Rívison Batista

17 de junho de 2016

O ciclo da fertilidade

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Um dia, passeando pela cidade, um garoto de onze anos olhou para um arbusto seco e se entristeceu. Como podem as árvores não saírem do lugar e, mesmo assim, distribuírem tanta vida pelo mundo? Como uma rosa fica imóvel na roseira, e embeleza um cenário de tijolo e concreto? Quão belas podem ser as coisas imóveis? De fato, há beleza na falta de movimentos. Todos aqueles vegetais transformam gás carbônico em oxigênio. Nos dão fôlego para atravessarmos a rua, corrermos grandes distâncias e cruzarmos oceanos. Mesmo as algas, que participam deste processo, não se movimentam, só são levadas pelas marés. E a maresia chega tão longe quanto o perfume da rosa. Os seres imóveis gritam e não são compreendidos porque temos orelhas acostumadas a ouvir nossos passos perdidos. Elas, as plantas, são firmes em suas raízes. Mesmo dentro de um quarto por dias, meses, anos, são capazes de detectar a luz solar e sorrir; mesmo com a incapacidade de andar, têm vontade de viver. O garoto, depois da longa reflexão, voltou para casa. Lá, viu o avô, quase centenário, em um dos quartos. Na verdade, o quarto mais agradável. O idoso acamado gritava para o pesadelo acabar, embora estivesse acordado. Pai de cinco filhos (um adotado), avô de dez netos e com dois bisnetos, aquele homem delirava de demência. Ainda assim, um de seus frutos, o garoto de onze anos, chegava perto e o abraçava, da mesma forma que fazia a família inteira. Imóvel e adorado por ter dado a vida a tantos. Por uns, visto como um deus, embora com poderes enfraquecidos. Por outros, visto com olhos de piedade. O fôlego de lucidez sempre vinha acompanhado de um momento de afago e de lembranças antigas. A respiração sempre ofegante, dificultada pelo peso de mais de 90 quilos. As pernas incapacitadas, como raízes, entre lençóis. Olhando pela janela do quarto, o velho homem assistia ao pôr do sol, com nuvens gigantes se acumulando no céu, imóveis e avermelhadas, como uma grande pintura. 'Um dia, eu chego lá', desejou o idoso. Um sorriso aparecia sempre que se dava conta, mesmo com dificuldade de raciocínio, que a missão daquele arbusto seco se cumpriu, pois semeou a terra e, ao seu redor, há um jardim fértil. E o ciclo sempre recomeçará.

 

*Rívison Batista é jornalista