Ailton Villanova

11 de Maio de 2016

Ah, eram as amídalas!

     Seu Diolindo da Hora andava com um bafo de onça danado, terríveis dores de cabeça e, de vez em quando, febre alta e moleza nas canelas. Distanciado   de médico desde o falecimento de dona Felismina, sua esposa, ele se mandou de Palestina e veio bater em Maceió à procura do filho Josuel, que mora no Jacintinho. Contou seu drama pra ele que, a muito custo, conseguiu convencê-lo consultar-se com o doutor Délio Almeida, competentíssimo otorrino aqui das Alagoas.

     Délio meteu o seu olho clínico no matuto e sapecou, ligeirinho, o diagnóstico:

     – O seu problema, seu Diolindo, é amidalite!

     O velho espantou-se:

     – Arre égua! Qui danado é isso, dotô?

     Délio respondeu no linguajar popular, à altura do entendimento do paciente:

     – Trata-se de uma apustemação nesses dois caroços que o senhor tem por dentro de cada banda da guela… entendeu?

     – Intendi. Vosmicê vai me dá um remeidinho pra mode eu ficá bom?

     – Vou fazer mais que isso, seu Diolindo… Vou lhe tirar essas amídalas podres, pra não lhe causar mais problemas…

     O matuto deu um pulo para trás:

     – De manêras argume, dotô! Hôme ninhum im riba deste mundo me arranca as côiza, se num fô o cumpáde “Mané Dotô”…  

    – Ah, o senhor tem um médico de confiança… Ótimo!.

    – Pra lhe dizê a verdade, cumpáde Mané Dotô num é médico assim qui nem sua pessoa, mas é cuma se fosse, num sabe? Eu só cunfio nele!

     Não houve quem segurasse seu Diolindo da Hora no consultório do doutor Délio Almeida. O velho girou nos calcanhares e disparou pra rodoviária. Pegou o ônibus e voltou pra sua terra. Assim que chegou lá, correu até farmácia do Manuel Doutor e informou à ele:

     – Tô chegando do tár de médico de Maceió!

     – E o que foi que ele disse? – indagou o Manuel, cheio de curiosidade.

     – Pelo qui intendí, vosmicê vai tê qui me cortá os quiba!

     – Valei-me meu Padim Ciço! O sinhô dessa vêis indoidou!

     – Indoidei, não! O dotô da capitá falô quiéra pra mode operá os testíclo! Pelo qui seio, testiclo é quiba!

    Manuel Doutor providenciou os preparativos para a cirurgia, conforme sempre fazia na maior impunidade, e chamou na grande, isto é, passou a faca nos testículos do velho Diolindo, assim como se faz na castração de um animal.

     Um mês depois, Diolindo da Hora voltou ao consultório do doutor Délio Almeida, para lhe dizer que, apesar do ato cirúrgico ter sido realizado com êxito, o problema na guela tinha se agravado.

     – Não é possível! – exclamou o médico. – O seu médico fez mesmo a extração das amídalas?

     E o matuto, batendo com a palma da mão na testa:

     – Iiih, dotô! Cumpriquei tudo! Era as amíugulas!

 

 

Mal da unha

 

     Lá pras bandas do Sertão, mais precisamente Santana do Ipanema, prenderam um tal de Leopoldino da Guiné, a quem acusavam da prática de canibalismo. Na época, o delegado regional era o finado coronel PM Cícero Argolo, que tinha quase 2 metros de altura. Por sinal, era tio de Gerson Argolo, também de saudosa memória coronel PM e bacharel em Direito.

    Bom. Levaram o Xavier à presença de Argolão (era assim que os amigos o chamavam), que nesse dia estava com humor de santo. Naquilo que ele botou o olho no acusado, foi logo perguntando:

     – Quer dizer que você é chegado a uma carnezinha de gente, hein?

