Rívison Batista

13 de Maio de 2016

A Extinção – Parte 1

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De mãos dadas com a namorada, o jovem anda com a amada no calçadão da praia, tendo todo o horizonte do mar como cenário. Diagnosticado na última consulta ao psiquiatra como portador de 'apocalipsia' (síndrome que a pessoa imagina constantemente cenários para o fim do mundo), o rapaz tenta se conter e não olha para o mar. Porém, após um longo abraço, seus olhos visualizam a linha do horizonte e ele fica paralisado. Um asteróide gigante rasga as nuvens e vai em direção ao oceano. O barulho ensurdecedor o faz tremer. “José, o que houve? Acorda”. A namorada, Maria, balança as mãos de José, que volta a si, respira o mais fundo que pode e se senta no chão do calçadão. Com o rosto pálido e feição de desespero, o jovem só repete: “Que loucura, meu Deus, que loucura”. “Certamente tua imaginação lhe pregou outra peça. Meu bem, quando isso vai parar? Você está tomando remédios faz tempo”, diz a mulher, também sentando no chão e agarrando José num abraço. Naquele instante, depois de sua mais chocante visão, o rapaz pensa sobre a vulnerabilidade da vida. “Estamos juntos e, um dia, poderemos ter filhos. Diante disso, como lidar com o fato que somos frágeis e podemos sumir quando menos esperamos?”, pergunta para a moça. “José, não vamos ser extintos”, diz Maria. “Como não? Estamos destinados a sumir. Aquela estrela ali, que chamamos de Sol, daqui a alguns bilhões de anos vai aumentar exageradamente de tamanho e incinerar a Terra. Mas dizer que a vida neste mundo acaba com isso é muito otimismo. Muito antes já devemos ter explodido este planeta. A raça humana vai ser a causa de extinção dela mesma”, declara o jovem. Recuperado do surto, os dois retomam a caminhada.

“Maria, sabia que a civilização maia, um dos povos mais avançados da América antes da chegada dos europeus, sumiu de repente? Pesquisadores ainda não sabem ao certo o motivo”, divaga José. “Então, vamos aproveitar enquanto não sumimos também”, responde a moça gargalhando. Ainda tentando puxar assunto, o rapaz continua. “Sabe, Maria. Tenho amigos nada exemplares. Um deles acha que a única finalidade de um casal é procriar, para dar prosseguimento à espécie. Quando perguntei a ele 'e as pessoas que se relacionam com outras do mesmo sexo?', ele riu e disse que era uma tentativa da natureza de frear o crescimento da humanidade”. “José, você sabe que gosto dos dois lados, não é?”, questiona Maria. O rapaz balança a cabeça positivamente. “Então, José… Você me faz a pessoa mais feliz do mundo. Mas, se por infelicidade terminarmos e, um dia, eu ter uma parceira, eu posso lhe afirmar que ela também me fará a pessoa mais feliz. Pensar que o amor tem apenas a função social de procriação é eliminar uma parte da essência humana. É mais fácil sermos extintos vítimas da estupidez”, diz a moça de personalidade forte. Após a fala de Maria, José paralisa mais uma vez. Sem razão aparente, o jovem não tira os olhos de um grupo de pessoas com celulares nas mãos. São jovens se divertindo com smartphones. Mas o que José vê é bizarro. Uma graciosa garota que se divertia olhando a tela do celular agora tem olhos mecânicos. Um homem é morto a facadas ao lado dela e ela apenas dá risadas com o celular. Ao mirar os olhos mecânicos, similares a lunetas, para a cena do crime, apenas consegue tirar fotos da vítima agonizando. “Preciso filmar também. Não morre agora!”, ordenava a garota em voz alta.

“Acorda, José! Chega. Vamos embora”. E puxando José pelo braço, Maria para o primeiro táxi que vê. O rapaz, com um semblante extremamente triste, parece não entender o porquê de ver tais coisas. Ao parar no sinal vermelho, tiros são escutados. O casal e o taxista se abaixam e se protegem como podem. Quando o tiroteio acaba, o casal avista uma mulher, aparentemente inocente, caída na calçada, baleada no tórax. Um homem se aproxima, pergunta qualquer coisa à vítima, ainda consciente, alisa o cabelo da mulher, pega a bolsa dela e sai andando apressado. José pergunta a Maria se ela viu o que ele viu, e Maria diz que aconteceu de verdade. José então conclui que a realidade pode, por si só, produzir cenas que nos fazem pensar que nosso fim se aproxima.

 

*Rívison Batista é jornalista [obs.: os personagens descritos acima são totalmente ficcionais]