Ailton Villanova

10 de Abril de 2016

Um passageiro muito abusado

Com Diego Villanova

  

    Primeira vez que o delegado de polícia civil Antônio Rosalvo Cardoso, o Mamão, entrou num avião, há 5 anos, deu o maior vexame. Ao seu lado, o colega Jorge Barbosa – também chamado Zé Colméia desde os tempos de academia de polícia -, quase morreu de vergonha. Os dois estavam viajando à Foz do Iguaçu, onde participariam de um congresso de autoridades policiais.

     Mamão já subiu na aeronave, no aeroporto Campos dos Palmares, se cagando de medo. Só abriu os olhos e deixou de bater os dentes ( de medo ) quando o avião já estava nas alturas. Isso, porque o Zé Colméia, deu-lhe um esporro:

    – Levanta a cabeça e abre os olhos, rapaz! Você não é homem não?

    –  Claro que eu sou! O problema é que eu estou um pouco sonolento e meio com frio. Puxa! Como faz frio nesse avião, não é?

    Nesse momento, os alto-falantes da aeronave liberaram para os distintos ouvidos da passageirada uma voz cavernosa:

    – Atenção senhores passageiros, bom dia! Aqui fala o comandante Araújo. Estamos subindo a 11 mil metros de altura. Tenham todos uma boa viagem até o destino final…

    Mal calou-se a voz do comandante, ouviu-se o berro do Mamão:

    – Onze mil metros de altura! Valei-me meu padrinho Cícero! Vamos rezar pra esse avião não cair, minha gente!

    Zé Colméia cucutou-lhe as costelas:

    – Deixa de frescura e cala essa boca, Mamão! Não fala besteira!

    Condoída dele, a comissária de bordo chegou junto:

   – O senhor não gostaria de um cafezinho bem quentinho?

   Um pouco mais calmo, ele respondeu:

   – Quero. Me traga também um pãozinho torrado, com manteiga. Trôco pra 10 reais, viu?

   A moça disfarçou o riso e respondeu com bastante educação:

   – O café é cortesia da empresa e pão torrado com manteiga não temos. O senhor pode pedir outra coisa…

   – Nesse caso, me traga um bule de café, um cuscuz com leite de coco por cima e quatro ovos fritos. Tô com uma fome lascada!

    E aeromoça:

    – Disso tudo que o senhor pediu só temos o café. Aceita ver o nosso pequeno cardápio?

    Aí, o Mamão engrossou:

    – Dona moça, eu só como aquilo que quero e tenho vontade, entendeu? Se a sua empresa não tem competência para atender a freguesia, é melhor fechar!

    E não abriu a boca pra dizer mais nada. Só voltou a falar mais tarde, para responder à outra comissária de bordo, quando esta lhe perguntou se, entre carne e peixe, o que escolheria para o almoço:

    – Nem uma coisa e nem outra, senhorita. Quero feijoada. Se não tiver, pode me trazer uma gamela de sururu de capote com um pirão apimentado.

    Resumindo a história: Mamão desceu em Foz do Iguaçu morrendo de fome e prometendo que, enquanto vida tiver, jamais porá os pés num avião.

    Depois do conclave, voltou pra casa de ônibus.

 

 

Santa cidade

 

     Ex-marinheiro, ex-guerrilheiro no Araguaia, o sertanejo Athaídes Ferreira, é hoje um corretor de imóveis aposentado, curtindo o doce lar com a família. Continua conversador pra mais da conta. Seu papo é daqueles de derrubar avião, motivo do seu sucesso como corretor.

     Antes de optar pela aposentadoria, Athaídes deixou Maceió e voltou a viver no Sertão, onde montou um escritoriozinho imobiliário. Belo dia, bateu na sua porta um cidadão querendo comprar um imóvel naquela região, Então, nosso amigo propôs ao interessado uma visita a um casarão posto à venda, que ficava no povoado de Algaroba.

     – O senhor é um homem de sorte, meu amigo! – disse o corretor ao pretenso comprador – Este é o lugar que possui o melhor clima do Brasil. A água é a mais pura. Aqui, ninguém morre!

     – Mas é tanto assim? – abismou-se o cliente.

     – Se é? Pro senhor ter uma idéia, em 10 anos só uma pessoa morreu neste povoado.

     – Verdade? E que era essa pessoa?

     – O médico. Dizem que ele morreu de fome!

 

 

Artesão é o piloto

 

     Garoto curioso, o Cacá chegou pro pai Carlão e sapecou a seguinte pergunta:

     – Paínho, o que é artesão?

     – Artesão?

     – Sim, paínho… artesão.

     Carlão assuntou, assuntou, temperou a goela, meteu lá uma pose de catedrático e finalmente respondeu:

     – Bom, meu filho… artesão quer dizer… errr… a palavra vem do árabe AR, esse negócio que a gente respira, entende? Tesão vem do grego. É uma coisa que nós temos em determinada parte do corpo. Aliás, uns tem, outros não tem. Em síntese, meu filho: Artesão significa “pessoa que tem tesão no ar”. Logo, é aviador.

 

 

Sogra, a grande culpada

 

     Acometido de grave colapso nervoso, o contabilista Creomazílio Simões teve de ser internado, às pressas, numa clínica de repouso de capital. Ele havia subido num poste de iluminação pública, em frente de casa, e trabalho deu para descer de lá. Foi preciso a intervenção dos bravos bombeiros.

     Mas o que teria causado tanto transtorno ao outrora tranquilo Creomazílio?

     O papo é o seguinte: o infeliz tinha planejado durante um ano inteiro, umas belas férias em Miami com a esposa e o casal de filhos. Todo mundo na maior alegria.

     No dia em que Creomazílio pegou as passagens na agência de viagens, voltou pra casa morrendo de felicidade. Afinal, teria um mês inteirinho com a família longe desta terra cheia de violência. Assim que botou o primeiro pé dentro de casa, teve a mais desagradável de todas as surprêsas de sua vida: foi recebido pela sogra, dona Eutanásia, que sorridente e satisfeita anunciou:

     – Vim passar um mês aqui com vocês! Não é maravilhoso?

     Foi aí que o Creomazílio endoideceu.

 

 

Segure o fogo!

 

     Depois de incontáveis goles de birita, nos mais diversos botecos da Levada, os colegas de copo Alcolídio e Fregonaldo resolveram voltar pra casa, alta madrugada. No meio do caminho, faltou energia elétrica e a rua mergulhou na mais completa escuridão.

     Nesse momento, bateu no Alcolídio aquela vontade de fumar. Aí, tirou do bolso o maço de cigarros, pegou um deles, aprumou no bico e acendeu um fósforo, solicitando ao parceiro:

     – Ô parêia, me segure aqui este fósforo e mantenha ele aceso, por favor.

     – Pra quê?

     – É pra procurar o isqueiro. Quero acender o meu cigarro…

 

 

Acostumada ao remedinho

 

     O Florenildo e sua mulher Genivalda resolveram levar dona Coriolana, mãe da cara-metade, a uma festa de aniversário na casa de um compadre. Chegando lá, a velhota se enturmou ligeirinho.

     Em dado momento, vai passando um garçom com uma bandeja cheia de copos de bebidas. Dona Coriolana deu garra de um deles, emborcou a bebida goela a dentro e ficou na expectativa da volta do garçom, com nova remessa. O rapaz retornou com outra bandeja,  a velhusca esticou o bracinho e pegou novo uísque. Então, o rapaz advertiu:

     – Cuidado, vovó! Isso é bebida violenta!

     E ela, alegrezinha:

     – É nada. Isto é igualzinho ao remédio que o meu finado marido tomava, antes de morrer!