Ailton Villanova

20 de Abril de 2016

Cai na área, pô!

      O episódio abaixo papeado foi revelado pelo sábio e inteligente Sebastião Nery, incontestavelmente o maior jornalista vivo do país. Nery sabe ser humorista quando lhe apetece, e exercita essa sua necessidade de valorizar o cômico, o pitoresco, com invulgar competência. Ele ironiza qualquer situação como ninguém. É um escritor imbatível.

      Compara o Nery, que desde o príncípio, os embates envolvendo os nossos dois maiores times de futebol, o CSA e o CRB, “sempre foi uma guerra”. Lembra ele que, num belo domingo de muito sol e nuvens alvas, “o Fla-Flu das Alagoas” ia disputar a última batalha do campeonato de futebol e nenhum dos dois times queria um juiz local, porque, segundo os próprios, “todos eles eram considerados suspeitos e incompetentes, para mediar um jogo de tamanha responsabilidade”. Era preciso arrumar o juiz de fora do Estado e aí pediram ao saudoso José Sebastião Bastos, o Bastinho, recentemente falecido, que ele apelasse à CBF (da qual era vice-presidente para o Nordeste), no sentido de que fosse destacado um árbitro de fora. E a CBF indicou o juiz carioca Rubens de Souza Carvalho.

      Muito do sacana, o publicitário Arlindo Chagas, então diretor do CSA, teve uma ideia diabólica. Conseguiu o telefone do juiz e ligou para a casa dele:

      – Doutor Rubens, aqui é o Oswaldo Gomes de Barros, presidente do CRB de Alagoas. Sou de uma família ilustre do nosso Estado. Sei que o senhor vem apitar o nosso final de campeonato. Precisava ter antes uma conversinha com o senhor.

      O árbitro respondeu na tábua da venta, ou melhor, do ouvido do suposto diretor do CRB:

      – Doutor Oswaldo, não converso com dirigentes de times, sobretudo antes de uma partida final.

      – O que é isso, doutor Rubens? Todo juiz tem o seu preço. Quanto o senhor quer para o meu CRB ganhar o jogo?

      Indignado, o juiz soltou um palavrão e desligou. No dia seguinte, ele chegou a Maceió. As diretorias do CSA e do CRB foram espera-lo no aeroporto. Arlindo Chagas apresentou o juiz ao presidente do CRB. O juiz olhou furioso para o doutor Oswaldo, negou-lhe a mão e lhe deu as costas.

         O jogo foi chegando ao final do segundo tempo empatado. Toda vez que o centroavante Misso, do CSA, pegava a bola e avançava na área do CRB, o árbitro chegava perto e dizia:

         – Cai na área! Cai na área!

         Misso não caiu, o jogo terminou empatado em 0x0 e o juiz voltou pra casa frustrado, porque não teve como dar o troco ao doutor Oswaldo, marcando um pênalti contra o seu time.

 

Brasileiro filho da puta!

      O técnico de laboratório Silas Algafeu, casou-se com a portenha Almira Rosa, que não tem nada de pacífica. Naquele jogo de dez anos atrás envolvendo Brasil x Argentina, válido pela Copa América, os dois e mais alguns vizinhos assistiram ao bate-bola pela televisão. Teve uma hora que o Algafeu explodiu, justo naquele momento que o jogador adversário acertou a canela do Roberto Carlos:

       – Argentino fidapeste! Vá chutar na canela da mãe!

       Almira Rosa não gostou de ver o marido esculhambar o patrício:

       – Filho da puta, não!

       – É, é, é, sim! Sou mordido com esses argentinos. Tudo perna de pau!

       – E os brasileiros, hein? – reagiu a mulher.

       – Os brasileiros são gente fina. Detesto argentino!

       – O quê? Quer dizer que me detesta? Por que casou comigo, seu hipócrita?

       – Você é a exceção, meu amor. Estou falando dos outros argentinos. Todos uns merdas!

       – Quer dizer que o meu pai, a minha mãe e os meus irmãos são merdas?

       – Esses também não!

       – E meus avós, meus tios e primos?

       – Tirando os seus avós, o resto é merda pura! Agora, me deixe ver o meu jogo!

       Terminada a partida, Brasil vencedor, Silas e os vizinhos fizeram a maior comemoração. Quando todos saíram, foi que o cara deu pela falta da mulher. No lugar dela ficou apenas o seguinte bilhete:

        “Fui embora, brasileiro merda, filho da puta!”   

 

O folclórico Jacozinho  

      Ele chegou até vestir a camisa da seleção brasileira de futebol. Jacozinho, folclórico atacante do Centro Sportivo Alagoano, fez história no nosso bate bola. Baixinho, redondinho, corria tão rapidinho talqualmente a pelota que costumava chutar. Moço simples, pouco instruído intelectualmente na época em que se deu o presente episódio, Jacozinho exteriorizava, sem acanhamento, o que brotava da cachola. Uma vez, o CSA foi preliar amistosamente em Belém, interior de Alagoas, que, na ocasião, comemorava festivamente, e ao mesmo tempo, a sua emancipação política e o aniversário do seu principal time de futebol. A agremiação azulina da capital era a maior atração da festança. Mal as duas equipes entraram em campo, o repórter Sérgio Ribeiro, da Rádio Gazeta, partiu para entrevistar a principal estrela do espetáculo futebolístico que se desenrolaria dalí a instantes:

        – Jacozinho, você está preparado para jogar uma boa partida aqui em Belém?

       – Ah, tô meu irmão. E muito honrado, também, por estar na terra onde nasceu Nosso Senhor Jesus Cristo!

       De outra feita, viajando de avião, com o CSA, para disputar uma partida em Aracaju, válida pelo campeonato brasileiro, o baixinho quase matou de vergonha seus companheiros de clube. A bonita comissária de bordo havia chegado à sua pessoa e indagado: “O senhor aceita um cafezinho?” Na batata, Jacozinho respondeu: “Aceito. Mas só se a senhora tiver troco pra cinco mirreis.”

         Jacozinho era impagável. No Trapichão, depois  de um jogo aguerrido entre CSA x CRB, o repórter Jurandyr Costa, à época atuando na Rádio Gazeta, apresentou-lhe o microfone:

         – Por favor, Jacó, uma palavrinha aqui para a nossa emissora. O que achou da partida? O microfone é seu!

         E ele, emocionadíssimo:

         – Obrigado, meu caro repórter. Estou muito feliz por receber esse prêmio. Eu já tinha ganhado rádios e troféus, mas microfone é a primeira vez!