Maternidade Colaborativa

15 de junho de 2016

O palpite de cada dia não dai hoje

Palpite

Significado

s.m. Palpitação.

Pressentimento, intuição, particularmente no jogo.
Bras. Fam. Opinião, sugestão de intrometido.

Você está com o tão esperado resultado de positivo nas mãos, é pura felicidade. E então começa a contar com muita alegria a grande novidade para os familiares e amigos. Perceba que nesse momento ocorre um fenômeno que acomete a maioria das pessoas ao saber da boa nova, o parabéns vêm acompanhado de um “conselho”, “palpite”, “pitaco”, “sugestão”, “opinião” ou “dica” sobre o que fazer ou não durante a gestação, nascimento e criação do bebê. Até quem não é pai ou mãe, se sente no direito de opinar. E ai de você se reclamar da “preocupação” das pessoas! A verdade é que o positivo, parece ser para algumas pessoas, um atestado de que elas sabem o que é melhor para a sua vida (e do seu filho) mais do que você.

Os “conselhos” começam logo no início da gravidez e geralmente em tom de preocupação: “Não coma tanto! Desse jeito você não vai voltar ao peso de antes” ou “Coma mais, você vai ficar anêmica!”. A barriga começa a aparecer e tem sempre um sem noção para perguntar: “Nossa, você está enorme! Tem certeza de que não são gêmeos?” ou “Menina, você está magra demais. Cadê a barriga?”. Até mesmo as mamães que já passaram por essa experiência e também sofreram com os “palpites”, nesse momento parecem sofrer de uma amnesia crônica e também dão “dicas” nada animadoras, tipo: “Aproveite para dormir agora, porque depois…” e caso você durma demais: “Se você dormir demais, seu filho vai ser preguiçoso”. Se você já tem filhos periga de ouvir coisas do tipo: “Grávida de novo? Agora chega, né?” “Faz uma cesárea e se opera, dois filhos está ótimo”. E sobre o sexo do bebê, se você já tem meninos: “Mais um menino? Puxa, você não deu sorte, hein!” ou se já tem meninas: “Outra menina? Seu marido não queria um menino dessa vez?” ou “O sonho de todo homem é ter um menino”.

A gravidez segue o seu curso, você escolhe o parto que deseja ter. Mas, se escolhe parto normal o veredito não é dos mais animadores: “Prepare-se para a dor do parto, é horrível”. Se o parto for humanizado então: “Isso é moda! Vai arriscar a sua vida e a do bebê” ou “Quem tem filho em casa é índio, você tá louca?” E se decide optar pela cesárea: “Mãe de verdade é quem sente a dor do parto”. Então, enfim, o bebê nasce e você acredita que agora os “pitacos” vão diminuir. Que nada! A sua certidão de incompetente vai ser dada agora. Afinal, você não sabe de nada sobre o seu filho, mas os outros sim. Se o bebê mama demais: “Esse menino mama demais, isso não tá certo!” “Ele vai mamar de novo?” “Seu leite deve ser fraco, não está alimentando o bebê”. Se o bebê mama, mas passa pouco tempo no peito: “Coloca esse menino pra mamar” “Essa criança só chora, você não deve ter leite”. Se você não pôde amamentar, mesmo que tenha sido por conta de algum problema não estará a salvo de julgamentos travestidos de palpites: “Você deveria ter pensado no seu filho e tentado mais”. “Mas você tentou amamentar? Mas tentou mesmo?” “Tem que ter paciência que o leite desce”. Se não pôde amamentar e deu logo a mamadeira aí prepara os ouvidos: “Nossa, tadinha da sua bebê. Nem criou um vínculo com você”.

Até onde e como o bebê dorme é motivo de “pitaco”, se dorme desde os primeiros dias no berço o “bebê está desamparado”, mesmo dormindo a dois passos do seu quarto. E se dorme na mesma cama com os pais: “Cama compartilhada? O bebê vai ficar dependente”. Se chupa a chupeta: “Vai querer largar o peito” , “Vai ficar com os dentes tortos”. Se não der a chupeta: “Dá a chupeta que ele chora menos”. “Chupeta acalma!” Se quando o bebê chorar você pegar no colo:“Esse bebê só quer viver de colo, tá deixando ele manhoso” ou “Não deixa o bebê chorar, dá colo pro coitado”. Se com o fim da licença maternidade você resolve parar de trabalhar para cuidar do bebê: “Só porque teve filho não quer fazer mais nada, só ficar em casa com o bebê”. Se resolve voltar a trabalhar e deixar com a babá “Filho que cresce sem a presença dos pais se tornam problemáticos” e se coloca na creche “Vocês são loucos, deixar o filho com gente que nunca viu na vida?!”

Em resumo: nada do que você faça vai agradar a todo mundo. Siga os seus instintos maternos, eles sempre estarão certos. E abstraia os comentários alheios que não te fazem bem. Filtre o que ouve, o que fala, com quem fala e quem quer por perto. Ser mãe é uma tarefa árdua, que requer muito sacrifício e dedicação, mas nesse caminho o que mais se encontra é criticas. E o pior que, na maioria das vezes, vem de familiares, amigos e outras mães que sentem prazer em questionar e criticar para se sentirem mais mães. Quando o certo seria ficar ao lado e dar apoio, isso sim faz toda a diferença. A gente já se cobra muito, e pra falar a verdade, vamos continuar nos cobrando sempre. Mas, que seja por motivos nossos e não dos outros. Todo mundo tem uma receita diferente e milagrosa de como criar um filho, e aí minha amiga, se a sua receita difere da receita da colega, para ela você vai estar sempre errada. Limite o poder que as pessoas têm em dar “opiniões” na criação dos seus filhos, isso vai te fazer ver que você não é uma mãe perfeita e nenhuma mãe é, mas pro seu filho, você é a melhor mãe do mundo. Porque ser mãe é dormir e acordar se questionando sobre o que é melhor para seu filho. Já bastam as autocobranças e culpas que nós carregamos, não é necessário a de mais ninguém, até porque cada um sabe “onde o calo aperta”.

 

Joelma Leite é mãe, jornalista, empreendedora, escritora de gaveta, acredita que visibilidade materna importa, adora boas histórias e compartilhar conhecimento.