Ailton Villanova

3 de Maio de 2016

Bom de batuque

     Na época em que o capitão Virgulino Ferreira, o proverbial e indefectível Lampião andava pelejando pelas regiões agrestinas e sertanejas de Alagoas, Pernambuco, Sergipe e Bahia, existia na banda de cá, um certo major Ariosto Febrônio, que era brabo virado no cão.

     Ariosto Febrônio era dono de um mundão de terras no Agreste e no Sertão alagoanos. Intolerante, malvado e vaidoso, ele só respeitava (aliás, não respeitava: temia!) um único homem em cima desta terra: Virgulino Ferreira.

     Uma noite, Ariosto Febrônio tentava pegar uma madorna ao balanço de uma rede, no alpendre de casa, quando começou um baticum no alto da serra. Toda vez que o major fechava os olhos, as batidas aumentavam – bum… bum… quitibum… burugudum…

     – Peraí qui eu vô acabá cum esse furdunço! – bradou o major.

     Dito isto, levantou-se segurando as calças e gritou pro terreiro, chamando o capataz:

     – Ô Laéuço!

     – Inhô?

     – Ô fidaégua, vai lá im cima da serra e fura aquele zabumba na base do punhal!

     Bem mandado, o capataz montou num cavalo e disparou pra lá. O tempo foi passando e nada do Laércio voltar. E o zabumba barbarizando – bum… bum… praticubum… paragubum…

     Uma hora, hora e meia, duas horas… e cadê o capataz? O major chamou um jagunço e ordenou:

     – Zé Pêdo, sobe lá, toca fogo no zabumba, sangra o infeliz qui tá tocando nele, e tráis o Laéuço pelas urêia!

     Zé Pedro chamou as esporas no cavalo e se perdeu no negrume da noite.

     E o zabumba, ó, bum… bum… prucubum… bum… praracubum…

     Nem sinal do Laércio, nem sinal do Zé Pedro. Major Ariosto foi à loucura. Dessa vez ele apelou pro jagunço-mor:

     – Filiço, pegaí a jagunçada, vá lá na serra, passe a espingarda no severgônho qui tá tocando o zabumba e no resto dos safado que incrontá pur lá. Num quero um vivo!

     Aí foi que a zuada do zabumba aumentou de tom: buuummm… bumbumbuuummm… bum… praticubum… bum…

     Ariosto não teve outra alternativa:

    – Agora quem vai lá é eu! Vô amostrá pra esses  cuvardo, cuma é qui um cabra macho acaba com uma cachorrada!

    E lá se foi o major, espumando de raiva, montado no seu alazão.

    Quatro horas da manhã, o zabumba batendo firme. Nem capataz, nem jagunços e nem o major davam sinais de vida. Precocupada, dessa vez quem resolveu subir o morro foi dona Vitalina, mulher do major.      

    Acompanhada da criada Maria, ela queria ver o que estava acontecendo lá em cima, na serra. No que foi chegando, major Ariosto correu ao seu encontro de braços abertos e na maior euforia:

     – Muleeerrr! Vem arrepará  cuma o capitão Virgulino bate tão bunito no zabumba! Ele num é uma graça?

 

 

Enfia o defunto no…”

 

     Desde que se aposentou, seu Linduarte Efendrino pegou uma insólita mania: acompanhar enterros. Mas não ficava só nisso. Ele tinha que segurar numa das alças do caixão do “de cujus”, nem que fosse por alguns segundinhos.

     A mania de seu Liduarte chegou a tal ponto, que ele se mudou pra uma casa bem próxima do cemitério, que era o do Jaraguá. Aí, ficou uma beleza! Seu Linduarte não perdeu mais um enterro, pelo menos naquele “campo santo”.

     Belo dia, encontrava-se tomando uma fresquinha debruçado na janela, quando escutou aquele rumor cortejo fúnebre se aproximando.

     O velho correu pro quarto, abriu o guarda-roupa, tirou de dentro o terno preto, vestiu-o às pressas a pinoteou na rua, justo na hora em que o féretro ia passando.

     O enterro era de gente fina, todo mundo bem trajado. E o caixão? Uma beleza! Madeira nobre, entalhes perfeitos, verniz fino, lustroso, como manda o bom gosto.

     Seu Linduarte ingressou no cortejo estourando de satisfação, e logo tratou de ir-se chegando pra perto da urna funerária. Deu um tempinho, ofereceu-se para ajudar naquele condolente transporte. Mas, quando tentou pegar na alça do caixão, um senhor idoso que a empunhava, replicou:

      – Obrigado, meu amigo, mas não posso… Era o meu filho do coração.

     Meio chateado, seu Lindu recuou. Não demorou muito, atacou a alça que era segura por um rapazinho, mas este o tirou de tempo:

     – Obrigado, meu velho. Mas eu quero levar o meu pai até sua última morada! – e segurou firme na alça.

     Desesperado, o velho tentou as quatro alças que ainda restavam. Cada um tinha um forte motivo para não largar a sua e nenhum cedeu.

     Muito decepcionado, o velho Lindu parou no meio da jornada. O cortejo foi passando e ele lá, paradão. Quando todo mundo já estava distante uns 30 metros, ele pôs as mãos em concha em redor da boca e gritou:

    – Enfia o diabo desse defunto no rabo, magote de pestes!

 

 

Inimigo nenhum!

 

    Seu Josaphat Venerando, conhecido como “Véio Garruêra”, é um pistoleiro aposentado. Dizem que ele matou mais de duzentos cristãos, numa boa. Bastava ele pegar na fotografia do futuro finado e já dizia entre dentes:

     – Num cunhêço o dizifiliz, mas já tô odiando ele!

     Num belo dia como este, num papo com vizinhos na porta de casa, ele se gabava:

     – Vô interá 93 ano e num tenho inimigo ninhum em riba deste mundo!

     – Nem pra remédio, seu Garruêra? – provocou um dos vizinhos.

     – Nem pra isso.

     – E como foi que o senhor conseguiu essa façanha?

     O velho respondeu tranquilo e calmo:

     – Matei todos eles!

 

 

Melhor é aquele que dá câncer!

 

     O bêbado entrou tropeçando numa lanchonete da orla marítima, e foi direto ao balcão. Chegou pro cara do caixa e pediu:

     – Ô meu! Me dá um maço de cigarros, por favor!

     O caixa deu um maço de cigarros, o bêbado pegou e foi andando. Na hora em que se preparava para abrí-lo, ele leu o aviso: “O Ministério da Saúde adverte: fumar causa impotência sexual”.

     O bêbado não contou conversa: deu meia volta, entrou de novo no bar e apelou pro caixa:

     – Ô meu chapa, tu faz um favor pra mim? Troca esse maço de cigarros por um daqueles que dá câncer no pulmão!