Ailton Villanova

10 de junho de 2016

Um suicida bastante azarado!

     Décadas atrás, a birosca do Timotão, um negão de muitos músculos e juizo de ameba, ficava dependurada no precipício da antiga Borracheira, pedaço acidentado entre o distrito do Mutange e o bairro do Pinheiro, jurisdicionado a Bebedouro, é hoje considerada área nobre, porque é habitada por gente considerada da classe média alta. 

     Naquela época, o boteco do Timotão era frequentado pelo fino da malandragem da parte alta da cidade e por boêmios de Bebedouro.  Volta e meia um conflito. A polícia não desgrudava o olho de lá.

     Belo começo de noite, ambiente superlotado, cheiro forte de maconha e de bebida de terceira classe, eis que adentrou ao recinto o valentão conhecido como Paulão Cabeça de Baleia, que parou no meio do salão e começou a xingar todo mundo. Em seguida, aplicou um chute na primeira cadeira que encontrou pela frente e perguntou:

     – Alguém aqui achou ruim? Se achou, corra dentro!

     Evidentemente que ninguém se manifestou, porque Paulo Cabeça de Baleia era muito temido na Borracheira e recondezas.

     Mais uma vez ele provocou:

     – Tem homem aqui nesta merda?

     Silêncio no recinto e ele insistindo:

     – Tudo aqui é corno e puto!

     No fundo do boteco, com um copo na mão, um baixinho parecia ignorar a presença do brabão. E ele, alterando:

     – Cadê o macho? Tem macho aqui?

     Em dado momento, ele correu a vista pelo ambiente e notou a figura do baixinho. Então, dirigiu-se à pessoa deste com passos pesados, tirou o copo de sua mão e bebeu todo o líquido de uma vez só.

     – Porra meu louro! – reagiu o baixinho.

     – Quê que foi, ô palhaço? Não gostou? – provocou novamente o negão.

     – Gostei não. Se você quer mesmo saber, eu tô achando isso tudo um absurdo! Eu me levantei cedinho com uma dor de cabeça terrível, entrei no banheiro pra tomar banho e a porra da água acabou na hora em que eu estava todo ensaboado. Saí do banheiro, briguei com a mulher e me mandei de casa, puto da vida. Então, na ida pro trabalho, peguei um ônibus lotado pra cacete e terminei discutindo com o cobrador, por causa do trôco! Quando cheguei no emprego, veio o meu chefe e achou de pegar no meu pé, porque eu estava atrasado. É claro que eu fui obrigado a lhe dizer uns desaforos. Como revide, ele  me despediu. Sem emprego, eu estava voltando pra casa com a grana da demissão no bolso, quando fui assaltado no caminho. Perdi tudo! Sem lenço, sem documento e sem nada, tive de voltar mais cedo, e aí me deparei com uma cena terrível: minha mulher, na cama, me traindo com o meu próprio irmão. Fiz meia volta, corri pra rua e entrei aqui no bar, disposto a acabar com esta vida de cachorro. Foi quando chegou você, seu idiota, e tomou o meu veneno todinho!

 

 

Certo marido colaborativo

 

     Doutor Jacques Lôbo, baixinho desabotinado, era juiz de direito em Marechal Deodoro quando, um dia, baixou no seu gabinete de trabalho uma madame se lastimando toda, porque o marido a havia abandonado, para amancebar-se com outra. O magistrado mandou chamar o cara e lascou lá:

     – Você não devia ter feito o que fez com a sua mulher, seu cabra de pêia. Aqui está a minha decisão: resolvi conceder-lhe o desquite. Vou também dar pra ela uma pensão de dez mil cruzeiros por mês, tá ouvindo?

     E o marido:

     – Ótimo, excelência! Pode deixar que de vez em quando eu também vou ajudar com uns trocados…

 

 

Prefeito inteligentemente prevenido

 

     Muito conhecido com um sujeito de bom coração, certo político resolveu candidatar-se a prefeito. Durante a campanha visitou mundos e fundos, até que baixou num hospital que mantinha uma ala para pacientes comprometidíssimos com o vírus HIV.

