Ailton Villanova

16 de junho de 2016

Um marzinho pra beber de um gole só!

     Nascido e vivido em Pariconha, o velho João Febrônio sempre alimentou o desejo de conhecer o mar. Destemido, esse homem soube enfrentar as dificuldades da vida no peito e na raça. À época em que o capitão Virgulino Ferreira andava pelejando pelos sertões nordestinos, seu Febrônio chegou a trocar alguns tirinhos, nas bandas de cá, com o famigerado cangaceiro, porém coisa ligeira. Verdade seja dita: Febrônio nunca abriu parada pra Lampião.

      Mas jamais lhe saiu da cachola a idéia de conhecer Maceió para dar uma chibungada no mar.

      E foi numa ensolarada manhã de setembro que ele, finalmente, desembarcou na capital, trazido pelo agrônomo Nereu Custódio.

      Assim que assentou os solados dos pés na praia da Avenida 

da Paz, João Febrônio não contou conversa: atirou fora a roupa e mergulhou no mar vestindo apenas ceroulão. Apesar de ser acostumado a nadar em rios e açudes, o velhote quase perdeu a vida quando o refluxo de uma onda violenta, puxou-o pro fundo do mar.

     Imediatamente, Nereu Custódio, com a ajuda de alguns voluntários, retirou o ancião de dentro do mar. Fizeram uns exercícios com ele e sugaram de dentro do seu bucho mais de dez litros de água.

     Quando o vetusto voltou a si, olhou em redor, deu uma cusparada na areia e levantou-se de olhos esbugalhados, puto da vida:

     – Quem foi qui me arritirô de drento do má?

     Nereu Custódio tratou de explicar:

     – Fomos nós, seu Febrônio. O senhor esteve a ponto de afogar-se. Se não tivéssemos agido rápido…

     – E uquiéra qui tinha acunticido? – interrompeu o velho.

     – O senhor teria morrido.

     – Eu, murrido? Quem tinha murrido era o seu rabo! Cuma eu hovera de morrê num riachinho safado desse? Essa porcaria de má eu bebo todinho, de gole im gole!

 

 

E não era pra deixar todos loucos?

  

     O garotão João José Leocádio achou de se emancipar mal completou 18 anos de idade. Com a mesada liberada pelos pais, ele alugou um apartamento na orla marítima e foi morar sozinho. Duas semanas mais tarde, dona Emerenciana, sua mãe, ligou pro amado filho, pra saber como ele estava indo:

     – Tudo bem com você, meu amor?

     – Tudo, maínha.

     – E seus vizinhos, são gente boa?

     – Ih, maínha, são muito pirados! Do lado esquerdo tem um cara que vive batendo com a cabeça na parede…

     – Mãe Santíssima!

     – Do outro lado, mora uma senhora estressada que chora sem parar!

     – Olha, meu filho, se eu fosse você não me meteria com essa gente!

     – Pode deixar, maínha. Eu fico só na minha. Passo o dia todo no meu canto aprendendo a tocar bateria!

 

 

“Três” só no plural

 

      Uma tarde, na redação do jornalismo da Rádio Difusora, do qual eu era o diretor, a turma do plantão estava empenhada na confecção do boletim noticioso das 17 horas. De repente, o repórter Afrânio Jorge, de saudosa memória, virou-se pro colega Omar Leite, também falecido, e perguntou:

     – Ô Omar, você pode me dar uma ajuda aqui no meu texto?

     E o Omar:

     – Mas é claro, colega. O que é que você quer que eu ensine?

     O Afrânio explicou:

     – Eu só queria saber se a palavra “três” tem acento circunflexo…

     E o Omar, com ar professoral:

     – Só quando está no plural!

 

 

O vovô sempre dá mais!

 

     Enquanto madame Margô remodelava o seu apartamento na Pajuçara, ela, o marido Carlão e o filhinho Cacá se transferiram para a residência do vovô Asdrúbal, no mesmo bairro. Uma tarde, o pentelho brincava com amiguinhos na porta da casa do vovô quando a mãe o chamou:

     – Está na hora de suspender a brincadeira, filhinho. Está lembrado da aula de violino?

     E Cacá:

     – Ah, maínha, hoje não!

     – Venha, amor. Venha que a maínha lhe dá 5 reais!

     – Cinco reais? Olha só! O vovô já me deu 10 pra eu não chegar nem perto do violino!

 

 

Virou o disco totalmente

 

     Madame Magnólia caminhava de nariz empinado pela Rua do Comércio quando encontrou a velha amiga Coristina, que se fazia acompanhar de uma colega de trabalho. Cumprimentaram-se e Coristina indagou com indisfarçável ironia:

     – Ô Magnólia, como vai o seu filho Dedé?

     – Ah, o Dedezinho…? Nem te conto, mulher… – respondeu Magnólia toda orgulhosa – Ele agora é tarado!

     – Tarado??? Não acredito!!!

     – Pois acredite, minha querida. Inclusive ele já foi até preso pela Rádio Patrulha, porque andava atacando as mulheres na praia!

     Depois que se despediram, e já iam distantes umas da outra, a acompanhante de Coristina comentou:

     – Quem estranho, hein, Corí? Aquela sua amiga ficar tão feliz porque o filho é tarado!

     – E não era pra ficar? Antes ele era uma tremenda bichona!

 

 

Duas cervejas e um corno

 

     Três amigos bebiam num bar da orla marítima, havia pelo menos duas horas. De repente um deles olhou para o relógio e disse levantando-se da cadeira:

     – Iih, companheiros! Tá na hora de ir! Tenho compromisso sério.

     Um deles respondeu:

     – Tá legal. Pode ir. A gente se vê amanhã, certo?

     – Certo.

     O cara se foi e os outros dois continuaram bebendo. Lá pelas duas da manhã o dono do bar chegou pra eles e avisou que estava na hora de fechar.

      Fechado o bar, os dois amigos ficaram em pé na calçada.

      – E agora, Perolino? Onde é que nós vamos beber? – indagou o mais baixinho dos dois.

      – Não tenho a menor idéia, companheiro Cornualdo!…

      E este, batendo na testa:

      – Ah, peraí! Já sei! Lá em casa tem duas cervejas. Fica uma pra você e outra pra mim. Vamos lá?

      – Vamos.

      E lá se foram os dois cambaleando. Chegaram na casa do Cornualdo, este advertiu:

      – Vamos entrar com cuidado, porque a minha mulher está dormindo, certo? Trate de não fazer barulho  .

      E entraram os dois na pontinha dos pés. Ao passar pela porta do quarto do amigo, o bêbado chamado Perolino comentou:

      – Eita! Vê lá, Cornualdo! Olha só quem está na tua cama, deitado com a tua mulher! É o nosso amigo Zé! Ele saiu mais cedo só pra vir comer a tua mulher!

      – Chiiiii… – cortou o Cornualdo – Fale baixo, senão ele acorda e nós só temos duas cervejas na geladeira!