Rívison Batista

26 de Abril de 2016

Amordaçados

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Em uma tribo distante, em uma época que não é a atual, seres humanos elegeram um líder. O eleito fez promessas, mas não cumpriu a maior parte delas. O líder não foi corrupto, mas foi altamente falho. Afinal, não é fácil ser visto como líder quando, na verdade, há vários subcomandantes. Cada subcomandante tem a função de criar regras para a grande tribo, porém a maior parte desses líderes secundários não faz nada, ou pior, eles criam regras em benefício próprio. A união de um líder pouco eficiente (mas não corrupto) com líderes secundários corruptos fez nascer o caos na tribo. Houve falta de água e de comida. Houve falta da ração para cavalos. Houve epidemias de doenças transmitidas por insetos (também faltou inseticida). Diante da crise, o povo olhou para o líder incompetente e o culpou por todos os males.

“Os sete selos foram abertos nesta tribo. Os quatro cavaleiros estão espalhando fome, morte e doenças. É tudo culpa daquele que se acha líder”, gritava um nativo mais exaltado. O povo, de repente, esqueceu que existiam subcomandantes e que eles eram responsáveis por criar leis. Tais leis ou projetos de leis poderiam curar a maioria dos males da tribo, se não fosse pela falta de caráter de muitos. Os subcomandantes, por outro lado, viram vantagem em uma revolta popular apenas contra o líder. Eles sabiam que poderiam colocar quem quiser no poder, já o líder foi eleito pelo povo, que não era unido. Parte do povo queria voltar no tempo quando era comandado por líderes que aprovavam regras silenciadoras. Estes tiranos colocavam mordaças nas bocas das pessoas, pois não suportavam ouvir as ideias da população nativa.

Quem se atrevesse a tirar a mordaça (que era muito bem presa) apanhava e era expulso da tribo, quando não era assassinado. Após o fim desse regime violento, há quem sentisse saudades. “Quando éramos amordaçados, éramos mais felizes. Todos viviam em paz”, gritava um nativo com fome. Porém, outra parte do povo preferia a liberdade, mesmo com todas as dificuldades. Os subcomandantes, então, deixaram de apoiar o líder, que se viu enfraquecido. Não demorou muitas semanas para sair do poder o líder que não cometeu nenhum crime, que foi eleito pelo povo e que foi extremamente incompetente. Após a queda, o ex-líder foi expulso da tribo. Parte da população nativa protestou, pois achava que o líder não merecia tal punição. Achavam, sim, que a situação da tribo estava péssima, mas que poderia melhorar. A floresta se recuperava de um grande incêndio e outras tribos também passavam dificuldades. Talvez não fosse culpa apenas da falta de habilidade do ex-líder em governar. Uma parte dos nativos até tentou escolher outro líder através de novas eleições, mas todos foram amordaçados e ficaram sem voz. O líder escolhido pelos subcomandantes nada fez para acelerar a melhoria do povo, apenas esperava pacientemente a floresta se recuperar do incêndio. À medida que a natureza voltava ao normal, os recursos também voltavam à normalidade, sem nenhuma atitude política de impacto.

“O nosso novo líder nos salvou”, gritava um nativo durante a madrugada.”Nos salvou nada. A floresta voltou ao normal, seu analfabeto político!”, dizia outro. Cansado da voz da população, o líder eleito de forma não democrática autorizou a volta das mordaças para todos. Agora, todos tinham comida e água, proporcionados por uma floresta recuperada, mas não podiam mais falar, pois as ideias eram perigosas. As gerações passaram e o povo continuou fragmentado. Uns achavam que as mordaças foram a causa da melhoria na tribo, outros queriam ter a voz de volta. De repente, houve uma época em que todos concordaram em retirar as mordaças e retiraram não só as mordaças, mas também a tirania do poder. Eles viram que, unidos por uma causa, eram mais fortes. Mas o tempo passou de novo e a tribo se fragmentou mais uma vez, e, para uma tribo desunida, sempre há, à espreita, quem queira calar a todos.

 

*Rívison Batista é jornalista