     E o Xavier, olhando pro chão, dando uma de acanhado:

     – Às vêis, seu coroné…

     – Tá bom. Agora me responda: como foi que você se tornou comedor de carne humana?

     – Eu cumecei ruendo unha, seu coroné!

 

 

Muito legal!

 

     A delegada Maria Aparecida Araújo era a titular da Delegacia Especializada de Defesa da Mulher – onde realizou um trabalho digno, decente, isento, insuperável -, quando recebeu em seu gabinete a jovem Maria Cícera, que se fazia acompanhar da mãe Maria José e do pai José Francisco.

     A mãe falou, cheia de revolta:

     – Minha filhinha foi desmoralizada, doutora! Um maloqueiro chamado Neném Galinha fez misérias com a coitadinha. Ela tá que não pode nem caminhar direito. Tá com tudo esculhambado lá por baixo…!

     A delegada escutava calada a falação da mãe da moça:

     – O que merecia um condenado desse, me diga doutora? Não merecia ser capado?

     Aparecida virou-se para a ofendida, que se mantinha toda humildezinha no seu cantinho:

     – Me conte direitinho como foi que aconteceu essa desgraça, minha santa. Não me esconda nada. Fale tudo, vamos!

     A mocinha levantou a vista e disse:

     – No começo doeu muito, sabe? Mas, do meio para o fim… foi legal às pampas!

 

 

O cúmulo do preconceito

 

     Os negrinhos Benedito da Silva e José Severino, trabalhadores braçais, caminhavam tranquilos pelo acostamento de determinada rodovia interiorana quando, de repente, surgiu um carrão conversível, puxando mais de 200 k/h e – pimba! – pegou a dupla.

     Benedito José voou longe. Caiu estatelado no asfalto, botando sangue pela boca. Foi socorrido pelos ocupantes de uma caminhoneta que passava pelo local, e levado pro hospital. O outro, Severino, teve melhor sorte: depois de haver rodopiado no ar, caiu no banco traseiro do automóvel. Nem um arranhãozinho, sequer!

     Em poucos minutos chegou a polícia no local, com o delegado à frente, um galego barrigudo da cara de buldogue, cheio de direito. No local ouviu o motorista – um rapazinho inabilitado, filho de importante político da região. Depois, pegou o negrinho Severino pelos sovacos, jogou no camburão e o levou à delegacia. Chegou lá, ordenou pro escrivão:

     – Autua esse safado!

     – Baseado em quê? – quis saber o escrivão.

     O delegado pensou um pouco e, por fim, definiu:

      – Invasão de propriedade! Esse nego safado invadiu o automóvel do filho do deputado (e disse o nome do figurão).

      Depois de breve pausa, o delegado continuou:

      – Quando terminar de autuá-lo, faça um oficio ao doutor juiz, solicitando a prisão preventiva do colega dele, um tal de Benedito da Silva, tremendo meliante…

     – Por qual motivo, doutor?

     – Abandono de local de crime!

 

 

Família degenerada

 

     Dois compadres interioranos, que há muito tempo se viam, se encontraram na feira de Palmeira dos Indios. Um deles deles perguntou:

     – Cuma vai vosmicê e a sua famía, cumpáde Adorfo?

     Compadre Adolfo respondeu:

     – Vai tudo bem, cumpade Tota…

     – E as tua fía cuma vão? A mais véia tá boa?

     – Oia, cumpáde, a mais véia só tem um pobrêma, ela trepa dimais! Cumpáde, mái trepa qui nem doida!

     – Vixe, cumpáde! E a do meio?

     – Óie, a do meio tomém gosta de trepá! Mas trepa, trepa, qui nem maluca, iguarzinho à ôtra!

     – Mái num é pussíve! E a mais nova, será qui tem o mêrmo pobrêma?

     – Ah, essa num tem não…

     – Grazadeus!

     – O pobrêma da mais nova é ôtro. Ela só trepa quando bebe. Mái cumpáde, ela bebe, bebe, bebe…