     Percorrendo corredores do hospital e conversando com funcionários e pacientes, o cara dava a entender que conhecia muito bem a doença provocada pelo HIV, a terrível Aids. Para mostrar que não estava brincando, pediu que o sangue de um dos pacientes infectados fosse injetado numa de suas veias. Seus assessores tentaram demovê-lo da idéia, mas ele sorriu tranquilo e insistiu na transfusão. Depois do ato consumado, um dos seus seguidores falou ao seu ouvido:

     – O senhor é louco! Acabou de contrair Aids!

     Mas o político, tranquilão, retrucou:

     – Você pensa que eu sou trouxa? Eu estou usando camisinha!

 

 

O prevenido que se despreveniu

 

     Madame Esmeralda inspecionava a dependência da empregada de sua casa, quando teve uma surpresa altamente comprometedora. Furiosa, ela procurou a criada e perguntou:

     – Ô Nivalda, o que os chinelos do Guido estão fazendo embaixo da sua cama?!

     – Ah, patroa, sei não!

     – Como não sabe? Não seja cínica, menina! Os chinelos do meu marido estão aí embaixo da sua cama, e você vem me dizer que não sabe como eles vieram parar aqui?!

     – Como é que eu posso saber, dona Esmeralda? Toda vez que seu Guido vem pra cá, ele já vem descalço.

 

 

Banana não é a solução!

 

     O velho Antupatro Alimonda dava um passeio na orla marítima, ocasião em que encontrou o amigão dos tempos de boemia, Cleophas Nepomuceno, que andava devagar, entronchando-se para um lado:

     – Ô Cleophas, o que é que você tem, que tá andando todo envergado?

     – Diarréia. Tô mijando pelo fiofó, que nem pato!

     – Você já experimentou banana verde?

     – Não!

     – Pois banana verde é bom pra caganeira.

     Dia seguinte os dois voltaram a se encontrar e seu Antupatro disparou de lá:

      – Melhorou, Cleophas? A banana resolveu?

      – Em parte, Antupatro, em parte.

      – Como assim?

      – É que toda vez que eu tiro a banana, a diarréia recomeça!

 

 

No inferno vai demorar mais!

 

     Um tal de Antimônio Praxímedes morreu biritando, lá pras bandas do Barro Duro. Quado foi aberto no IML (o SVO ainda não existia), o legista Luiz Fernando Silva de Barros tomou o maior susto:

     – Ué, cadê o fígado do cara?!

     O fígado do infeliz havia derretido. No seu lugar só existia mesmo a mancha.

     O único bem que Praxímedes deixou em cima deste mundo foi a viúva Deusdete, muito gostosa, por sinal. Semana e meia depois de o marido ter batido as botas, ela já estava na cama com um tal de Animedes, melhor amigo do finado.

      No meio da transa, o relógio despertou, justo, a meia-noite. Animedes arrepiou-se todo:

      – Vixe Maria! E se o espírito do Antimônio aparecer?

      A viúva tranquilizou:

      – Fique frio, meu amor. Se antes de morrer ele nunca chegava antes das 3 da madrugada, imagine agora que está no inferno!

 

 

Serpente bastante requisitada

 

     Muito jovem, doutor Lisymaco Villanova foi nomeado juiz de direito de determinada comarca do interior de pernambuco. Já chegou lá botando ordem: venda de cachaça, nem ver!

     – Cachaça só pode ser vendida, em casos excepcionais: como  remédio para alguém que for picado de cobra – sentenciou o novo magistrado.

      Cientificado disso, um visitante procurou saber de seu Edézio, o dono da padaria, se havia muita cobra na cidade, ao que ele respondeu:

      – Tem uma lá na pracinha, mas o senhor vai ter que entrar na fila!