Rívison Batista

28 de Maio de 2016

A bestialidade (ou 'a crônica dos abusos diários')

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Um homem chegou em casa bêbado e bateu na esposa. Aquela face, antes acariciada, agora tem um hematoma. Ela se olhou no espelho e chorou, enquanto ele foi dormir sem tirar o terno. No outro dia, ele pede desculpas e diz que não era ele. Ela não o denuncia porque tem mais medo de ter um marido preso do que das agressões. Passa uma maquiagem e sai com uma máscara escondendo a verdade nas ruas. A bestialidade mente. A sociedade, tal como a bestialidade, precisa da mentira.

Ele não gosta do emprego e sempre chega com um sorriso no rosto. O chefe o chama de idiota e os dois riem juntos. Ele doma sua raiva e oferece a ela um salário. Ele vende todo dia a dignidade para pagar as contas no fim do mês. “Se um dia eu receber um processo por assédio moral, você não arranja mais emprego nesta cidade”, diz o chefe. Ele agora tem hipertensão, mas precisa ter um emprego para sustentar a filha. Ele é refém das necessidades (e de um chefe sádico). A bestialidade adoece. A sociedade, tal qual a bestialidade, fabrica seus doentes.

Uma moça passou mal em frente a um hospital particular. Vomitou sangue na calçada do local. Se debruçou no chão da rua e tossiu até desmaiar. Populares então a levam para dentro da clínica. “Verifiquei a identidade dela e seu plano de saúde não atende aqui”, diz a secretária. “Mas ela está muito mal”, responde um popular, que só escuta como resposta um 'sinto muito'. A ambulância leva a moça para um hospital público. Pálida e inconsciente, é deixada em cima de uma maca no corredor do hospital, onde vem a falecer. O médico, que não teve como honrar seu juramento por falta de investimentos públicos, constata o óbito. A bestialidade mata o corpo. Para a sociedade, virou apenas uma estatística.

Uma jovem de 16 anos vai a um baile. Ela vai com vestido curto. Ela provoca muitos homens dançando sensualmente. Toma um pouco de cerveja e, um pouco bêbada, sai com um grupo de homens. Os homens a levam para um quarto e, um por um, em um total de 30, violentam a garota desacordada. Ela chora, pede pra parar, e eles filmam e compartilham a vergonha da menina para o mundo. Ela sangra e acha que vai morrer. Às vezes, tem a sensação que é um pesadelo. Ela então acorda sozinha e percebe que os criminosos se foram. Está viva? Aparentemente sim. Mas por dentro, em um lugar chamado consciência, ela foi despedaçada. “Antes eu tivesse sido baleada”, pensa. Está morta por dentro. Não foi castigada por ser viciada em drogas. Levou a punição máxima só por ser mulher. A bestialidade devora almas. A sociedade arma o tribunal e apedreja vítimas e acusados.

 

*Rívison Batista é jornalista