Ailton Villanova

4 de junho de 2016

Ora, viva o donzelo!

     Filho único do professor Josaphat Pitombeira e de sua digna consorte dona Eustáquia, e porisso muito mimado, o Aglaíldo (Gla-gláu para os mais chegados) era uma rapaz muito tímido. Aos 20 anos de idade nunca tido uma experiência sexual, nem de um lado e nem do outro, o leitor entende.

     Uma bela tarde, Gla-gláu entrou em casa com um papo revolucionário, que deixou os seus velhos de cabelos arrepiados.

     – Vou me casar! – anunciou de chôfre.

     – Ai, meu Deus! Esse menino endoidou! – alarmou-se a mãe.

     Professor Josaphat ficou mudo por alguns instantes. Quando a fala retornou, ele disse, num fio de voz:

     – Será que você sabe o que está fazendo, meu filho? Quem é a moça, podemos saber?

     – É a Leninha, filha do seu Agajoel…

     Leninha era uma bela moça. Religiosíssima, seus pais estavam até inclinados em mandá-la para um convento de freiras, em Salvador. É que, antes de conhecer o Gla-gláu, a moça não largava um rosário e assistia missa todos os dias. Seu aspecto casto, puro, lembrava a imagem de uma santa.

     A notícia do casório de Aglaído com a angelical Leninha correu célere por toda a zona da mata, onde os pais de ambos possuíam vastas terras, e todos ficaram imaginando que eles, de tão tímidos e donzelos, não iriam conseguir nada na lua-de-mel. Houve até quem fizesse aposta.

     Os garotos contraíram núpcias e se mandaram par a lua-de-mel. A mãe de Gla-gláu ficou morrendo de preocupação e, como também era muito tímida, não teve coragem de explicar pro filho como era que ele devia fazer a coisa, na horizontal.

     Semana e meia mais tarde, os pombinhos estavam de volta com as mesmas carinhas de sempre. Seus respectivos pais deram uma festa para familiares e amigos mais próximos, na fazenda do professor Josaphat, localizada nos arredores de Quegrangulo. Durante o ágape, todos ficaram reparando no inocente casalzinho, tentando advinhar se o Gla-gláu tinha dado conta do recado. Lá pelas tantas, seu Godofredo, o avô da menina, estimulado pelos incontáveis grogues que havia tomado, começou a contar lorota:

      – Uma certa manhã, eu estava deitado na minha rede, bem no meio da mata, quando escutei o ronco de uma onça…

     A galera ficou atenta, inclusive os noivos.

     E o velho, continuando:

     – Abrí a barraca pra ver direitinho a cara da bicha. Aí, ela me viu. Naquilo que me viu, arreganhou aquela boca enorme e deu outro berro!

     E todo mundo, inclusive os casadinhos:

     – Oooohhhh…

     – Naquilo que deu o berro, a filha da bubônica da onça pulou pra cima de mim. Aí, me abaixei e ela foi cair bem do lado do meu empregado Severino e, fechando a boca, com vontade, comeu de uma só vez as partes proibidas do infeliz do negro!

     Nessa altura, todos muito ligados, a noivinha percebeu o que foi que a onça tinha comido, levou a mão ao rosto, assustada, e perguntou ao avô:

     – Mas a onça comeu… com o ossinho e tudo, vô?

     Foi nesse ponto que todos se voltaram para o rapaz tímido e tido como donzelo, e o aplaudiram demoradamente… com palmas e vivas!

 

 

Mas o nome disso é piruêta?!

 

     Neidinha e o gaúcho Perigeu se conheceram durante um estágio de odontologia em São Paulo. Quando estava de volta à sua terra natal, Palmeira dos Indios, ela trouxe o namorado para conhecer os pais, que residiam numa bonita fazenda na zona rural do município agrestino.

     Logo no primeiro dia, a mãe da jovem odontóloga, dona Delzuíta, saiu com o casal num passeio a cavalo. No meio do caminho, o animal espantou-se com alguma coisa, deu uma empinada e a velhota estabacou-se no chão, com as pernas arreganhadas, pondo tudo à mostra, pois estavam sem calcinha. Com tremenda agilidade, ela deu um salto e ficou em pé. Sem graça, a mocinha perguntou ao namorado:

     – Amor, viu a piruêta da mamãe?

     E ele:

     – Piruêta, é? Que interessante! Na minha terra a gente chama de xoxota!

 

 

Faltou pouco pro flagrante!

 

     Avisaram ao vigia noturno Ofrísio Cornufácio que a mulher dele andava lhe enfeitando a testa. E deram até o nome do causador do incômodo: um tal de Liberalino, vendedor ambulante de pães.

     Ofrísio invocou-se todo:

     – Eu vou ter que resolver esse negócio na base do tiro! Ou aquele fidapeste, ou eu! Galhudo e desmoralizado eu não fico!

     – Vai com calma, Ofrísio! – ponderou o denunciante, um tal de Chico da Dinha. – Tu ve aí, hein?

     – Calma o cacete! O corno sou eu!

     O que fez, então, o infeliz? Resolveu armar um flagrante. Na noite seguinte, fingiu que ia trabalhar e ficou de butuca na esquina de casa. Não demorou muito, olha o pãozeiro pintando na parada!

     Assim que o “pé-de-pano”, entrou na sua casa, Ofrísio correu pra lá e ajustou o olho numa fresta da janela do quarto. Aí, viu a mulher tirar a roupa. Viu também o pãozeiro fazer a mesma coisa. Viu, em seguida, os dois rolarem em cima da cama. Na hora em que estavam chegando pro “finalmente”, veio o apagão. Blecaute total. Ofrísio não conseguiu ver mais nada.

      Revoltado, ele desabafou:

      – Essa não! Logo na hora que eu ia dar o flagra, a luz achou de faltar! Amanhã vou reclamar na Ceal!

 

 

Que desperdício, pô!

 

     Depois de tomar todas, num boteco do bairro da Pitanguinha, o tal de Drupélio Cartaxo, cuja residência ficava no distrito da Cambona, resolveu descer o morro na base do “amor febril”. Tropeça aqui, tropeça alí, e eis que, repente caiu com a cara dentro de uma lata de lixo, no meio do caminho. Do jeito que caiu, ficou com o traseiro voltado pra cima e a cara enfiada lá dentro. Na dobrada que deu na cintura, o cinto quebrou, a calça arriou e ele ficou, exposto à luz da lua, redondinho e branquinho.

      Daí a pouco vai passando outro bêbado, que fica parado e olhando para aquele negócio. Respira fundo, balança a cabeça e exclama:

      – Que desperdício, meu! Uma bunda tão novinha dessa, jogada no lixo!