já nasceu revolucionário. As primeiras letras ele aprendeu sozinho, nos livros sobre Karl Marx e outros líderes vermelhos, que seu pai, comunista simpatizante, mantinha guardados em casa.

     Benito pronunciou o seu primeiro discurso subversivo em frente ao grupo escolar onde iniciou os seus estudos oficiais. Na ocasião, protestou veementemente contra a obrigatoriedade da matéria Religião no currículo escolar. Achou pouco, incitou seus colegas à greve. Nesse mesmo dia foi expulso da escola. Uma dor para seu Edgar Renato, o pai, que era tipógrafo.

     A partir dessa expulsão, começou a perigrinação de Benito Rodrigues pelas escolas de Maceió. De todas por onde passou foi enxotado, “a bem da disciplina”.

     Seu Edgard entrou em desespero. O filho não tinha conserto. Transformara-se num perigoso subversivo. Aí, ocorreu-lhe a lembrança de um tio que era frade franciscano na Bahia. Pegou o telefone, ligou pra ele e contou o seu drama. Ao final, suplicou:

     – Pelo amor de Deus, tio, me ajude!

     O religioso respondeu:

      – Pode deixar esse garoto sob os meus cuidados, meu filho. Com a ajuda de Deus, eu darei um jeito nele!

      – Verdade, tio?

      – Seu filho irá ficar internado comigo, neste convento!

      Dois dias depois dessa conversa, o garoto Benito era remetido à Salvador.

      No convento, tido como um dos mais rígido do país, ele finalmente encontraria a paz com Deus. E, quem sabe, seguiria a carreira religiosa.

      Mais uma semana e seu pai Edgar também viajou à Salvador, para ver como o Benito estava suportando aqueles dias de clausura. Chegou lá preocupado e imediatamente procurou conversar com o tio frade:

     – Como vai o menino, tio?

     O velho franciscano respondeu monossilábico:

     – Bem!

     O pai suspirou aliviado:

     – Graças a Deus!

     E o franciscano:

     – Sem essa de Deus! E não me chame de tio. Me chame de companheiro. Quanto ao camarada Benito, neste momento ele está fazendo um comício na capela!